CONCEITOS DE VIDA

ALMA

Cada ser humano é uma unidade, um in-divíduo. Dividi-lo em corpo e alma é uma forma simplista de ver a realidade. A alma, espírito, psique, "sopro" é a vida. O que existe então, é um corpo físico que materializa a vida. Cada ser humano é uma manifestação única dessa força que move o cosmo. Manifestação que acontece no tempo e no espaço: tem começo meio e fim, assim como tudo o que é dado ao homem observar. Acontece que os vivos morrem, mas não a vida que continua a se manifestar sob muitas formas. O superego deseja apropriar-se da vida, ser vida e assim tornar-se eterno. A partir do nascimento ele criou uma identidade que quer preservar. Mas esta identidade é uma máscara, este "eu" é um robô, uma máquina de efeitos condicionados, depositário da memória formada nesta vida. Entretanto, como o indivíduo é também o depositário da memória genética que é transmitida junto com a vida, na concepção, questiona-se se esta vida (também chamado de "eu profundo") pode chegar à autoconsciência. Para isto acontecer a máscara seria arrancada, o robô seria destruído e esta determinada vida se perpetuaria de forma autoconsciente. Este processo, entretanto, ocorreria durante esta vida, neste corpo físico, aqui e agora. Não seria algo a ser experimentado post mortem. 

ALMA E ESPÍRITO

- É possível salvar a alma?
- Não, ela morre com o corpo.
- É possível salvar o espírito?
- O espírito não precisa de salvação. Ele é a manifestação do Uno, que também chamo Tao.
- Afinal, o que é alma?
- Alma é o intelecto, a inteligência, o Ego, o “eu” superficial portador da memória e do conhecimento.
- E o espírito?
- É a origem do movimento e da pluralidade. O Uno não é uma coisa, nem o Ser, nem a Idéia, nem a Forma. O Uno é o que faz com que cada coisa, ser, idéia ou forma, seja o que é.


AMOR

Nada me soa mais certo do que amar o próximo como a si mesmo: amo-o e odeio-o como amo e odeio a mim mesmo. Será que alguém é capaz de amar integralmente a si mesmo? Será que o lado escuro - o lobo que habita as profundezas de cada um – precisa ser sacrificado para que triunfe a luz? Mas por que a luz precisa triunfar se o universo é composto de luz e sombra? Conduzimo-nos por falsos valores, por uma falsa moral ditada pelo intelecto – Lúcifer, o Portador da Luz. Falsa porque é uma ilusão. A Luz sem as Trevas é Nada.

Mas, afinal o que é amor?

O Amor (com A maiúscula) é o sentimento de união com o Todo (tudo e todos).

O amor tal qual o conhece o homem massa é o apego. Quanto maior o apego por uma determinada idéia, pessoa ou objeto, maior é o amor. Nele encontra prazer e segurança que, entretanto, como tudo no mundo, são passageiros. Então este homem cria um ser que lhe dará amor e segurança eternos e o chama Deus. Para os seus inimigos – aqueles que não pensam como ele – cria o inferno, comandado por Satã, onde sofrerão eternamente.

A atração entre opostos não é amor, mas uma necessidade utilitária. Instintivamente cada ser humano necessita desenvolver qualidades naturais pouco desenvolvidas. Para isto ele precisa do outro. Ao encontrá-lo usa de todos os meios – principalmente a sedução - para conseguí-lo. Dependendo do caráter de cada um, pode ser uma guerra muitas vezes dissimulada ou uma aliança em que o outro supre as suas deficiências em troca dos seus tesouros. Um negócio instintivo no nível do inconsciente.

Nós homens da civilização ocidental do século XXI, face aos poderes que estamos conquistando com a descoberta das leis que movem o cosmo e a vida, pensamos ser livres, desvinculados da alma universal. Satanizamos o irracional, o intuitivo, a sabedoria dos antigos, e usando o poder da vontade, aliado à inteligência e à razão pensamos na imortalidade e em poderes infinitos. Pensamos ser os donos da verdade, esquecendo que existem sabedorias milenares que aí estão e que, se divulgadas e aplicadas, poderiam servir para sair desse estado de guerra não declarada em que vivemos apesar de todo o nosso desenvolvimento tecnológico.
Vejam quanta sabedoria em Paracelso:
"Quem nada conhece, nada ama./Quem nada ama, nada compreende./Quem nada compreende, nada vale./Mas quem compreende, ama, observa, vê./Quanto mais conhecimento houver, tanto maior o amor./Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo, como a cereja, nada sabe a respeito das uvas."
Mas sabe alguém o que é amor? Parece que todos sabem o que é poder e paixão. Mas, amor, alguém sabe o que é amor?



ANIMALIDADE

"Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso."
Fernando Pessoa

O homem tem profundo medo dos seus demônios, da sua animalidade. Resgatar a sua humanidade é resgatar também a sua animalidade. Não é possível descartá-la, ignorá-la porque o homem também É animal.
Uma tarefa para super-homens porque a razão é oposição e minoria nesse universo. Felizes aqueles cujos talentos a serem desenvolvidos e tarefas a serem cumpridas ainda estão distantes desse campo de batalha.

APEGO

- dependência psicológica; “Hoje, já não sou possuidor de coisas minhas - sou apenas administrador das coisas de Deus, em prol dos filhos de Deus, meus irmãos.” (Rohden)

ARQUÉTIPO OU IMAGEM PRIMORDIAL

- é a "percepção do instinto de si mesmo" ou o "auto-retrato do instinto", à semelhança da consciência que nada mais é, também, do que uma percepção interior do processo vital objetivo. O arquétipo representa o elemento autêntico do espírito, mas de um espírito que não se deve identificar com o intelecto humano, e sim com o seu "spiritus rector" (espírito que o governa)...." (Jung).

ARTE

- Arte é beleza. Beleza é harmonia. Harmonia de traços, cores, luz, sombra, tons, sons, palavras, etc. Esta manifestação pode ser agressiva, relaxante, sensual... É preciso sensibilidade para captá-la. Cada pessoa tem uma reação pessoal, subjetiva com relação à arte. É uma questão de gosto. Mas o bom gosto, o gosto apurado - além da sensibilidade pessoal - é adquirido pelo estudo e pela pesquisa das diversas técnicas utilizadas na manifestação artística.
"Só recentemente a obra de arte começou a ser valorizada por si mesma, como um corpo independente, dissociado de seu criador. Um objeto autônomo, alheio às considerações temporais e opiniões subjetivas. A obra de arte é uma “coisa” que traz em si mesma a razão da sua existência. O “gênio” é aquele pela qual a natureza se expressa diretamente.
Para Platão, o artista tem o olhar voltado para as aparências (para o mundo material e finito) e não para a verdade (isto é, para a idéia eterna e imutável das coisas. Isso quer dizer que o artista imita o que já é, por si mesmo, imperfeito e cambiante, enquanto o filósofo contempla a forma pura, o modelo perfeito. Um artista pinta uma flor, mas não “a flor”. Ele não mira a essência e sim uma flor qualquer. Logo, para Platão, a arte não é capaz de revelar verdade alguma.
Para Heidegger, a obra de arte traz uma verdade implícita, que transcende o tempo e o próprio artista. Uma verdade que não é abstrata e vazia, mas que revela ou desvela um mundo, uma terra. Ou melhor, faz emergir o que originalmente está oculto, o “fundo” da terra, a verdade que o mundo tenta esconder. A arte faz aparecer a terra como terra, redescobre o mundo em seu estado nascente. Poderíamos dizer então que ela não expressa nada do mundo, mas apenas aquilo que o mundo não vê ou não quer ver, a sua essência mais profunda, o próprio ser do mundo. É nisso que Heidegger parece se aproximar de Nietzsche, que também vê a arte como expressão da vida, das forças abissais mais profundas, enquanto pensa o artista apenas como o seu mensageiro, o seu arauto.
Se Nietzsche parece dar prioridade ao artista e ao seu “estado criador” é porque é ele quem pode retirar das pedras, das cores ou das notas musicais uma potência de vida, um poder revitalizador, uma outra espécie de verdade. Não uma verdade conceitual, cultural. Essa é, para ele, apenas uma mentira bem contada. Tratas-se de uma verdade da natureza e do tempo e que diz respeito ao caráter insubstituível e singular de todas as coisas.
Talvez, diante disso, possamos compreender melhor porque Platão condenava a arte, já que nada ameaça mais o falso e doentio equilíbrio da cultura do que a explosão de vida que irrompe em cada criação autêntica.”
(Tópicos do comentário de Regina Schöpke, filósofa, sobre o livro “A Obra de Arte – Ensaio sobre a Ontologia das Obras”, de Michel Haar. Bertrand/Difel, publicado no Caderno2/Cultura – O Estado de São Paulo, pág. D4, de 22/00/2000.)

AUTOCONHECIMENTO

Cada ser humano tem um caminho próprio, individual para desenvolver as suas potencialidades.
O homem, entretanto, está jogado no mundo - conjunto de condições geográficas, históricas, sociais e econômicas em que cada pessoa está imersa - sem que a sua vontade tenha participado disso.
Aos poucos ele desperta e sente uma necessidade instintiva, que se apresenta como uma angústia indefinida que o leva a questionar quem é, de onde vem e para onde vai. Com o decorrer dos anos essa angústia transforma-se num sofrimento intenso ao qual Carl Gustav Jung denomina de passio animi (paixão da alma). Este despertar é um processo de autotransformação, de evolução que leva a um nível superior de consciência.
A angústia – segundo Heidegger – é, dentre todos os sentimentos e modos de existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferença da vida cotidiana.
Darwin desenvolveu uma teoria científica da evolução biológica. Antes dele, já era amplamente aceita pelos filósofos a idéia de que havia uma evolução da consciência humana. Enquanto aquela pode ser comprovada cientificamente, esta é um processo subjetivo, é uma experiência, um saber que não pode ser pesado, medido, testado porque é autoconhecimento.
Observa-se pois, que além da evolução biológica há no homem um processo de evolução de consciência.
O desenvolvimento ou evolução da consciência processa-se a partir da experiência direta, da observação, do desenvolvimento da sensibilidade e da intuição. Este é o sentido da vida.

Na evolução da minha consciência percebo que cada vez tenho uma visão mais subjetiva da realidade. Mergulhando dentro de mim e, sendo cada vez mais eu-mesmo, desenvolvo uma maior percepção do mundo. Mas esta percepção, esta consciência é subjetiva. Não é mais uma teoria, mas um pensamento meu. Este pensamento é a única coisa efetivamente minha, é a única coisa que tenho. Quando cito os sábios antigos eu tenho consciência de que o que nós sabemos deles não é efetivamente o que eles pensavam. Ao lermos o que eles escreveram ou outros escreveram acerca deles, temos uma idéia nossa do que eles pensavam. Ao interpretarem os escritos destes ou sobre esses sábios, os estudiosos podem chegar a um denominador comum, mas nunca será o pensamento real daquele pensador.
Por isto eu não entro em detalhes sobre o que eles pensavam porque a interpretação sempre será subjetiva. Mas observo a sua (deles) visão do mundo, e é essa visão do mundo que procuro sentir, perceber, intuir. Ora, a partir do momento em que compreendo o significado do Uno, percebo que é impossível transgredir a Lei porque qualquer coisa que eu faça ou pense, eu o faço e penso dentro da Lei. A luta traz sofrimento e fortifica o Ego. O fortalecimento do Ego acontece de acordo com a Lei. Quando o Ego se julga o próprio Deus, ele está “maduro” para morrer. Com a “morte” do Ego cessa a luta, o sofrimento, e o
ser entra em harmonia com o Todo. Somente luta contra a matéria e os instintos "bestiais", quem ainda precisa fortalecer o Ego.
A moralidade é um valor egoísta, é um valor daqueles que dividem o mundo entre Bem e Mal, certo e errado. “Conhecer o mal para chegar a ser bom” é uma concepção dualista que conflita com a realidade do Uno. O sábio é amoral porque ele sente o cosmo como um Todo, sem as divisões que o intelecto impõe. Ser sábio, ser consciente, não significa ser bom nem mau, mas ser si-mesmo e ver o mundo como ele é.
Na evolução do ser a ampliação da percepção de mim mesmo, o conhecimento de mim mesmo, leva-me à consciência de que sou um universo totalmente diferente de qualquer outro ser humano. Eu sou único e por isso nem tudo o que é válido para mim se aplica aos demais seres humanos e vice-versa.
Por ter uma percepção totalmente subjetiva da realidade, observo que não me é permitido citar outros pensadores. Isto é, eu utilizo parte das suas idéias para afirmar minha realidade, o que somente irá gerar confusão para terceiros. Concluo que somente posso expor a minha visão do mundo e, reconheço que muitas vezes os citava para demonstrar um pouco do meu conhecimento intelectual.
Tudo está inter-relacionado. Tudo o que existe forma uma Unidade. A Lei engloba todas as leis conhecidas e desconhecidas que regem essa Unidade. Nada a ver com "Verdade Absoluta".
O livre arbítrio é condicionado. Isto é óbvio, não é verdade? Então eu não posso fazer o que eu quero, mas somente aquilo de que sou capaz por imposição da minha natureza individual. Esta minha natureza individual dá um sentido, uma direção para a minha vida, independentemente dos meus desejos egoístas. Veja, eu não especulo. Eu falo da minha experiência pessoal, confirmada por experiências individuais de outras pessoas. Embora cada sujeito viva uma experiência singular o processo de individuação segue a Lei. Se ocorre inconscientemente pode acontecer o que você cita. Mas quando o processo é consciente muitas obscuridades são iluminadas, e o consciente ganha, infalivelmente, uma amplitude e profundidade.
Falamos em "morte" do Ego mas o Ego somente morre com o corpo físico, não é verdade? Quando se fala em "morte" do Ego entende-se que não mais é o Ego que domina a personalidade. A personalidade está dominada por uma força maior que surge do inconsciente, do Id. É o processo citado pelos esotéricos e pelo Novo Testamento. É o "espírito", o instinto consciente que irá dominar a personalidade. Este é o "novo" homem, um ser total, o si-mesmo. A matéria e os seus "vícios" fazem parte do corpo e da consciência deste novo homem.
Para o espírito não existe o certo e o errado. O que é "espírito"? O Espírito é a origem do movimento e da pluralidade. Ele não é uma coisa, nem o Ser, nem a Idéia, nem a Forma. O Espírito é o que faz com que cada coisa, ser, idéia ou forma, seja o que é. Eu chamo o Espírito de Uno. O Espírito também é chamado de mente: mente universal.
Ninguém tem a obrigação de fazer o outro feliz. Ninguém tem a obrigação de saciar a fome e a sede de outrem a não ser em casos excepcionais..
O Universo é equilíbrio. Aquele que é sábio sabe que tudo é como deve ser. Não há felicidade permanente. Tudo evolui. O sofrimento e o prazer fazem parte do processo.

A experiência pessoal, subjetiva, não tem valor universal, mas esta é a única forma que o ser humano encontra para desenvolver uma compreensão ampla e profunda da sua realidade.
Em oposição ao mundo das idéias de Platão há o mundo dos sentidos dos sofistas. Para os primeiros a única realidade é a das idéias enquanto que para os outros a realidade é formada pela percepção dos nossos sentidos e, por isto, os valores e as verdades são instáveis e relativos. Na verdade, não existe oposição entre essas duas concepções. Elas se completam. Heráclito já afirmava que todas as coisas opõem-se umas às outras, e dessa tensão resulta a unidade do mundo. No mesmo sentido temos o Uno de Plotino e o complexio oppositorum de Nicolau de Cusa. No oriente distante, viveu Lao Tse que escreveu sobre Tao, o Uno. A Ciência no século XX, com a descoberta dos quanta, confirma: O Universo é um Todo, tudo se relaciona.
O ser humano é um universo. O ser humano é um todo, espírito e matéria. A oposição entre essas forças forma a energia necessária para que a evolução se realize. A visão parcial da realidade, isto é, dividindo a natureza humana em bestial e divina tem levado aos equívocos em que incorrem todas as religiões organizadas.
Faço essas observações porque não participo do entendimento da mística assim definida pela filosofia, pela teologia e pelas religiões formais. O homem é um todo e não será usando a razão para lutar contra si mesmo - contra as forças “bestiais” ou “demoníacas” que fazem parte de sua natureza, segundo aqueles – que alcançará a tão desejada unidade com a “divindade”. Não será na repressão, mas sim no equilíbrio entre os seus instintos e a razão que alcançará a ampliação da consciência e a percepção do todo. Se estamos num processo de evolução ou desenvolvimento da consciência, e eu assim o percebo, o mundo em que vivemos é de absoluta justiça. Tudo é como deve ser. Basta observar.

Não sei se você compreende o meu pensamento. Se você se guia somente pela razão e pela lógica certamente há uma barreira entre nós. O mundo das idéias do Filósofo geralmente está distante da realidade, do aqui e do agora. O pensar intelectual opõe-se ao sentir. E eu sou uma pessoa que sente o mundo. Gostei do texto de Osho que você postou. Na verdade, Osho nada escreveu. Foram os seus discípulos que transcreveram as suas palestras. Vale a pena aprofundar-se no conhecimento de Osho. Ele traduz o verdadeiro pensamento Sufi: quem experimenta sabe.
Agora você nos apresenta Ahmad Yesevi: "Faça de você nada além de um amante do Senhor." Este não conheço, mas dá para perceber que é o oposto de Osho. Ser um Amante do Senhor é viver uma idéia, uma ilusão, é desvincular-se do aqui e do agora, da realidade presente, é viver da fé. É uma opção de vida - quantos a seguem, não é verdade?
Quando amar o próximo - homem, animal, vegetal ou mineral; o Sol a Lua e as estrelas - é muito difícil, ama-se uma ilusão porque ela pode ser idealizada, pode ser moldada de acordo com as conveniências e desejos do sujeito.
Percebe você a babaquice que significa "ser um amante do Senhor"? Precisamos amar o nosso pai, a nossa mãe, o nosso irmão, a nossa mulher ou marido, o nosso vizinho, o nosso amigo, o estranho que encontramos na rua, o cachorro de rua, os pássaros que alegram a nossa vida. A estes é muito complicado amar, então vamos amar ao Senhor! Francamente! Escrevo isto porque as pessoas ditas religiosas muito pouco amor tem ao mundo que as cerca e que elas dividem entre certo e errado. Se não fosse a diversidade, o universo não teria graça, não é verdade? Por isso permita-me cumprimentá-lo pela oportunidade de trocarmos idéias.

AUTOTRANSFORMAÇÃO

          São poucos os que o conseguirão porque “quando se tem inteligência pode faltar coragem e autoconfiança, ou a pessoa é espiritual e moralmente demasiado preguiçosa ou covarde para fazer qualquer esforço” (Jung).
A civilização é uma construção coletiva em que cada ser humano é uma peça. O prazer individual é restringido em favor do bem comum. A energia da vontade, através da disciplina, é canalizada para o desenvolvimento do grupo. O prazer, a alegria, as lutas, as vitórias e o sucesso são resultados de um esforço coletivo baseados em ideais que buscam o bem comum. Toda essa conquista, entretanto, baseada na repressão e no direcionamento das energias é colocada em cheque – geralmente, na segunda metade da vida - pelas forças profundas, naturais e involuntárias – os instintos - que governam a vida . Pode ocorrer, então, uma autotransformação, também chamada de “individuação” por Jung, “renascimento pelo espírito” pela Bíblia, um processo promovido pela lei cósmica da evolução. É uma crise existencial. A depressão e a ansiedade - a neurose – não são doenças mas sintomas desse processo. As energias instintivas e inconscientes, reprimidas e castradas pelos ideais coletivos, procuram romper o status quo. Embora todo o esforço do superego auxiliado pelos meios médicos oficiais seja o de manter o seu poder sobre a personalidade, seja por meio de terapias, análises e/ou medicações, a evolução processa-se de acordo com as energias individuais. Se estas forem suficientemente fortes para usar aqueles meios em proveito próprio, eles serão abandonados proporcionalmente à evolução da consciência. Deste processo nasce um novo ser, um novo homem, um homem cosmoconsciente, um in-divíduo.
Na nossa civilização o in-divíduo é colocada à margem da sociedade. Todo o esforço coletivo é direcionado no sentido de impedir a sua existência. Ele é um perigo para o rebanho. O in-divíduo é a exceção e como tal é isolado porque foge à regra da igualdade. Ser um in-divíduo não significa ter personalidade própria (persona - máscara) ou ser um líder. Este é o eleito da massa. Canaliza os desejos conscientes e inconscientes de um grupo, representa, personifica um segmento e/ou determinada sociedade. Ele também é massa. O in-divíduo é único e, por isto, não aceitará seguidores, discípulos ou eleitores embora a sua aura, muitas vezes, atraia multidões. Ele não se identifica com a massa – o homem comum, normal – porque está num outro nível de consciência. Ele é um in-divíduo, uma unidade.
No processo de autotransformação, há a evolução da consciência, em amplitude e profundidade, da inconsciência para a consciência - da ignorância para a iluminação. É o despertar de um sono sedado, de uma embriagues, uma batalha contra as trevas, as ilusões e os condicionamentos.
Despertar, tomar plena consciência da sua realidade é ser verdadeiramente homem.
A ampliação da consciência começa a revelar a verdadeira identidade individual. O indivíduo começa a perceber a sua diferença em relação a qualquer outro ser humano. Começa a compreender que cada ser humano é único, um todo, um universo. A sua identidade estava dispersa, refletida nos espelhos - amigos e conhecidos - que formam o seu mundo. Era incapaz, entretanto, de identificar a sua identidade individual projetada nos seus semelhantes. Mas agora os véus começam a cair, o espelho começa a desembaciar e, aos poucos, a sua imagem individual surge iluminada. Ele não está construindo teorias nem estudando e pesquisando os outros, ele está descobrindo a si mesmo.
Na autotransformação desenvolve-se a sensibilidade, a intuição, o sexto sentido. Aos poucos, pela observação, o homem começa a compreender as conexões que existem entre o seu mundo interior e o mundo exterior. Este saber somente se firma quando ele abandona todas as certezas, todas as verdades construídas pela crença, pela fé cega e pela esperança.
O homem quer respostas racionais para todas as suas interrogações. Mas, racionalmente e pela lógica formal, ele nunca chegará a uma conclusão definitiva sobre coisa alguma. Por isto a demanda da Verdade exige uma passagem para além das fronteiras do pensamento ordenado. Esta passagem, entretanto, não significa fé cega. Dizem alguns que somente existe a Fé. Sem adjetivos. A fé é um sentimento que pode ser consciente e inconsciente. O homem pode acreditar numa mentira, e de tanto repeti-la e reafirmá-la como verdade condicionará a sua mente e o seu coração. Após gerações, ela será transformada em dogma. E por ele o homem matará e morrerá. Esta é a fé cega. Mas somente pode enxergar quem é cego e somente pode despertar quem está dormindo. A fé cega é uma etapa do caminho da evolução. Quando o homem desperta e começa a enxergar a fé passa a ser consciente. A realidade é percebida como ela é. O in-divíduo não tem necessidade de acreditar porque a sua consciência se iluminou. Ele sabe.
Aqueles que falam num destino coletivo, em salvação de um povo, de uma raça ou da humanidade ainda não despertaram para o fato de que a única realidade é o indivíduo.
A construção da civilização é uma obra coletiva, a individuação uma conquista solitária. Esta luta em busca de si mesmo é a maior aventura e a maior tragédia individual de cada ser humano.

BHAGAVAD GITA

- Segundo a concepção cósmica da filosofia oriental, toda a atividade do homem profano é fundamentalmente trágica, eivada de culpa, ou karma, porque quem age é o ego, e esse ego é uma ilusão funesta e tudo que o ego ilusório faz é necessariamente negativo, contaminado de culpa e maldade.

Se tal é toda e qualquer atividade do homem profano, então estamos diante de um dilema inevitável: ou agir e onerar-se de culpa – ou não agir e assim preservar-se de culpa.
Grande parte da filosofia oriental optou pela segunda alternativa do dilema: não agir, entregar-se a uma total inatividade, abismar-se numa eterna meditação passiva, a fim de não aumentar o débito negativo do karma.
A Bhagavad Gita, porém, não recomenda nenhuma dessas duas alternativas: nem o não-agir e preservar-se de culpa, nem o agir e cobrir-se de culpa. A Gita descobriu um terceiro caminho: o de agir sem culpa ou karma.
A Bhagavad Gita recomenda o caminho do reto-agir, eqüidistante do falso-agir e do não-agir.
Como pode o homem agir sem se onerar de culpa?
O falso-agir é um agir por amor ao ego; mas o reto-agir age por amor ao Eu, embora através do ego, e assim a sua atividade não é culpada.
O reto-agir, por amor ao Eu verdadeiro, não só não cria uma nova culpabilidade, no presente e no futuro, mas neutraliza também o karma do falso-agir do passado, libertando assim o homem de todos os seus débitos.
É nisto que consiste a suprema sabedoria da Bhagavad Gita.
Mas para que o homem possa agir assim, por amor ao Eu verdadeiro, deve ele conhecer esse Eu, deve conhecer a verdade sobre si mesmo.
É o que Krishna explica a seu discípulo Arjuna através dos 18 capítulos que perfazem o diálogo deste poema metafísico; autoconhecimento para tornar possível a auto-realização pelo reto-agir.
A quintessência da Gita é, pois, um convite para o reto-agir, porque o homem não se realiza nem pelo não-agir, nem pelo falso-agir.
A alma da Bhagavad Gita é um poema de auto-redenção pela auto-realização baseada em autoconhecimento.
Homem, conhece-te a ti mesmo!
Homem, realiza-te! (Huberto Rohden)

BEM E MAL

O Bem não existe sem o Mal; um é a ausência do outro. Sabemos o que é Mal porque o comparamos com Bem. Eles não existem por si mesmos. O Bem só é Bem porque o Mal existe. Quanto maior a força do Bem maior será a força do Mal. Um precisa do outro. Um não existe sem o outro. Os dois se completam.
Pela lógica, o Mal é uma necessidade. Pois sem ele, não existiria Deus. Sem o Mal, não existe o Diabo e o inferno; sem Diabo e inferno, não existe Deus e o céu que são seus opostos; se não existisse o Bem e o Mal, Deus e Diabo, as religiões formais seriam uma farsa. Você tem que acreditar!!!

CAMINHOS

Não há tempo perdido.
Não há caminhos certos ou caminhos errados.
Somente há caminhos. E cada um tem o seu caminho.
Por isso não há do que se lamentar.
O eu verdadeiro comanda a vida de todos os seres.

CARÁTER

- É o conjunto de disposições congênitas que formam o esqueleto mental de um homem”(Renné Le Senne). O caráter pode ser comparado a uma máquina de escrever e a personalidade à letra escrita.

CIBERNÉTICA

- Ciência do autogoverno, ciência da ação, ciência da estruturação, da organização e, atribuição suprema, ciência dos atos reais de transcendência... conforme o grau de profundidade em que é considerada.”(Pasolini.)

COMUNISMO

- O filósofo italiano Norberto Bobbio afirma que nazismo e comunismo são irmãos: tem o mesmo inimigo, a liberdade da democracia liberal e burguesa. ..."o nazismo e o comunismo, contrariamente à opinião geral de que são ideologias opostas, têm matrizes comuns: os dois combatem o livre mundo burguês do mercado e dos Estados parlamentares, os dois casam com a "Gemeinscraft" contra a "Gesellschaft", a comunidade arcaica (aquela em que o indivíduo é só parte de um organismo) contra a sociedade moderna dos indivíduos singulares (e, enquanto tais, em livre relação entre si), os dois opõem-se ao individualismo e são partidários do organicismo social." Tanto o comunismo quanto o nazismo tem como base uma utopia reacionária. "Neste projeto utópico de transformação radical da sociedade está implícita uma idéia antiliberal, pois o liberalismo acredita que a história da liberdade é uma história de constantes passagens do bem para o mal, de tentativas fracassadas e falidas. Não existe um fim obrigatório de sociedade perfeita. Liberalismo é igual a antiperfeccionimso, ao passo que marxismo e nazismo foram utopias perfeccionistas."

CONDICIONAMENTO

- Cada pessoa vê e sente o mundo de uma forma peculiar. As respostas que damos aos estímulos do mundo exterior são condicionadas. O condicionamento geralmente é construído pela lei do menor esforço. Mudá-lo exige esforço, disciplina, tempo e é doloroso. Por outro lado o ser humano tem necessidade de sentir-se útil e amado. Pensamos, muitas vezes, que correspondendo à expectativa dos outros e sendo "bonzinhos" seremos amados. Veremos depois que estamos enganados. Ser si-mesmo, autêntico e construir o seu espaço parece-me a melhor forma de conquistar verdadeiros amigos e a harmonia interior. Ter o seu espaço significa depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade. Embora muitos se sintam felizes na dependência dos outros, há aqueles que somente o são, sendo livres. A liberdade, embora relativa, é o trabalho de toda uma vida. Começa-se com pequenas coisas que parecem insignificantes mas são elas as pedras que formarão a base para a libertação.
Nosso único dever, a nossa única obrigação é o profundo respeito ao outro, o que, obviamente, deve ser recíproco. Respeito não significa submissão. Mesmo quando somos dependentes, emocional e financeiramente, precisamos construir e manter o nosso espaço. Não podemos esquecer que as dificuldades, por maiores que sejam, são desafios a serem vencidos e, por isto, motivações para viver. Agir é a palavra-chave. Mas a ação para concretizar-se necessita da energia da vontade que nem sempre está disponível. A ação não deve ser forçada pelo superego. Uma forma de canalizar a energia para a ação é o pensamento. Escolher o primeiro passo a ser dado e fixar o pensamento nele: "eu preciso fazer isto". Repetindo o pensamento, aos poucos forma-se a energia necessária para a ação. Ela vai acontecer naturalmente, sem a necessidade de violência contra o outro ou contra si mesmo.

CONHECIMENTO

Ao invés de procurar conhecer as coisas, é preciso examinar antes o sujeito e o modo como esse sujeito forma o seu conhecimento dos objetos, afirmava Kant. O conhecimento começa com a experiência, mas nem por isso origina-se nela. O sujeito apresenta capacidades ou faculdades que possibilitam a experiência e o próprio conhecimento. Tempo e espaço são duas condições sem as quais é impossível conhecer, mas o conhecimento universal e necessário não se esgota neles. É preciso, também, o concurso dos elementos apriorísticos do entendimento.
É necessário compreender como o homem toma consciência da sua realidade.
A percepção reside na recepção dos estímulos, feita através dos sentidos; o pensamento qualifica a percepção objetivamente dentro do quadro mental da sua realidade; o sentimento qualifica a percepção subjetivamente entre prazer e aversão; a intuição fornece um componente, um “saber” que está além da aparência externa da coisa e que não é, necessariamente, verdadeiro. Desenvolve-se essas capacidades através da auto-observação.
A inteligência irá processar essas informações. A associação de informações pouco exige da inteligência porque representa uma simples soma, um processo mecânico de junção de dados. O resultado é um conhecimento superficial, a erudição. É a dissociação intelectual - a reflexão - que permite distinguir a realidade da aparência, desfaz confusões e ilumina aspectos ocultos das coisas. Ela exige muito mais argúcia, poder de observação e senso dos matizes. Ela promove a compreensão profunda, a sabedoria.


CONSCIÊNCIA

Consciência é a percepção, a compreensão que cada um tem de si mesmo e, conseqüentemente, do mundo que o cerca. Tanto o homem como o animal são regidos, do ponto de vista psíquico, pelo inconsciente. Não há entre eles, senão uma diferença de grau, marcada pelo nível de realização da consciência. Só quando o homem possui a capacidade de ser consciente é que se torna verdadeiramente homem.
(Carl Gustav Jung).

Consciência é a reflexão pela qual eu percebo que o fruto de elaboração do meu cérebro é verdadeiro, ou que é falso, ou que tem este ou aquele valor... Consciência é a percepção do ato do conhecimento; o olho não vê que está vendo, o ouvido não ouve o que está ouvindo, mas a mente sabe que está sabendo, conhece o próprio conhecer, está consciente de ser consciente. No plano da lógica formal, o problema é insolúvel.”(Piero Pasolini)


No que consiste a consciência é um enigma para a ciência. Se é possível decifrá-lo não sabemos, mas sabemos que temos consciência, isto é, sabemos que sabemos. E que ela evolui. Há diferenças entre a consciência de uma criança, de um adolescente, de um jovem e de um adulto. A sua visão do mundo difere. Mas mesmo entre adultos em que a consciência está madura há abismos. Podemos afirmar, portanto, que a consciência varia de indivíduo para indivíduo. Então, sem teorizar, - porque isto irá contra o que pretendo apresentar - somente posso escrever sobre a minha consciência.
A visão que cada um tem do seu mundo é individual, subjetiva, baseada na sua natureza - formada por forças instintivas e, portanto, inconscientes - e nas informações recebidas pelos sentidos e processadas pelo cérebro. O instinto - conceituado por Kant como “necessidade interior” – nos conduz para o caminho da experimentação. Ele é “domesticado” pela dor. Entre erros e acertos o homem aprende. A evolução processa-se pela experiência. As energias inatas que o movem conduzem-no para caminhos que não são escolhas, mas determinações do seu caráter, pois os homens nascem potencialmente diferentes. Alguns, pela sua natureza, vêem o mundo de forma objetiva: as experiências de vida são orientadas pelos fenômenos objetivos tanto na forma de fatos concretos, como de idéias gerais. São racionais. Nestes a consciência tem maior amplitude. Outros percebem a realidade subjetivamente: os fatos são recolhidos apenas como evidência para suas próprias hipóteses e não em benefício dos próprios fatos. O modelo vem de dentro, da experiência de vida, da intuição (instinto) e é, portanto, puramente subjetivo. São intuitivos. Aqui predomina a profundidade. A consciência se expande quando desenvolvemos as percepções objetiva e subjetiva com a mesma intensidade.
Ter consciência é saber. Mas este saber é mais profundo do que o conhecimento intelectual. A ele adiciona-se a experiência e a maturidade do indivíduo. Esta quando transmitida como informação tem um impacto apenas superficial na personalidade. Há uma gradação entre o ouvir falar e estar presente ao fato. Presenciar um fato em que são ativados todos os sentidos causa uma impressão muito forte. Nada, entretanto, é comparável ao sentir a experiência na própria pele. Isto é experimentar. Somente quem experimenta sabe. Ela dá uma compreensão profunda. Uma experiência pessoal pode derrubar anos ou até séculos de certezas firmadas teoricamente. A experiência tem, no entanto, um valor totalmente subjetiva. Ela pode representar um divisor de águas para a vida de um e ser apenas um acontecimento corriqueiro para outro. Uma única experiência nem sempre é suficiente para que se aprenda e compreenda. Cada coisa tem infinitos ângulos que precisam ser descobertos. Por isto, parece que o homem, pelas suas limitações naturais, nunca terá plena consciência da sua realidade. A sua consciência sempre será parcial, mas em permanente expansão.


O problema é que "consciência" é um saber que não pode ser definido intelectualmente, objetivamente, cientificamente. Consciência é um valor subjetivo.
Consciência é um saber, uma percepção ampla e profunda da sua realidade. Há aqueles que acham que são conscientes porque tem informações, tem uma história, tem memória. Consciência é muito mais do que isto.
Há níveis de consciência. Quem tem consciência ampla e profunda conhece a "sua verdade". As pessoas "insensatas e ignorantes" porque tem uma consciência superficial, somente tem uma "história" pessoal. Elas não conhecem a sua verdade.
Uma sólida formação religiosa - infância e adolescência - é um condicionamento poderoso, uma lavagem cerebral que É consciência. Todos os valores morais e éticos que são ensinados como verdades nesse período, permanecem, para muitos, como certos e verdadeiros até o final das suas vidas. A fé, reforçada diariamente, através de orações e o convívio com o grupo que partilha das mesmas idéias torna a consciência individual assim formada impermeável - o objetivo das igrejas.
Sobre essa consciência afirmou Lutero, perante o conselho de Worms:
"Eis-me, pois aqui. É impossível que seja de outra maneira, pois minha consciência moral está presa à palavra de Deus e é perigoso e impossível fazer qualquer coisa contra essa consciência. Não posso, não quero abjurar".
A consciência é um todo. Forma-se a consciência com o uso dos sentidos, do sentimento, da razão e da intuição. São estas funções que dão a cada indivíduo a percepção singular da realidade. O equilíbrio entre a razão e o sentimento, entre o objetivo e o subjetivo não é algo que possa ser objeto da vontade. A natureza intuitiva e emocional não conseguirá ver o mundo com a mesma racionalidade daquele que tem desenvolvida essa qualidade. Perseguimos ideais e o equilíbrio entre a emoção e a razão é um ideal.
Ainda há entre nós - povos do terceiro mundo - o paternalismo e o servilismo, senhores feudais e seus agregados, porque ainda não conseguimos evoluir para uma sociedade moderna formada por indivíduos em livre relação entre si. Por outro lado, ainda é forte a idéia do rebanho conduzido por pastores iluminados onde é impensável a liberdade individual. Parece-me que estamos num período de transição, de contestação, em que os valores éticos e morais da sociedade arcaica estão sendo reavaliados. Toda mudança é dolorosa mas ela insere-se no processo de desenvolvimento do indivíduo e, consequentemente, da sociedade.
Olhamos a realidade através das lentes da cultura, da experiência de vida e da crença.
A EVOLUÇÃO DA CONSCIÊNCIA

Para muitos é indesejável ver o homem na sua inteireza. O condicionamento imposto pela civilização - religião, tradição e moral - o mantém preso na sua inconsciência. As forças que o aprisionam são poderosas e o fazem lutar contra si mesmo.
Parece que tudo conspira contra a evolução da consciência. Muitos simplesmente a negam. Aqui poder-se-ia aplicar aquele ensinamento sobre o Diabo: "o mais belo estratagema do Diabo seria de nos persuadir que ele não existe." O Mal, aqui, pode ser identificado como sendo a força que resiste e nega a existência da evolução.
A força da inércia parece manter o cosmo e o ser humano num aparente torpor, numa letargia que parece não ter fim. É verdade, são necessários milhões de anos para que o homem perceba alguma mudança no processo de evolução do seu mundo externo. E parece que é necessário o mesmo período de tempo para que a consciência individual evolua.
O desenvolvimento cultural, científico e tecnológico é cumulativo e coletivo e, por isso, o seu ritmo é veloz. Estes conhecimentos e técnicas podem ser transferidos para toda a humanidade e para as gerações futuras de forma pronta e acabada. Sua velocidade depende somente dos meios de comunicação. A evolução da consciência, entretanto, é um processo individual, lento e gradual, forma um saber que não pode ser transferido.
Nenhum agente externo - religião, escola esotérica, filosofia, idéia ou crença - é capaz de despertar a consciência. O despertar somente acontece através de uma transformação interior cuja causa está no seu inconsciente.



CONSERVADOR E LIBERAL

- Dizia John Stuart Mill que "eu nunca quis dizer que os conservadores sejam geralmente burros. O que eu quis dizer é que as pessoas burras são geralmente conservadoras. Esse fato me parece tão óbvio e tão universalmente aceito como princípio que não posso imaginar um gentleman verdadeiro que o negue".
Parece-me que conservador é aquele que procura não correr riscos, ou minimizar os riscos ao máximo. Ele é contra mudanças que possam abalar a sua segurança, o seu condicionamento. Ele prefere seguir um caminho pronto em que as dificuldades já são conhecidas porque é a forma mais simples, fácil e cômoda de alcançar o objetivo. Ela não exige muito esforço e inteligência.
O inovador quer mudanças e sabe que elas trazem riscos. As dificuldades e os imprevistos que irão surgir durante o caminho - pois nem sempre é possível identificar todas as variáveis de uma empreitada - irão exigir muito trabalho e inteligência para serem superados.
Parece-me que o conservador prefere deixar as coisas como estão para ver como é que ficam. O inovador não. Nesse sentido concordo com J. S. Mill: os burros são conservadores porque a inovação exige o uso da inteligência.
Obviamente - como você conclui - no meio é que está a virtude. Mas não podemos negar que são os inovadores, os revolucionários - que nem sempre podem prever todos os efeitos das suas ações, mas tem a coragem de seguir em frente - são os verdadeiros agentes do desenvolvimento.



CULTURA

- Programa que tem audiência, tem patrocinadores. Não é assim que funciona a lei do mercado? Mande a Globo colocar em horário nobre a Filarmônica de Berlim tocando Beethoven, Mozart, Bach, Brahms, para concorrer com o programa do Ratinho para ver o que acontece. Isto aqui não é uma democracia? Ou será que na área cultural devemos impor o que a elite julga ser de qualidade? Será que devemos subsidiar programas culturais? Isto irá mudar o "gosto" do povo? Por que será que os programas de televisão são um lixo, estão nivelados por baixo, alguém sabe? Pois se os senhores acompanharam o que aconteceu neste país nos últimos vinte anos certamente saberão. A democratização mandou jogar no lixo as disciplinas de Educação Moral e Cívica e Estudos de Problemas Brasileiros. Era o mínimo, mas eram resquícios da ditadura! Com a implantação do Plano Real os excluídos do mercado de consumo começaram a comprar fornos de microondas, geladeiras e TELEVISORES. Os excluídos não são somente os sem terra e sem teto, os excluídos são principalmente, os sem educação, sem civilização e sem cultura. Por outro lado a nossa educação há muito não educa. A classe média, aos poucos, também está sendo engrossada por pessoas sem educação, sem civilização e sem cultura. A Educação é a base. Há dez anos atras pensei que tínhamos chegado ao fundo do poço. Vejo agora que este poço não tem fundo. Dizem os especialistas que o Brasil está incluído nos países cuja capacidade ainda está restrita a construir escolas (prédios) - assim como em outra área até agora somente sabemos construir presídios. Sem Educação de verdade continuaremos com esse lixo cultural e os presos se organizando em sindicatos. E viva o Brasil!


DEUS

Deus - complexio oppositorum ( Nicolau de Cusa )
Você pode acreditar em qualquer coisa, inclusive em "deus". Então, o acreditar ou o não acreditar, é uma forma simplista, superficial de se ver a questão. Encontre-se a si mesmo e, então, você encontrará "Deus".
Consciência é a percepção ampla e profunda de uma realidade. Aquele que tem uma percepção ampla e profunda daquilo que popularmente se denomina Deus, sabe o que é Deus. Quem não tem essa consciência acredita em Deus. Mas observe, o nível de consciência do ateu está no mesmo patamar do teísta. Ele não acredita em Deus, mas também não tem consciência do que é Deus.
A Consciência se forma com o uso da inteligência e da razão. Penso que a intuição dá a "liga", ajuda a compor o quadro que forma a consciência de alguma coisa. Ninguém, somente pela intuição, "saberá" o que é Deus. Ele irá "acreditar" em Deus na sua forma pessoal de percebê-lo.E ninguém, somente pela razão, irá encontrar Deus como já sabemos há séculos.


DOR

- O mais ativo agente que me levou a encontrar a mim mesmo, o estímulo mais enérgico que me forçou a compreender a mim próprio e a operar a minha transformação e ascensão. (Pietro Ubaldi)

EGO

- é a consciência moral que o indivíduo possui, produto das relações com os objetos que o circundam, da educação e das influências sociais. As exigências do superego é que moldam o eu; máscara que começamos a colocar quando nascemos, moldada pela herança genética e aperfeiçoada durante a vida. “Pelos sentidos e pelo intelecto, estamos vinculados às categorias de tempo, espaço e causalidade, força é que essas faculdades cogniscitivas nos façam uni-laterais ou pauci-laterais; porquanto nenhuma dessas faculdades tem caráter universal, oni-lateral. Por isto, pelos sentidos e pelo intelecto todo ser é egoísta. O egoísmo intelectual do homem consciente, ego-consciente, pode assumir proporções funestas, quando não controlado por um poder superior, isto é pela Razão”(Rohden).
Características:
  1. A natureza determinada e dirigida dos conteúdos da consciência.
  2. O comportamento, sentimentos e pensamentos são, em grande parte, controlados por impulsos inconscientes e pelas tradições coletivas.
  1. A vida é movida pela energia da vontade, a vontade de poder. O caminho da vontade se dá através de conflitos, lutas e violência.
  1. O seu mundo é dual, fragmentado, baseado em escolhas. A mente absolve ou condena, justifica e compara.
  2. As suas certezas são baseadas no conhecimento intelectual, no raciocínio, na lógica e na fé.
  3. Em geral têm uma profunda aversão em conhecer alguma coisa a mais sobre si mesmos.
  4. Vivem num mundo de expectativas, emoções, idéias, hábitos, passado e futuro.
O Ego é incapaz de conhecer a si mesmo. Ele pode descrever as suas motivações e ações, mas é incapaz de enxergar-se no espelho. Para identificá-lo é necessária uma outra “persona”, o eu verdadeiro.

EGO, morte do - Ao perceber que já não pode tudo e todos os "egos" à sua volta já não o bajulam mais; quando a sua arrogância já não encontra servilismo; quando o seu autoritarismo já não encontra subserviência; quando a sua sapiência já não encontro ignorantes e quando a sua esperteza já não encontra trouxas, ele começa a desabar.
No processo de evolução do ser humano e com o desenvolvimento do seu intelecto - também chamado pelos esotéricos de Lúcifer (o portador da luz) - forma-se o Ego. O Ego pensa ter força própria, pensa estar desvinculado do Espírito do Universo, quando, na verdade, apropria-se da energia da vontade, coloca-a a seu serviço e através de técnicas desenvolvidas pelo intelecto cria a cultura e a civilização. A luta entre as forças instintivas (Espírito) e o Ego (Lúcifer) é identificada pelas religiões como a guerra entre o Bem e o Mal numa inversão de valores. A energia da vontade está a serviço do Ego e usar esta força para combater o Mal somente o fortalecerá. Estão equivocados aqueles que combatem o Mal com o uso da violência porque dela ele se alimenta. O Mal e o Ego são as duas faces da mesma moeda. O Ego (o Mal) morre pela entrega, pelo desprendimento, pelo não-agir.
Retornar à casa do Pai é mergulhar no Espírito do Universo e, para que isto aconteça, o Ego precisa morrer.

ENERGIA, FORÇA E MATÉRIA

- A princípio entendia-se que o átomo era uma espécie de sistema planetário em miniatura. Depois veio a descoberta de que o núcleo atômico é composto de prótons e nêutrons, ou seja, de duas espécies de partículas elementares. Surgiu então a pergunta: serão essas partículas elementares as últimas unidades indivisíveis, ou podem elas se subdividir?... Para esclarecer a situação, poderíamos indagar antes de tudo: como determinar se estas partículas são já a última unidade ou são ainda passíveis de subdivisão? A resposta é: já que não existe outro meio de provar sua indivisibilidade, é preciso fazer com que essas partículas entrem em choque, umas com as outras, a grande velocidade ou energia. E, de fato, o resultado é que, nos choques realizados com grande consumo de energia, as partículas parecem fragmentar-se realmente em muitos pedações. Mas esses pedaços não são, na verdade, menores do que as partículas decompostas.
O que sucede, nesses choques, pode ser descrito de modo mais compreensível dizendo-se que a grande energia de movimento das partículas se transforma, durante o choque, numa nova matéria. Realiza-se assim a relação eisnteiniana entre a energia e a matéria: a energia pode tornar-se matéria.
É possível, assim, acontecer que, da subdivisão, não se origine nada de menor, mas novamente a mesma coisa.
Realmente, em todos esses processos de choque, verificamos que, sejam quais forem as partículas iniciais e seja qual for a energia dessas partículas, o que sempre aparece são as mesmas partículas chamadas elementares.
Logo, existe simplesmente na natureza um espectro determinado de formas, de partículas elementares, e estas formas se reproduzem de certo modo sempre de novo, quando as partículas se chocam.
Poderíamos, portanto, dizer que a energia se transforma em matéria quando assume a forma de uma partícula elementar.” (Heisenberg.)
Tudo no Universo é bipolar. Tudo tem o seu par de opostos. A existência sem polaridades é inconcebível. A polaridade é força. O sentimento, a afetividade, sensibilidade, sensação é a resposta a uma força. Uma coisa atrai outra, uma coisa sente-se atraída, tanto no mundo orgânico como inorgânico. Isto pode ser experimentado objetiva e subjetivamente.

ESPÍRITO

O Espírito do Universo está sob as aparências, imperceptível aos cinco sentidos humanos. Pelo sexto sentido e pela intuição, o homem é capaz de ter insights desta realidade. São percepções fugidias, clarões na escuridão da inconsciência.

ESPÍRITO LIVRE

"O espírito dentro do homem não é escravo de nenhum senhor; nem mesmo da vida, do amor, nem de nenhum deus invocado pelo eterno desejo humano de ter um Pai celestial sobre quem lançar o ônus da guia ou libertação do mundo. O espírito no interior de todo homem é intrinsecamente livre. Não conhece deterioração. Não conhece dor. Os fluxos e refluxos de Universos e ciclos se sucedem uns aos outros ao longo do aro da roda do tempo infindo. Todas as coisas tornam ao seu ponto de origem. Todos os começos já são mortes dissimuladas. Mas bem ao centro de todas as experiências humanas está aquela quietude e aquela paz que se podem sentir onde todo sentimento cessa, que se podem conhecer na ausência de todo conhecimento. Ser essa própria quietude e essa paz - é esta a única salvação; esta é a única liberdade. Busca-a com diligência, incessantemente - porém ... sem pressa, serenamente, sem desejar-lhe os dons. Esforça-te em buscá-la; até já não haver necessidade de esforço; até já não haver necessidade alguma; até já não haver nada." (Dane Rudhyar0

EXPERIÊNCIA


A experiência transmitida como informação é um dado superficial. Entre o ouvir falar e estar presente ao fato – meninos eu vi! – há uma gradação. Nada, entretanto, é comparável à experiência pessoal. Há uma substancial diferença de consciência entre o motorista teórico e o motorista prático; entre o médico que assiste ao parto e a mulher que é mãe; entre estar apaixonado e ter lido um tratado sobre o amor e paixão.

ETERNO RETORNO

Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez -, um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reunam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas. Esse anel, em que és um grão, resplandece sempre outra vez. E em cada anel da existência humana em geral há sempre uma hora, em que primeiro para um, depois para muitos, emerge o mais poderoso dos pensamentos, o pensamento do eterno retorno de todas as coisas: - é cada vez, para a humanidade, a hora do meio-dia. ... O mundo subsiste; não é nada que vem a ser, nada que perece. Ou antes: vem a ser, perece, mas nunca começou a vir a ser e nunca cessou de perecer -, conserva-se em ambos... Vive de si próprio: seus excrementos são seu alimento.”
( Nietzsche, Friedrich. O Eterno Retorno, textos de 1881; A Vontade de Potência, textos de 1884-1888).
Tudo passa e tudo retorna. Altos e baixos, prazer e dor, tudo vai e tudo volta. No universo não há vencedores nem perdedores, num dia se ganha e no outro dia se perde. É nisto que está a beleza - para aquele que consegue enxergar além das aparências.


EVOLUÇÃO

desenvolvimento progressivo de uma idéia; transformação progressiva das espécies. Lei Cósmica da Evolução: tudo é um contínuo vir-a-ser.
Segundo o físico Amit Woswami, há muitos furos - sinais de pontuação - na teoria darwiniana. A teoria da evolução explica alguns extágios homestáticos da evolução. Ou seja, como as espécies adaptam-se às mudanças ambientais. Mas não explica como uma espécie torna-se outra. Essa é uma nova mudança na evolução que não está na teoria de Darwin. Não temos uma continuidade de fósseis mostrando como um reptil tornou-se pássaro. A idéia é que sejam sinais de pontuação, estágios muito rápidos da evolução. Ele sugere que isto seja um salto quântico na evolução. Nesse a consciência cósmica interveio. Há uma intervenção da causalidade descendente. A biologia evolucionista não pode ser explicada só com a causalidade ascendente.
Antes de Darwin já era amplamente aceita a idéia de que havia uma evolução da consciência humana. Percebe-se, então, que a evolução humana está encaixada num processo evolutivo bem maior, a evolução da vida. Segundo Rupert Sheldrake o universo é como um organismo em desenvolvimento e a consciência humana é um aspecto inferior de alguma forma superior de consciência; o próprio cosmos é atravessado por uma espécie de mente ou consciência, e que a terra certamente tem uma, e... em última instância, há a consciência ou a mente de Deus.
No homem, se por um lado, há o desenvolvimento da consciência, por outro, ele, com a sua inteligência, promove o progresso científico e tecnológico. Não há uma relação entre um e outro.
Na evolução cultural, afirma Oliver Sacks, qualquer coisa que se invente ou aprenda ou descubra imediatamente se acumula e é passada adiante, é um poderoso mecanismo cumulativo que não existe na natureza. Na natureza, quando uma espécie desenvolve alguma coisa, não pode transferi-la para mais ninguém; cada espécie é a sua própria entidade singular. Há interação, mas nunca amalgamação, ao passo que na cultura humana você tem essa complexa reticulação. Então é por essas duas razões que a herança cumulativa de conhecimento e tecnologia e sua propriedade reticular de descoberta e invenção, que a evolução cultural é tão rápida.
A evolução da consciência é semelhante à evolução da natureza, lenta, gradual e individual. O desenvolvimento científico e tecnológico é cumulativo e coletivo e, por isso, o seu ritmo é veloz. Estes conhecimentos e técnicas podem ser transferidos para toda a humanidade e para as gerações futuras de forma pronta e acabada, ao passo que a consciência é uma experiência de vida que não pode ser transferida, isto é, o homem não tem a capacidade de aprender com a experiência dos outros e por isso o seu progresso é lento.

É necessário continuar. Somente posso continuar. Não posso voltar e mudar. O meu berço não foi uma escolha e não havia caminhos a serem escolhidos. O caminho é construído durante a caminhada. Se me fosse dado voltar no tempo e se me fosse dada a opção da escolha, construiria eu outro caminho? Certamente que sim porque este caminho no qual estou eu conheço. Por que repetir a mesma experiência se ela nada acrescentaria à minha vida? A beleza está no desconhecido. Se a vida pudesse ser totalmente planejada, totalmente segura, ela não seria vida. Não para mim.
Mas se "eu" voltasse no tempo era impossível seguir outro caminho. Impossível. As minhas forças vitais fazem de mim um ser único, cuja única liberdade é seguir o seu caráter - conjunto de disposições congênitas que formam o meu esqueleto mental. Que pode o ego contra as forças que comandam a vida? Para construir outro caminho seria necessário ser alguém com outro caráter, alguém com outro eu. Sou único e passageiro. Aqui não terei outra vida para fazer o que deixei de fazer.
Apesar de toda simpatia que tenho por aqueles que acreditam na reencarnação, apesar de toda simpatia que nutro por aqueles que acreditam na vida do eu após a morte - o ego quer ser eterno -, nada, nada tenho, nenhum elemento racional ou intuitivo que possa fundamentar aquelas crenças. Tudo nasce, cresce e morre. O eterno retorno é uma idéia e não uma verdade.


EU

O Universo desenvolve-se a partir de uma força inicial. Tudo se manifesta a partir desta força criadora primeira que é energia em constante transformação.
O Eu é uma manifestação da força inicial, um universo energético onde podemos distinguir o eu profundo e o superego. O superego nasce com a concepção desenvolve-se durante a vida e morre com o corpo físico. É, portanto, mortal. Identifica-se com o nome da pessoa: João, Maria, Tiago. O superego vive no tempo e no espaço, numa realidade limitada pelos seus sentidos. O eu profundo é formado pelas forças naturais, profundas e involuntárias que governam a vida. Ele contém a experiência de vida acumulada por seus antepassados; forma as linhas mestras, o esqueleto mental de cada indivíduo. O superego, geralmente, usa a força da vontade, o intelecto e a inteligência, enquanto o eu profundo manifesta-se pelo sentimento e pela intuição.
Nenhum ser humano é criador e, por isto, querer não é poder. A “criação” tem origem no movimento que impulsiona o indivíduo para desenvolver aquilo que ele já é. O chamado “querer é poder” é, portanto, a manifestação no mundo material daquelas potencialidades individuais inatas. O pensamento criador tem origem na essência, no eu profundo e não na superficialidade do superego.
O ser humano é uma semente que nasce, cresce, produz flores e frutos, envelhece e morre. Aquele que É um “pinheiro” não poderá tornar-se uma “roseira”. As podas necessárias para que se torne um “pinheiro” forte e robusto – a educação no seu sentido amplo -, muitas vezes, podem mutilá-lo e desfigurá-lo mas ele, na essência, sempre será um pinheiro. Os ideais da educação devem despertar as potencialidades individuais, com trabalho e disciplina. Na criança e no jovem com o auxílio de pais e mestres até que ele assuma, pessoalmente, o caminho ditado pelas forças da sua natureza.
Você pode estudar toda a obra de Freud e toda a obra de Jung; você pode estudar ciências ocultas, esotéricas, budismo, astrologia, cristianismo, etc.. Você terá muitas, mas tão somente, informações. Com elas você está em condições de encontrar o "eu", encontrar a si mesmo.

EXOTERISMO

diz-se da doutrina ensinada publicamente pelos antigos filósofos;

FÉ E ESPERANÇA

Vive-se enquanto há expectativa de prazer. A fé e a esperança dão segurança e prazer. Ah, a fé e a esperança... O importante não é que Deus exista, mas que se acredite na sua existência; o importante não é saber-se imortal, mas acreditar na imortalidade; o importante não é exercer a democracia, mas acreditar que é possível exercê-la; o importante não é o fato mas a versão do fato.

"Não depositem fé em tradições, mesmo que tenham sido aceitas por longas gerações e em muitos países. Não acreditem em algo só porque muitos o repetem. Não aceitem uma coisa só por ter sido afirmada por algum dos sábios antigos, nem com base numa declaração encontrada nos livros. Jamais acreditem em alguma coisa porque as probabilidades lhe são favoráveis. Não acreditem no que vocês mesmos imaginaram, pensando que foram inspirados por um Deus. Não acreditem em nada simplesmente por ter sido afirmado por mestres ou sacerdotes. Após examinarem, acreditem naquilo que testaram pessoalmente e julgaram razoável, que esteja em conformidade com seu bem-estar e o dos outros". (Buda).
Dizem alguns que somente existe a Fé. Sem adjetivos.
A fé é um sentimento que pode ser consciente e inconsciente. O homem pode acreditar numa mentira, e de tanto repeti-la e reafirmá-la como verdade condicionará a sua mente e o seu coração. Após gerações, ela será transformada em dogma. E por ele o homem matará e morrerá. Esta é a fé cega. Mas somente pode enxergar quem é cego e somente pode despertar quem está dormindo. A fé cega é uma etapa do caminho da evolução. Quando o homem desperta e começa a enxergar, a fé passa a ser consciente. A realidade é percebida como ela é. O in-divíduo não tem necessidade de acreditar porque a sua consciência se iluminou. Ele sabe.

FELICIDADE

Na busca da felicidade muitos imaginam uma convivência isenta de conflitos. Ma o conflito é necessário. Se não há conflito é porque não há mais a vontade de potência, há o repouso que é o símbolo da decadência e da morte.
A conciliação de forças opostas, a harmonia entre elas, a ausência de conflitos é um ideal. A realidade mostra-se diferente. Os grandes saltos tecnológicos, por exemplo, ocorrem durante as guerras - "quentes" ou "frias". A competição leva a um desenvolvimento mais rápido que a cooperação pois é da própria natureza das forças vivas o conflito e a sobrevivência do mais apto.

FIGURANTE NO FILME DA VIDA

Num país sem valores éticos e educação integral nada cabe fazer a não ser vender a alma a quem paga mais ou tornar-se um discípulo de Bin Laden, isto é, de qualquer forma, vender a alma ao diabo. Por isto, como não tenho poderes nem sou o dono da vida e do destino cabe-me apenas observar. Observar a vida como um filme em que sou somente um figurante.

HOMO SAPIENS - “Existem sem dúvida espécimes isolados de homo sapiens, mas o grosso da humanidade é composto do tipo homo intelligens, ou até do homo sentiens, o homem sensitivo com ligeiro verniz de intelectualidade. A sapiência ou sabedoria é algo incomparavelmente superior à simples inteligência. A inteligência é analítica, indutiva, silogística ao passo que a sabedoria é sintética, dedutiva, panorâmica. O homem sapiente seria aquele homem racional, espiritual, o homem-crístico, o homem univérsico, que está latente no homem de hoje, porém, não desenvolvido”(Huberto Rohden).
O homem. Só, ele nasce e só ele morre. De que lhe serve toda a sua riqueza material, toda a sua erudição e poder temporal, se ele não sabe quem é, de onde veio e para onde vai. Acredita em Deus e em Diabo, em céu e inferno, culpa, prêmio e castigo porque é mais fácil acreditar do que pensar. Prefere andar em rebanho seguindo o toque do cincerro.
O homem pensa que é dotado de vontade própria mas é apenas um ator que desempenha um papel escrito pelas forças cósmicas. O livre-arbítrio é relativo. Pensa que é livre porque desconhece as causas inconscientes que motivam as suas escolhas. Ele é livre para optar por coisas superficiais, acessórias. O seu destino é determinado pela sua natureza individual. A vida não é um tornar-se com base em exemplos e ideais coletivos. Viver é desenvolver potencialidades inatas no mundo em que se vive. Viver é experimentar, aprender e compreender.
A civilização é uma construção coletiva em que cada ser humano é uma peça. O prazer individual é restringido em favor do bem comum. A energia da vontade, através da disciplina, é canalizada para o desenvolvimento do grupo. O prazer, a alegria, as lutas, as vitórias e o sucesso são resultados de um esforço coletivo baseados em ideais que buscam o bem comum. Toda essa conquista, entretanto, baseada na repressão e no direcionamento das energias é colocada em cheque – geralmente, na segunda metade da vida - pelas forças profundas, naturais e involuntárias – os instintos - que governam a vida . Pode ocorrer, então, uma autotransformação, também chamada de “individuação” por Jung, “renascimento pelo espírito” pela Bíblia, um processo promovido pela lei cósmica da evolução. É uma crise existencial. A depressão e a ansiedade - a neurose – não são doenças mas sintomas desse processo. As energias instintivas e inconscientes, reprimidas e castradas pelos ideais coletivos, procuram romper o status quo. Embora todo o esforço do superego auxiliado pelos meios médicos oficiais seja o de manter o seu poder sobre a personalidade, seja por meio de terapias, análises e/ou medicações, a evolução processa-se de acordo com as energias individuais. Se estas forem suficientemente fortes para usar aqueles meios em proveito próprio, eles serão abandonados proporcionalmente à evolução da consciência. Deste processo nasce um novo ser, um novo homem, um homem cosmoconsciente, um in-divíduo.
Na nossa civilização o in-divíduo é colocada à margem da sociedade. Todo o esforço coletivo é direcionado no sentido de impedir a sua existência. Ele é um perigo para o rebanho. O in-divíduo é a exceção e como tal é isolado porque foge à regra da igualdade. Ser um in-divíduo não significa ter personalidade própria (persona - máscara) ou ser um líder. Este é o eleito da massa. Canaliza os desejos conscientes e inconscientes de um grupo, representa, personifica um segmento e/ou determinada sociedade. Ele também é massa. O in-divíduo é único e, por isto, não aceitará seguidores, discípulos ou eleitores embora a sua aura, muitas vezes, atraia multidões. Ele não se identifica com a massa – o homem comum, normal – porque está num outro nível de consciência. Ele é um in-divíduo, uma unidade.
No processo de autotransformação, há a evolução da consciência, em amplitude e profundidade, da inconsciência para a consciência - da ignorância para a iluminação. É o despertar de um sono sedado, de uma embriagues, uma batalha contra as trevas, as ilusões e os condicionamentos.
Despertar, tomar plena consciência da sua realidade é ser verdadeiramente homem.
A ampliação da consciência começa a revelar a verdadeira identidade individual. O indivíduo começa a perceber a sua diferença em relação a qualquer outro ser humano. Começa a compreender que cada ser humano é único, um todo, um universo. A sua identidade estava dispersa, refletida nos espelhos - amigos e conhecidos - que formam o seu mundo. Era incapaz, entretanto, de identificar a sua identidade individual projetada nos seus semelhantes. Mas agora os véus começam a cair, o espelho começa a desembaciar e, aos poucos, a sua imagem individual surge iluminada. Ele não está construindo teorias nem estudando e pesquisando os outros, ele está descobrindo a si mesmo.
Na autotransformação desenvolve-se a sensibilidade, a intuição, o sexto sentido. Aos poucos, pela observação, o homem começa a compreender as conexões que existem entre o seu mundo interior e o mundo exterior. Este saber somente se firma quando ele abandona todas as certezas, todas as verdades construídas pela crença, pela fé cega e pela esperança.
O homem quer respostas racionais para todas as suas interrogações. Mas, racionalmente e pela lógica formal, ele nunca chegará a uma conclusão definitiva sobre coisa alguma. Por isto a demanda da Verdade exige uma passagem para além das fronteiras do pensamento ordenado. Esta passagem, entretanto, não significa fé cega. Dizem alguns que somente existe a Fé. Sem adjetivos. A fé é um sentimento que pode ser consciente e inconsciente. O homem pode acreditar numa mentira. E de tanto repeti-la e reafirmá-la como verdade condicionará a sua mente e o seu coração. Após gerações, ela será transformada em dogma. E por ele o homem matará e morrerá. Esta é a fé cega. Mas somente pode enxergar quem é cego e somente pode despertar quem está dormindo. A fé cega é uma etapa do caminho da evolução. Quando o homem desperta e começa a enxergar, a fé passa a ser consciente, a realidade percebida como ela é. O in-divíduo não tem necessidade de acreditar porque a sua consciência se iluminou. Ele sabe.
Aqueles que falam num destino coletivo, em salvação de um povo, de uma raça ou
da humanidade ainda não despertaram para o fato de que a única realidade é individual.
A construção da civilização é uma obra coletiva, a individuação uma conquista solitária. A individuação é a maior aventura e a maior tragédia individual de cada ser humano.

IDEAL

O ideal é uma utopia perfeccionista, uma terra prometida que nunca será encontrada.

INDIVIDUO


Individualidade é a consciência de si mesmo, a noção de estar só e apartado de um grupo.
Preservar, fortalecer e viver a sua individualidade; construir a sua autonomia, depender o mínimo do outro e ser livre, parece-me que são valores pouco cultuados no nosso meio. Aqui viver é relacionar-se, meter-se na vida alheia, fofocar e, sobretudo pertencer. A individualidade, no nosso caso, está espalhada pelo grupo, pelo mundo exterior, ela não está centrada no sujeito.
Estes pensamentos lembram Platão:” “Quem faz depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não se prende a outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau êxito de sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é sábio, na verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante”.
A individualidade é um valor em Nietzsche:
Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o”.
E em Albert Einstein:
Toda civilização e toda cultura nasce das raízes do individualismo criativo. Não foi a sociedade, mas um indivíduo quem primeiro tirou fogo de uma pedra. ... Só o indivíduo pode pensar e, pensando, criar novos valores para o mundo. Só o indivíduo pode estabelecer novos padrões morais que mostram o caminho para as gerações futuras. Sem personalidades decisivas pensando e criando de forma independente, o progresso humano é inconcebível.”
É na individualidade que se percebe em profundidade a desigualdade entre os sujeitos. Mas porque por aqui reina a fé da igualdade, é oportuno lembrar Rui Barbosa:
"A regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho e da loucura. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo não dar a cada um na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos como se todos se equivalessem. Essa blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a humanidade, é filosofia da miséria proclamada em nome dos direitos do trabalho. Se executada, não faria senão inaugurar, em vez da supremacia do trabalho, a organização da miséria. Mas se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um nos limites de sua energia mortal, pode reagir sobre as desigualdades nativas pela educação, atividade e perseverança. Tal é a missão do trabalho.”
A valorização da individualidade não é somente um fator cultural, mas representa também um estágio mais elevado de consciência de si mesmo dos componentes daquele grupo social.

O corpo e o espírito formam um todo, um indivíduo, um sujeito que muito pouco conhece a si mesmo. Mas o homem pode chegar a um estágio de desenvolvimento individual em que o autoconhecimento e a Ciência se completam. Não é uma questão de fé, mas de consciência. Há aqueles para os quais a Ciência é a autoridade absoluta, esquecendo-se, entretanto eles, que também ela está em desenvolvimento e as suas descobertas são verdades relativas. O desenvolvimento do Eu está inserida no processo de evolução do cosmo e essa situação permite perceber essa constante transformação.
O pensamento, para muitos, é uma atividade essencialmente intelectual que envolve somente o cérebro. Pensar, entretanto, envolve o todo, onde o cérebro é o centro de processamento de dados. Colocar a vontade a serviço da inteligência, e somente dela, impede o desenvolvimento integral. A erudição e a inteligência enciclopédica escondem, muitas vezes, uma personalidade mutilada. A abstração e desenvolvimento intelectual parecem funcionar como um estorvo para a percepção da totalidade. Privilegiando a inteligência e a razão, o homem atrofia, por falta de uso, o sentimento, o intuitivo, o instintivo e o humano.
É da natureza do intelecto dividir, separar e somar – processos analítico e sintético. Mas na formação da consciência aparece um componente a mais: o sentimento. O sentimento une, aglutina aquilo que o intelecto separa e soma. Somar é uma função matemática, objetiva, lógica e racional. Na união entra o componente afetivo que trabalha com significados. O sentimento é o componente necessário para que se forme a consciência. Ter consciência é ter a capacidade de dividir, identificar, somar e unir as partes do todo.
A ignorância não é só a falta de inteligência e de conhecimentos, mas, principalmente, a falta dessa consciência, dessa compreensão do todo. Por isto, podemos afirmar que o único Mal que aflige a humanidade chama-se ignorância.

Quando paro e olho para dentro de mim mesmo, "eu sou dois": um "eu" é memória cerebral desta "encarnação", o outro é instinto, "eu" profundo, memória genética. São estes dois que brigam, um querendo convencer o outro daquilo que é certo e errado. A luta entre os dois traz sofrimento. Onde está a "mente"? A “mente” é “consciência”, aquela que observa os dois. A mente não sente prazer ou dor, ela é o observador, o tertius, formando a Trindade.
É perigoso o homem que pensa em mudar o seu semelhante e o mundo de acordo com os seus ideais. É perigoso o homem que pensa na existência de uma realidade objetiva, é perigoso o homem que pensa que somente existe uma realidade, seja a dos sentidos, seja a das idéias. Este homem tem um problema: é cego à diversidade do universo. O homem cego é aquele que mata as coisas do mundo porque não as compreende. Ele racionaliza a realidade, ele não sente, ele não se torna um com ela. A razão divide, o sentimento une.
Uma bela manhã numa praia deserta de uma ilha do atlântico sul. Aqui há harmonia, aqui existe beleza. Mas a violência, a guerra e o sofrimento dominam o mundo. O homem é cego. Que posso fazer? Observar.

Tudo o que o homem em geral pensa foi aprendido com seus pais, mestres, amigos, professores, padres, pastores, autores de livros, etc. etc. Apega-se a ideais que lhe foram ensinados, apega-se à tradição e à cultura do seu grupo social. Ele é um homem massa. Ele tem o seu grupo, o seu time, a sua religião, o seu clube, o seu rebanho. Para desvincular-se desse emaranhado, dessa rede que o prende, dessa teia que o amarra ao grupo ele precisa despertar. Isto é, ele precisa perceber, ele precisa tomar consciência dessa situação. Esta consciência forma-se com a reflexão. E é na reflexão sobre si mesmo e a sua relação com o seu mundo que surgem as idéias, as suas idéias, as suas convicções, a sua fé consciente. Desse processo de individuação surge o verdadeiro ser humano. Um ser humano que não segue nem Jung nem Freud; nem Jesus nem Buda; nem Maomé nem Moisés; nem Alan Kardec, nem a Teosofia de Helena Blavatsky e Annie Besant, ou a Tradição Sufi; nem Platão, Aristóteles, Kant, Hegel ou Nietzsche, mas saberá compreender aquelas idéias e aproveitá-las para a formação do seu conhecimento.
Construir a sua verdade é desenvolver a sua consciência. A única verdade, a única realidade de cada sujeito é a sua consciência. Esta consciência quando pouco desenvolvida ou infantil precisa acreditar ou não acreditar em algo que esteja além de sua compreensão. Este é o nível daquele que tem fé cega. A fé consciente está num nível mais elevado; é a fé daquele que experimentou. Esta experiência, entretanto, deve submeter-se ao crivo da razão e do conhecimento. O que é consciência e nível de consciência? É algo extremamente subjetivo, pois a consciência ou o seu nível não pode ser definido racionalmente. Darwin desenvolveu a teoria da evolução biológica. Antes dele, já era amplamente aceita pelos filósofos a idéia de que havia uma evolução da consciência humana. Enquanto aquela pode ser comprovada cientificamente, esta é um processo subjetivo, é uma experiência, um saber que não pode ser pesado, medido, testado porque é autoconhecimento.
A única realidade, a única verdade que existe é a do sujeito que a experimenta, nos afirma a Física Quântica. E isto não é fé nem teoria porque pode ser experimentado individualmente.
É necessário superar a crença no mundo das idéias e cair na real.
Aqueles que ainda não se descobriram como in-divíduos; aqueles que ainda não tem consciência de si-mesmos; aqueles cuja individualidade está espalhada pelo grupo, isto é, alimenta-se das energias do grupo; aqueles que ainda estão presos a preconceitos, verdades e certezas e pensam que todos os homens são iguais, esquecem que cada um precisa atingir a totalidade como ser para poder chamar-se de in-divíduo. A igualdade dentro do grupo - a ovelha do rebanho - é o ideal dos medíocres. Somente a “ovelha desgarrada” é capaz de abrir novo caminho, somente o in-divíduo é verdadeiramente homem.

"Deus é Fiel" estava escrito no adesivo do vidro traseiro do carro que trafegava na minha frente. "Fiel", digno de fé, que cumpre aquilo que se obriga; leal, honrado, íntegro, probo; que não falha, seguro, certo; que não muda, firme, constante, perseverante; exato, verídico, verdadeiro; que não rouba, honesto; que professa uma religião; que é amigo certo; diz-se daquele que não mantém ligações amorosas senão com a pessoa com quem se comprometeu (Aurélio - Século XXI). Ser fiel. És-se fiel a alguém ou a alguma coisa. Se Deus é tudo, ele também é fiel. Mas fiel a quem? Deus é fiel a Si-mesmo.
O homem porque divide o seu mundo entre certo e errado, entre Bem e Mal - projeta no mundo exterior o seu mundo interno - espera-se que seja fiel a um lado, que tenha um partido (!), isto é, que siga o caminho do Mal ou o caminho do Bem, assim definidos pelo código moral da sua gente. É inconcebível para a massa que seja diferente. Mas para quem consegue enxergar um pouco além dessa visão dual; para quem consegue compreender que o universo tanto externo quanto interno é o "complexio oppositorum" de que nos fala Nicolau de Cusa, é de todo evidente que o homem só pode e deve ser fiel a si mesmo. Sendo fiel a si mesmo ele será fiel à força que move o cosmo. Mas isto somente irá acontecer quando a sua consciência despertar.
Deus é fiel. O verdadeiro homem também é fiel, a si mesmo.

INSTINTO

O instinto é uma "necessidade interior", segundo Kant. "Por instinto, entendo um impulso natural cego para certas ações, sem ter em vista determinado fim, sem deliberação, e muito freqüentemente sem percepção do que estamos fazendo" (Thomas Reidl).
O instinto, o inconsciente, o spiritus rector, é a força – a necessidade - que move cada ser. (Há coisas que não precisam de argumentação porque são evidentes. A necessidade é uma força superior ao livre arbítrio). O meio ambiente opõe resistências ou facilita a expressão, a manifestação dessa força que é cega, isto é, vive na escuridão e está em busca da luz, do conhecimento do seu meio e de si mesma. Usando a inteligência e a razão começa a descoberto do seu mundo, daquilo que está à sua volta, dos segredos do seu universo externo. A esse mundo externo está dedicado a Ciência e a Religião - a religião cristã, principalmente, cujo Deus e Diabo são entidades externas, o céu e o inferno são reinos localizados no espaço sideral ou em outra dimensão. A atenção do homem está direcionada para fora de si mesmo, os seus sentidos estão aptos a identificar o que acontece no tempo e no espaço em que predomina a lei da causalidade. A sua motivação, a sua força de vontade, canalizada para estudar e controlar a sua realidade externa e a vida do seu semelhante, é determinada pela sua natureza, pelo seu instinto. Para a maioria das pessoas toda a vida é dedicada à descoberta do seu mundo externo. Parecem desconhecer o deus que os motiva, que lhes dá vida, e que está dentro e não fora. Outros, satisfeita a necessidade de conhecer o mundo externo, sentem o imperativo da descoberta do seu universo interno. Toda a energia que estava direcionada para o mundo exterior, para o trabalho, o lazer, o social, o estudo e a pesquisa, é direcionada, pela necessidade, para a descoberta de si mesmo. O vasto conhecimento empírico e teórico acerca do universo que está à sua volta e do outro vai auxiliá-lo a conhecer a si mesmo. O importante, agora, é a profundidade do conhecimento e não a amplitude. É desta profundidade que falavam os antigos: “para que os ramos de uma árvore cheguem ao céu, as suas raízes devem chegar ao inferno”.
O homem tem medo dos seus instintos. O medo está na ignorância, no desconhecido. A defesa é a repressão. A ignorância é a base de todos os medos e de todas as formas de repressão. Nietzsche tem uma frase genial: faça dos instintos seus animais domésticos. Ao conhecer o sexo, por exemplo, em todas as suas formas de expressão, ao compreendê-lo como a manifestação da Vida e fonte de prazer, não mais será necessário reprimi-lo, mas vivê-lo total e conscientemente.
Muito antes dos alquimistas, sacerdotes egípcios e hebreus, sabia-se dos benefícios da transferência da energia vital entre corpos, mesmo sem a consumação do ato sexual. Chamava-se sunamitismo a prática em que o idoso dormia com jovens enlaçados ao seu corpo, devido à história contada no Antigo Testamento sobre o rei David: na velhice, ele costuma dormir com uma jovem virgem sunamita, para renovar suas forças. O imperador alemão Frederico Barba-Roxa costumava estreitar dois rapazes aos seus estômago e pernas. Dizem, também, que nos campos de concentração nazistas faziam-se experiências para reanimar os prisioneiros, aquecendo-os com os corpos de donzelas.
O sexo entre jovens e pessoas que passaram da meia idade ainda é um tabu. Mas se atração existe entre essas pessoas, ela é instintiva, uma necessidade natural. Em assim sendo, nada há a ser questionado pelos moralistas de plantão, aqueles do “façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”.



INTELIGÊNCIA

conjunto imensamente complexo e variado de habilidades e capacidades que emergem da estrutura do cérebro humano.

INTUIÇÃO - percepção cognitiva diferente do racional que encontra no meio científico seu lugar com o nome "contexto de descobrimento de idéias". Esta percepção cognitiva comprime anos de experiência e aprendizado num clarão instantâneo.
O "processo intuitivo" não é uma percepção sensorial nem um pensamento, nem também um sentimento. Intuição é um processo de sentir, ou seja, a percepção das possibilidades inerentes a uma dada situação. A intuição decorre de um processo inconsciente, dado que o seu resultado é uma idéia súbita, a irrupção de um conteúdo inconsciente na consciência. A intuição é, portanto, um processo de percepção, mas, ao contrário da atividade consciente dos sentidos e da introspecção, é uma percepção inconsciente” (C. G. Jung, in A Natureza da Psique - Ed. Vozes - Petrópolis, 1986).

JUSTIÇA

Quando conseguimos olhar-nos de longe e do alto, quando iluminamos os mais profundos abismos de nós mesmos, compreendemos que tudo é como deve ser. Há harmonia no cosmo, há equilíbrio entre as forças que o compõem. O homem como micro-cosmo e a sociedade por ele formada desenvolvem-se em meio a esta força chamada vida. Tudo tem o seu motivo de ser, tudo é efeito de uma causa porque a realidade humana situa-se no tempo e no espaço. Quando desconhecemos a causa damo-lhe o nome de acaso, fatalidade ou livre-arbítrio. A Justiça existe, somos nós que muitas vezes não temos a capacidade de conhecer os atos ou fatos que resultaram naqueles efeitos. Não há pessoas injustiçadas porque cada um, no final, tem o que merece ter.

KARMA

Sorte, karma, destino - chamem-lhe o que quiserem - existe uma lei de justiça que de algum modo, mas não por acaso, determina a nossa raça, a nossa estrutura física e algumas das nossas características mentais e emocionais. O importante é compreender que não podemos fugir ao nosso modelo básico, podemos agir em conformidade com ele – e assim, sermos livres. (Paramahansa Yogananda)
O destino não é senão o desenvolvimento de uma trajetória lançada por nós mesmos anteriormente e a cujo percurso estamos inexoravelmente ligados pela lei de causa e efeito. É por isso que nossa vida não é um conjunto de acontecimentos ocorridos ao acaso, mas tudo é pré-ordenado segundo esse jogo de forças, sua natureza, atração e repulsa.(Stephen Arroyo).
O karma é criado não tanto por aquilo que se faz mas pelo que se deixa de fazer no momento certo. O karma é causado por uma negação – consciente ou inconsciente – do potencial criativo do momento por quantos vivam esse momento. (Rudhyar).
As sementes do karma passado não podem germinar se forem queimadas no fogo divino da sabedoria” (Paramahansa Yogananda). O karma é baseado na lei cósmica de causa e efeito, isto é, toda ação desencadeia uma reação igual e oposta. Esta lei somente pode agir numa mente que divide e separa. O ser humano que superou a mente dual ao tornar-se Um, não sofre a influencia da lei do karma.

LEI

O homem, a natureza, a Terra, o sistema solar, enfim, o Universo é movido por leis próprias que, penso eu, evoluem com ele. É impossível contrariar tais leis, mas o seu conhecimento pode direcionar ou anular determinadas forças.


LEI DE CONSERVAÇÃO DA MASSA

formulada por Lavoisier: "Nós devemos aceitar como um axioma incontestável que em todas as operações da natureza e da arte nada é criado; uma quantidade igual de matéria existe antes e depois do experimento". A lei de conservação da massa é generalizada para a lei de conservação de energia e de movimento, ou quantidade de movimento. São leis naturais e a sua propriedade mais importante é sua universalidade.

LEI ÉTICA DA UNIDADE DE TODAS AS COISAS

tudo o que existe é expressão de uma rede energética holográfica em movimento ondulatório fora das categorias de espaço e tempo. Tal rede energética ondulatória se expressa na chamada ordem explicada ( o que nos aparece) e numa ordem implicada ( rede energética fundante). O cérebro funciona holograficamente e é suporte que manifesta o funcionamento do todo. O humano, o vegetal, o animal, o mineral e todas as formas de expressão da vida formam parte da mesma rede espiritual e energética.

LIBERDADE

Os homens se enganam quando acreditam que são livres; e o motivo desta opinião é que têm consciência de suas ações, porém ignoram as causas que as determinam; por conseguinte o que constitui a própria idéia de liberdade é o fato de desconhecerem a causa de suas ações - Espinosa
Como poderá uma pessoa libertar-se (ou ser libertada) das cadeias forjadas pelos seus desejos (pelo karma), a fim de poder ser outra vez livre? Esta liberdade é o objetivo máximo de todas as vias de libertação e técnicas de auto-realização. Ver autonomia.
"Fazer o que se gosta" dizem ser a regra básica do bem viver. Isto é, ser livre. Geralmente, proibido. Mas essa proibição nem sempre é social. É um impedimento ditado, na maioria das vezes, pela consciência moral. Ah... de novo a moralidade. "Sou prisioneiro da minha consciência moral", dizia Lutero, lembram-se? Esta consciência resulta do condicionamento. Romper o condicionamento é como arrancar as próprias vísceras, é uma dor que nem todos têm coragem ou capacidade de suportar. "É preferível morrer" diz o ego.
A liberdade interior resulta do descondicionamento. A liberdade de ser si-mesmo é a única e verdadeira liberdade.

Observe, pode não ter sentido para você porque cada indivíduo é um universo. Preciso confessar a você que eu sou um indivíduo para o qual a liberdade é uma necessidade "fisiológica". Ser livre para mim, não é uma escolha, mas uma necessidade que tem a sua origem, a sua causa na essência, no espírito, ela está nos genes. Veja eu não falo em idéias. Eu falo em viver a vida. Eu não habito o mundo das idéias, eu vivo de emoções, de percepções, de significados. Para quem vive no mundo das idéias, talvez, a liberdade não tenha sentido, mas não ocorre o mesmo para quem é corpo e alma.

Geralmente as técnicas usadas para o descondicionamento criam um novo condicionamento. Técnicas para relaxar, para tornar a mente vazia. Se o novo condicionamento é melhor ou pior do que anterior eu não sei, mas é um condicionamento.É isto o que eu tenho observado nas pessoas que usam "técnicas". Não podemos esquecer que o cérebro cria ilusões, a imaginação cria realidades. Há pessoas que são "ar", são intelectuais. A fórmula que o intelectual usa para libertar-se não pode ser a mesma utilizada pelo "água", "fogo" ou "terra". Então eu penso que a única e verdadeira liberdade é ser si-mesmo, sem "técnicas", sem fé, sem fórmulas para não correr o perigo de querer tornar-se o que não se é. O sujeito, o indivíduo somente se realiza ao ser ele-mesmo, isto é, quando tem consciência do seu condicionamento. É a consciência do condicionamento que liberta. Isto, entretanto, precisa ser vivido.

Lieben und arbeiten”, amar e trabalhar (realização afetiva e material) é a fórmula do bem viver, segundo Sigmund Freud. Essas são as necessidades básicas do ser humano segundo a ótica da cultura anglo-saxônica pois sabemos que há culturas em que a segunda necessidade tipificada por Freud, geralmente, é considerada um castigo.
A liberdade é essencial para que o homem se realize afetiva e materialmente. Novamente serei contestado por aqueles que pensam que um Estado socialista - onde a liberdade econômica é programada e restrita - deve promover o bem comum. Serei contestado também por aqueles que pensam que a realização afetiva deve obedecer a regras, tais como casamento heterossexual monogâmico, etc. etc. Observamos, então, que mesmo nas nossas necessidades básicas, a liberdade precisa ser conquistada.
Ser livre, embora relativamente, é uma conquista. E depois da conquista o preço é a eterna vigilância. Não podemos negar que a liberdade individual - física, de pensamento, de crença, de consciência, afetiva, econômica, etc. - é ampliada através do exercício do poder, da posse de bens e de conhecimentos. A conquista de qualquer espaço aumenta a nossa liberdade. A busca de liberdade é uma procura de prazer. Não podemos esquecer, entretanto, que nem todos sentem prazer em ser livres. Para muitos, e me parece que estes são maioria, a liberdade individual é indesejável. Estes tem prazer em ser escravos, seguir ordens, métodos e autoridades.
Ser livre é um processo progressivo e um grande desafio.
Liberdade é um saber. O homem que despertou e tem consciência do seu mundo SABE o que é liberdade e por isto é livre.


LIBERTAÇÃO

Homem liberta-te das doutrinas, das verdades e valores estabelecidos e entrega-te à realidade única - a verdade - que mora dentro de ti. Busca-a com diligência, mas sem pressa; procura-a com cuidado e atenção; mantenha a calma - ela está no centro do turbilhão da vida. Ela se revelará aos poucos; paulatinamente perceberás as suas múltiplas formas e funções e, embora não consigas compreendê-la totalmente, saberás que ela é o tesouro procurado por alquimistas, esotéricos e sábios de todos os tempos. Tu o saberás! Ela é sol, luz, som, sabor, sensação, saber... Super lucidez. Agora sorria e projete a sua luz sobre o mundo!

LIVRE-ARBÍTRIO

livre-arbítrio é agir em conformidade com o nosso modelo básico (natureza) e assim sermos livres. Somos livres de selecionar e de escolher até os limites do nosso entendimento.
Na verdade os caminhos da vida são o resultado de escolhas. Mas escolhemos quase sempre desconhecendo o seu efeito final. Mas não podemos negar que a escolha é feita pela energia que move o ser. Se nascêssemos novamente certamente faríamos as mesmas escolhas que fizemos até hoje. Mas se conhecêssemos os resultados antecipadamente certamente as nossas escolhas seriam outras. A liberdade de cada um está em agir de acordo com a sua natureza.
Há um estágio na vida em que as opções são tão somente efeitos das escolhas passadas.
Não há escolha livre. Toda escolha é condicionada.
Inicialmente, é bom repetir o conceito de livre-arbítrio: “Possibilidade de exercer um poder sem outro motivo que não a existência mesma desse poder; liberdade de indiferença. [ Refere-se o “livre-arbítrio” principalmente às ações e à vontade humana, e pretende significar que o homem é dotado do poder de, em determinadas circunstâncias, agir sem motivos ou finalidades diferentes da própria ação.]” (Novo Aurélio.)
Ninguém em sã consciência se suicida.” Se concordarmos com este pensamento será difícil afirmar que há livre-arbítrio no suicídio.
A preferência sexual e a “escolha do seu amor” são determinadas por uma força natural irracional. Há uma atração instintiva que não pode ser classificada como livre-arbítrio, tanto na relação heterossexual quanto homossexual.
Em todas as nossas escolhas, a sua motivação mais profunda é a busca do prazer. O “livre-arbítrio” é, muitas vezes, determinado pela memória de um acontecimento prazeroso que queremos repetir. Se alguém prefere manga à maçã é possível afirmar que há “livre-arbítrio”? Não, as preferências pessoais não podem ser classificadas como livre-arbítrio.
No alcoolismo a própria ciência médica reconhece que, na maioria das vezes, há um componente genético que promove uma compulsão ao álcool ou à droga. Não há, nesta situação, livre-arbítrio.
O meu livre-arbítrio – estou falando de mim, agora - somente existe em ações superficiais. Posso, agora, encerrar este texto, desligar o computador e dar uma caminhada pela praia. Isto é livre-arbítrio! Será?? E se eu for atropelado ao atravessar a rua? O superego dirá que foi um acidente, uma fatalidade resultante do meu descuido em atravessar a rua. O eu profundo lembrará um ditado Árabe: “se Alá predestinou alguém a morrer num determinado lugar, suscitará nele o desejo de viajar até lá.”

É certo que o livre arbítrio é limitado. Cada indivíduo segue um destino incerto que pode ser modificado dentro dos limites da sua natureza. A liberdade individual é exercida na dependência da energia, da força da vontade. A força da vontade resulta de um exercício de disciplina e esforço individuais que canalizam a energia vital. Esta tem características próprias e forma o caráter da pessoa. O Eu, portanto, é determinado pela sua natureza. A sua liberdade está em agir de acordo com as energias que o constituem e que determinam o seu destino. A única liberdade, portanto, é ser si-mesmo. E este é o destino de cada um, que independe do querer do Eu.

Onde você vê contradição, o que existe é uma afirmação de que a experiência deve ser SELETIVA, guiada pela nossa racionalidade e inteligência -podemos selecionar as experiências que nos tragam prazer, desenvolvimento, crescimento:
Você parte da premissa de que o homem tem livre arbítrio.Se o homem o tivesse, poderia selecionar as experiências. Com estudos, observação e reflexão você perceberá que somente existe o livre arbítrio para superficialidades, que querer não é poder nos caminhos e descaminhos de uma vida. Observe!
O desenvolvimento pessoal, a evolução da vida e a ampliação da consciência acontecem através da experiência pessoal direta. Você pode escolher as experiências superficiais, as básicas são determinadas pela sua natureza. Por exemplo, a mulher da sua vida não é uma escolha do seu “eu”, mas da sua natureza.
A guerra não é uma escolha pessoal, mas uma determinação da natureza individual. A vida não é movida pelo querer do homem, mas pela força inconsciente do seu espírito.
A experiência, o estudo e a reflexão promovem o despertar individual.



LOUCURA

Para quem como eu se dedica a observar a vida,  há coisas extraordinárias acontecendo. Se não fosse a crise existencial que virou a minha vida do avesso,  eu não teria pesquisado, observado e estudado para saber  o que estava acontecendo com o meu mundo interior.  Descobri que conhecer a si mesmo é a mais fantástica  aventura do indivíduo, somente comparável  aos grandes descobridores e aos primeiros astronautas.  Pensava eu, seguindo o diagnóstico médico,  que era um doente.  Afinal os distúrbios emocionais crônicos, a profunda dor moral,  a percepção da realidade sob ângulos não convencionais e a amoralidade como valor, me levaram a aceitar o rótulo de doente mental.  Na realidade, aos poucos compreendi que eu sou uma exceção.  Não sou um homem comum, mas também não sou um doente mental. O difícil é conviver em sociedade quando se é uma exceção.  Muito difícil não se é compreendido porque se tem uma visão totalmente diferente da realidade e dos valores ocultuados pela massa. Talvez a palavra "louco" seja a que melhor defina essa situação. "Louco" para os medíocres, para o homem comum, e "iluminado" para os sábios. 
O caminho da "loucura" não é uma escolha. Usamos os termos "caminhos", "trilhas", porque são imagens que também se adaptam à descoberta do mundo interior. Assim como descobrimos, pesquisamos e estudamos o mundo externo e o nosso semelhante, chega o momento em que somos voltados para o nosso mundo interior. Sim, "somos voltados" porque poucas escolhas livres são concedidas ao ser humano ter. O mergulho no mundo interior é um processo que leva à "loucura" - uma psicose, segundo os "especialistas" - ou à "iluminação", segundo a ótica de sábios e místicos.
Se nos orientarmos por "especialistas" viveremos o resto das nossas vidas dopados e freqüentando analistas; se nos orientarmos por sábios e místicos poderemos chegar à "iluminação" ou seja, à plena consciência.

O Código Civil Brasileiro dispõe que “estão sujeitos a curatela os loucos de todo gênero” e determina que “o Ministério Público só promoverá a interdição no caso de loucura furiosa” e que os loucos são relativamente incapazes nos limites definidos pelo juiz, depois de ouvidos profissionais. Esse é o aspecto legal.

A maioria das psicoses apresenta algumas características da esquizofrenia. Mas como “não existe um exame laboratorial que seja capaz de identificar a esquizofrenia, o diagnóstico permanece inteiramente dependente do julgamento clínico médico, através de uma entrevista psiquiátrica cuidadosa com a pessoa e seus familiares. Como não existem sintomas específicos da esquizofrenia os médicos se baseiam em critérios diagnósticos.”

Ainda não existe um exame laboratorial capaz de identificar a esquizofrenia, a neurose crônica, e, parece-me a maioria das doenças ditas mentais e, conseqüentemente, o indivíduo está entregue a um critério médico subjetivo.

A realidade percebida pela maioria da população – a visão mediana - é definida como a única realidade, a única verdade.

Será que cérebro e mente são a mesma coisa? A visão materialista afirma que a mente é apenas uma função do cérebro, mas outros afirmam que mente e cérebro são duas coisas diferentes. Quanto mais o sujeito toma consciência de si mesmo,
Mais percebe essas diferenças, entre si e os outros (já dizia Pascal que “as pessoas comuns não acham diferença entre os homens”), e as diferentes forças que movem a personalidade (será que isto é coisa de psicótico?).
Tenho consciência de que o cérebro é bastante parecido com um computador que foi programado (condicionado) e que tem memória. Esta memória é condicionada pelo passado, pelas pressões externas, pela sociedade e modifica-se com o presente. Esse condicionamento do cérebro forma o eu, a psique, o pensamento. O eu é condicionado, ele, portanto, não é livre. O eu por ser condicionado não tem liberdade para investigar de um modo imparcial.

A intuição, a criatividade, a percepção, a compreensão profunda e o amor incondicionado provêm da mente. A mente não é “minha”, ela é universal ou geral, ilimitada e indivisa. Ela é impoluta; não está contaminada pelo pensamento, pelo eu.
Esta é a “consciência” que quero repartir com vocês e dizer que não existe um doente mental, existe um doente da psique, um doente do eu. Mas afinal, o que é “consciência”? A consciência pertence à mente.

MEDO

O medo é a base de todos os problemas da existência humana e a ignorância a causa de todos os medos.


MENTE


O que é mente? Mente é pensamento, sentimento, vontade, desejo ou é algo maior? Será que não é tudo isso mas com um potencial maior que ainda não tem total consciência de si mesma? Será mente o nous (espírito ou inteligência) formulado por Anaxágoras? Logos – o Verbo, filho de Deus? A mônada de Leibniz? A semente de Deus de Rudhyar? O eu profundo ou verdadeiro? A centelha divina? O corpo espiritual das doutrinas esotéricas? O Universo não é a mente geral - a realidade da qual se forma a mente individual? Se assim é por que pensamos que o “eu” pode controlar a mente? Não foi o homem que criou o “eu” (ego)?
A mente não é minha porque não foi criada por mim como foi criado o eu. O eu é uma criação individual, uma “máquina” de efeitos condicionados. Há um salto, uma transformação, quando ocorre a profunda compreensão do condicionamento do eu. É uma libertação. Nasce uma consciência capaz de perceber a divisão entre sujeito e objeto e incorporá-los em uma mesma realidade. Ao sentir a força e o poder da unidade, a mente é consciência.
Mente, consciência e cérebro são coisas distintas.
A consciência não é um resultado secundário (epifenômeno) da atividade cerebral. Isso vira o ponto de vista materialista (newtoniano) de cabeça para baixo. O problema desse ponto de vista é que se começa com partículas produzindo átomos, átomos produzindo moléculas, moléculas produzindo neurônios, neurônios produzindo o cérebro e o cérebro produzindo consciência. Esta visão transforma a consciência em um objeto, apesar de que os objetos fazem parte da experiência da nossa consciência, e não só eles mas o todo. O enfoque convencional não consegue incorporar essa duplicidade do sujeito e objeto e perceber a unidade”(1). Consciência é uma qualidade do eu ou da mente. A consciência do eu é formada por ilusões.
A mente começa a revelar-se quando mergulhamos em nós mesmos e atingimos outros níveis de percepção. Os fenômenos paranormais e as curas “milagrosas” são efeitos da mente.
Toda criatividade é mental. É a mente que processa os significados. Para os cientistas, a mente é um fator secundário do cérebro. Se assim fosse, então a criatividade não existiria, porque o cérebro não pode processar o significado. O que a criatividade pode fazer à nossa volta é nos ajudar a ver um sentido novo naquilo que todos vêem como algo comum.”(1)
O conhecimento intelectual - a erudição - é informação. Esta é superficial. Nós precisamos de transformação. É necessário entrar no mundo interior para experimentar o extra-ordinário. Este salto não é dado pela força da vontade, por drogas alucinógenas ou pela auto-hipnose. É um caminho individual, uma necessidade interior, um despertar que não é promovido pelo eu (ego).
Eu não estou seguindo ou formando teorias sobre o “eu”, eu estou descobrindo, através do autoconhecimento, quem, ou o que, é o “eu”.
Quem sou “eu”, o “eu” que “eu” conheço? Por exemplo, “eu” sou José. Este José começou a formar-se desde a concepção, nas relações com a sua mãe e também já com o seu meio. O José desde o ventre materno começa a formar a consciência da sua realidade com a descoberta do mundo à sua volta. Este relacionamento instintivo do José com o seu mundo através das percepções sensoriais vai criando o seu “eu”. Crescendo, estudando, seguindo exemplos e aprendendo, forma-se a consciência do “eu”. Perceba que o “eu” é criado através de reflexos condicionados. O condicionamento torna o “eu” um robô que vive repetindo verdades que aprendeu, sejam religiosas, filosóficas, morais ou éticas. Este “eu” chamamos de ego. Este “eu” é José.
Ao mergulharmos dentro de nós mesmos, começamos a identificar o “eu” e as demais forças que movem o ser humano. Vontade, pensamento, sentimento, desejo, razão e, principalmente, aquelas que o “eu” através da razão e da vontade não consegue compreender ou controlar. São as forças naturais e “irracionais” que levam à transformação. Que transformação? A capacidade de perceber o “eu” e ver o mundo sob outros ângulos, descobrindo realidades que fogem do ordinário, do normal.
O “eu-ego” não consegue ver a si mesmo. Somente um “não-ego” que esteja “fora” conseguirá percebê-lo e compreendê-lo. Este não-ego chamamos de eu-profundo, eu-verdadeiro, Logos, e também de mente. A consciência do eu-ego é formada pela lei da causalidade que acontece no tempo e no espaço. A mente está fora desses limites.
Então coisa primeira não é o “eu” mas a mente inconsciente. A mente é a coisa em si, o “eu-ego” e o corpo físico é um fenômeno que acontece no tempo e espaço. Criado e aperfeiçoado o “eu”, a pessoa pode entrar numa crise existencial que representa o despertar da mente. Amplia-se a consciência e o “eu-ego”, aos poucos, passa a ser totalmente dominado pela mente (Logos). A força da vontade já não lhe pertence mais. Fala-se de sua “morte” (crucificação).
Há de observar-se, ainda, que o “eu-ego” morre com o corpo físico porque com ele foi criado.
Para a compreensão desse processo devemos afastar qualquer crença ou conceito de Deus. A Bíblia (Novo Testamento) está repleta de citações sobre essa autotransformação, este renascimento.
(1) Amit Goswami – físico quântico. Revista Planeta – Edição 335.


MORAL E ÉTICA

Numa abordagem superficial as palavras ético e moral podem ser consideradas sinônimos, com a única diferença de que a primeira vem do grego e a segunda do latim. No uso diário ética e moral se confundem embora moral esteja mais relacionada com os costumes de determinado grupo social e a ética represente valores universais.
Numa visão mais profunda chamamos de Moral os valores consuetudinários de determinado povo ou civilização que se dividem entre certo e errado, moral e imoral - aqui incluídos a virtude, o altruísmo e seus sinônimos. Homens bons e homens maus são definidos pela moralidade. Homens viciosos e homens virtuosos pertencem ao mesmo mundo, o mundo onde reina o egoísmo, o mundo da Moral e do Direito. A ética está no nível da Consciência, da sabedoria. Para a ética o homem não é bom nem mau, nem vicioso ou virtuoso, ele é somente um ser humano com todas a complexidade e dificuldades que são comuns a todos.
O comportamento moral e ético do povo brasileiro - com as exceções que confirmam a regra - é esse. Esta é a realidade brasileira. Gostamos de dizer que os estrangeiros tem uma imagem deformada do Brasil mas a imagem que projetamos é aquilo que somos. O corporativismo é uma realidade que está em todos os segmentos da sociedade, não é um privilégio dos políticos. Sempre procuramos encontrar o inimigo público número um - o dos nazistas eram os judeus . Os políticos são simplesmente os representantes do povo. Só isto. Sob o seu ponto de vista eles não tem ética nem moral, são corruptos, venais, etc. etc.. mas eles simplesmente seguem a ética e a moral do grupo social que eles representam. De quatro em quatro anos o povo tem a opção de substituí-los e, geralmente, essa troca chega a 50%... mas a m... continua a mesma. Num país de analfabetos e semi-anafabetos, queremos o que? Se eu e você estivéssemos no poder talvez fôssemos piores... segundo o ponto de vista do povo.

MORALIDADE


Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”. É o ideal que se confronta com a realidade. “Façam o que eu digo” é o ideal, “o que eu faço” é o real. Todos somos especialistas em dizer o que o outro deve fazer. Por isto é impossível viver em sociedade sem máscaras. É impensável a vida em que os nossos pensamentos e desejos mais íntimos fossem públicos. As máscaras mostram um ser humano ideal numa sociedade ideal.
A razão e o ideal caminham juntos porque o ideal é um modelo construído pelo intelecto. O conflito entre o real e o ideal é a grande luta, a base que irá formar a moral. O ideal é a máscara sob a qual repousa o real. É a única forma de convivência social que o homem encontrou. Mas as regras morais são necessárias para aqueles que vivem na inconsciência e, por isto, incapazes de viver em sociedade sem as amarras que as normas impõem. O homem consciente é amoral.


MORTE

A morte, muitas vezes, parece brincar. Algumas vezes escapamos dela milagrosamente mas podemos morrer bestamente. Há aqueles que morrem na hora certa, no auge da sua vida, da fama, do sucesso e viram nome de rua, de praça. Outros morrem na hora errada, quando estão no fundo do poço, esquecidos de todos. Parece que a morte é uma escolha inconsciente. Acidentes mortais e doenças fatais, de acordo com pesquisas realizadas, estão relacionados como formas de suicídio inconsciente. Na verdade, há quase uma unanimidade entre os estudiosos da psique, de que parte do inconsciente a força motriz das nossas motivações e ações. A morte é, na verdade, o repouso, o descanso, a noite que vem depois do dia. A imortalidade, se existisse, seria uma maldição. A maldição que acompanha os vampiros.
Estou ouvindo Das Lied vom Tod (a canção da morte). Uma música suave e sentimental. Um sucesso do momento na Europa. A morte me lembra descanso, harmonia, integração no todo, a volta à terra. Segundo a teoria da evolução das espécies nós somos filhos da terra, e à ela retornamos. Simples, claro e objetivo. Criamos a Filosofia, a Teologia e as religiões, fundimos neurônios tentando encontrar respostas para quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Nos julgamos deuses e por isto criamos um Deus à nossa imagem e semelhança. Queremos um ego eterno com felicidade eterna. O Mal que nos aflige, todos sabemos, é o intelecto, a inteligência. Esquecemos de observar e de compreender que as coisas são simples, a vida é simples. Quanto mais forte o ego mais medo temos da morte. Spiel mir das Lied vom Tod. Uma bela música.
Sabemos, com certeza, que no universo tudo se transforma, e a morte, portanto, é uma transformação. Retornar ao seio do Pai ou da Mãe, ou seja, do Uno, não me parece algo difícil de aceitar para quem vive conscientemente, isto é, quem não deixa para amanhã o que pode ser feito hoje.
É preciso acrescentar algo muito importante: o desapego. É importante observar que o desapego não é algo que se cultive, algo que exija esforço, algo que resulte do querer. Sabemos nós que no plano do espírito não domina a vontade. A vontade pertence ao ego. No plano do espírito domina a necessidade e o aprendizado consciente. O desapego é um aprendizado que exige tempo porque ele resulta da experiência, ele faz parte da consciência, do amadurecimento do ser. Mas é importante observar que isto muda de pessoa para pessoa. Algumas são naturalmente possessivas e morrerão possessivas. Isto me leva a outro pensamento: o da reencarnação. Pelo processo de reencarnação o sujeito teria várias vidas para desenvolver todas as possíveis experiências humanas e assim atingir a totalidade. É uma teoria em que muitos acreditam. Embora muitos digam que não se pode misturar religião, ciência e filosofia, eu, pessoalmente, tenho uma visão holística da realidade.
A Ciência é a base para qualquer tentativa séria de identificar a realidade e conhecer a si mesmo. A Ciência trabalha com o mundo observável que pode ser medido e experimentado: o mundo externo ao sujeito. A Psicologia, a Religião e as ditas “ciências ocultas” têm como objeto um outro mundo: o mundo interno do sujeito. Disse Jesus sinteticamente: o meu reino não é deste mundo (muitos pensam que o reino de Jesus ou de Deus é o destino do sujeito depois da morte. Isto é, morre-se e o espírito vai para o reino de Deus e, sendo julgado, pode ser mandado para o inferno). Jesus disse, também, que o reino de Deus está dentro de cada um. O Reino de Deus é o mundo interno, subjetivo, do sentimento. Então há o mundo externo que é o objeto da Ciência; o mundo interno que é o objeto das religiões, da Psicologia e das ciências ocultas; para completar há a Filosofia: Estudo geral sobre a natureza de todas as coisas e suas relações entre si. O sujeito, se desenvolver o conhecimento dessas três áreas, passa a ter uma visão holística da realidade.
Estava escrevendo sobre a teoria da reencarnação. Numa visão holística, a reencarnação, na forma como é enunciada, não existe. O Karma não existe. O que existe é a herança genética. Cada indivíduo é o resultado final de uma “linha de produção”, de um sistema tão complexo que não sabemos se em algum dia a ciência o poderá determinar. Dizem, por exemplo, que os irmãos de Beethoven, o maior gênio musical de todos os tempos, eram retardados mentais. Não precisamos ir longe, como dizem, para identificar diferenças incríveis entre irmãos. Um gênio é um produto da natureza, uma exceção no meio da mediocridade e somente isso.
Cada indivíduo é o resultado de um encadeamento genético que tem as suas origens nos seus antepassados. Conhecer os seus antepassados é básico para o conhecimento de si mesmo. Cada sujeito é único e um todo onde convivem o Reino da Ciência e o Reino de Deus. Este sujeito irá retornar à mãe Terra de onde nasceu. É o que sabemos.


A morte, para o Ego, significa o fim. Sim, a morte térmica é o fim indiscutível do Ego. Mas nem todos pensam assim, nem todos os Egos conseguem imaginar o seu fim. Por que as religiões fazem tanto sucesso? Porque elas afirmam que o Ego é imortal. Ele sobreviverá num céu ou inferno eternos segundo os católicos; reencarnará segundo outras. Elas não provam nada, apenas exigem a fé, e os Egos acreditam. Então, por via de dúvidas, a nossa civilização, com o apoio das religiões – algo que não consigo compreender: se, segundo elas o Ego é eterno por que o temor da morte? – fazem tudo o que está ao seu alcance para prolongar a vida (vejam que o Império em guerra não mais coloca seus soldados em risco de vida - a sua tecnologia militar permite fazer isto -: somente o inimigo deve morrer). A vida é o bem supremo. Faz-se de tudo para preservar a vida do Ego como se homem tivesse poderes sobre a vida e a morte. Nascer, crescer, amadurecer e morrer é uma regra que se aplica a poucos. Dos que nascem vivos, quantos chegam aos cinqüenta anos?
O Ego tem medo da morte porque sabe instintivamente que este será o seu fim. Viver pelo espírito é não deixar para amanhã o que pode ser feito hoje. Viva total e intensamente o agora, de tal forma que nada sobre para ser vivido. Afinal, a qualquer momento, com toda a certeza, a morte baterá à sua porta.




MUNDO


O mundo sensível e o mundo das idéias. Os filósofos, de um modo geral, continuam a ser fiéis discípulos de Platão. O mundo das idéias fascina e, observamos, condiciona o pensamento de muitos. O mundo das idéias formulado por Platão está em oposição ao mundo sensível dos sofistas. São duas formas de "ver" a realidade. A partir do momento em que eu afirmo que a experiência é a base do saber, eu estou privilegiando o mundo sensível. Este não tem espaço no mundo de Platão. Toda a minha argumentação tem como base a experiência de vida - o mundo sensível - e, por isto, identifico-me com Kant, Nietzsche, Jung, etc.
Cada pessoa vê a coisa de uma forma peculiar e pessoal. De forma natural, uma pessoa, por exemplo, pode ver a rosa objetivamente: uma rosa, vermelha, num jardim; outra vê uma rosa, bela, vermelha, com todas as lembranças emocionais que ela traz: a mãe podando as rosas no jardim, o espinho que lhe tirou uma gota de sangue dos dedos, a rosa que ofereceu à sua primeira namorada, o perfume, etc. Ele ama ou despreza a rosa de acordo com as experiências que ele teve com a rosa. Ele “vê” a rosa subjetivamente. Outro pode ver, ainda, a rosa de forma objetiva e subjetiva. Assim é o homem que vê a rosa. A beleza, portanto, não está nela, mas naquele que a vê.
O homem, entretanto, “é” a medida de todas as coisas (Protágoras). Werner Heisenberg - Prêmio Nobel de Física e um dos expoentes da mecânica quântica - afirma: “Inclino-me a dizer que a ciência da natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma parte do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso também uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo. Por conseguinte nós mesmos não podemos excluir-nos dela... Já não podemos projetar os fenômenos totalmente no exterior, e nem podemos objetivá-los completamente, mas apenas falar do mundo que o homem é capaz de conhecer.” (Pasolini, Piero, A unidade do cosmo, Ed. Cidade Nova, São Paulo, 1988).
O mundo sensível nos mostra que “o observador faz parte essencial do fenômeno observado” ; “a beleza não está na flor mas naquele que a vê”. Podemos afirmar então que só existe uma verdade: a verdade individual (voltamos a Protágoras). Mas existe alguém que conheça a sua verdade? Por acaso as nossas verdades não são somente cópias de verdades alheias? Adotamos pensamentos, idéias, filosofias e crenças e as repetimos como verdades. Pensamos estar com a verdade porque muitos a repetem. Robôs!!! O despertar da mente é uma luta contra as ilusões. Ilusões formadas pela crença em idéias transmitidas por pessoas que elegemos como “autoridades”: religiosos, filósofos, cientistas ou livros chamados sagrados. Que tal descobrir a nossa verdade?


Observo como os filósofos, candidatos a filósofo e religiosos de todos os naipes procuram provar a existência de Deus. Todos os argumentos racionais e lógicos em todas as variações são utilizados para convencer a si mesmos a aos outros sobre a existência de Deus, do demônio, de anjos e outros habitantes celestiais e infernais. Livros ditos sagrados, revelações e sábios antigos são os mais citados. Mas há também aqueles que, através de provas matemáticas e da informática, dizem poder provar a Sua existência. Mas apesar de todas as provas que dizem ter ninguém jamais os viu a não ser em sonhos ou na imaginação.
A razão e a lógica tratam do mundo objetivo, do mundo que está fora do ser humano. A idéia, o pensamento, somente tem validade quando não está contaminado pelo subjetivo, pelos sentidos, pelo sentimento, pelo mundo interior. A inteligência que dá o suporte para a razão e a lógica, não sem motivos, também é chamada de Lúcifer: portador da luz para uns e príncipe dos demônios para outros.
Quando o sujeito compreender que ele vive em dois mundos que se interligam, o mundo exterior e o mundo interior; quando o sujeito for capaz de explorar e descobrir esses seus dois mundos; quando o sujeito começar a construir a ponte entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo; quando o sujeito começar a perceber a unidade, ele começará a encontrar a Verdade.



NIETZSCHE

Nietzsche não é um autor difícil. É o estilista mais latino e mais claro da língua alemã. A sua prosa é a do grande poeta que era. Exprime com igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães, a claridade irônica dos latinos, o grande “pathos” da Bíblia; a sua língua soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos, como as canções, ébrias de luz, dos provençais, e, às vezes como versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente. Mas é sempre clara, bastante clara para esconder sob a virtuosidade dos meios estilísticos as contradições internas. Nietzsche é o último filho da “velha Alemanha ” humanista, filho espiritual de Goethe e Hölderlin, e, ao mesmo tempo, profere fanfarronadas de uma ébria vontade de dominação, que se perderam no reino sóbrio de Bismark, e só mais tarde tiveram eco. Nietzsche é um inimigo mortal dos alemães – a expressão “bom europeu” é dele – e, ao mesmo tempo, proclama o individualismo germânico, o amoralismo bárbaro dos gigantes da Edda. Nietzsche foi o inimigo mais furioso que o cristianismo jamais teve. E todavia esse filho de gerações de pastores luteranos sofre intimamente de conflitos religiosos e é, afinal, um cristão pascaliano. Karl Jaspers chama à obra de Nietzsche “um campo de ruínas, coberto de destroços contraditórios”. O único laço que lhes dá coerência é a paixão intelectual de Nietzsche, que lembra as personagens de Dostoiésvski; é a sua personalidade, agitada nas profundezas da existência humana, o lanço apaixonado de toda a sua personalidade, o que faz da sua loucura a sua obra máxima. Lembra a verdade dos antigos – que os poetas são uns delirantes. Friedrich Nietzsche era um poeta. (Otto Maria Carpeaux.)

NOVO HOMEM

Características do novo homem:
  1. A vida é movida pelo amor, harmonia e liberdade.
  1. O relacionamento com o Universo que o cerca é feito através da intuição, do bom senso e do sentimento do Amor.
  1. Tem uma visão holística, uma compreensão do todo, do conjunto.
  2. Vive segundo o princípio de que tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora.
  3. Nas relações pessoais é tolerante, não julga e não têm preconceitos.
  4. Vive o aqui, o agora e a não-escolha. Está aberto ao novo porque sabe que as certezas de hoje podem estar superadas amanhã.
  5. Não é movido pela fé mas sim pelo saber.

OBSERVADOR, O

Niels Bohr propõe que somente existe o fenômeno porque há um observador. Heisenberg afirma que o observador faz parte do fenômeno observado. Aqui temos a consciência individual. A consciência não é comprovada cientificamente. Se provarmos a existência da consciência individual, provaremos a existência da consciência cósmica - Deus. Como a consciência pertence ao mundo subjetivo eu posso saber se tenho consciência. Se eu tenho consciência eu sei o que é Deus, independentemente da comprovação científica ou da fé.
Observar com o pensamento e o coração, com os sentidos e a intuição. Observar a si mesmo, profundamente, até poder dizer: começo a conhecer-me. Poderá haver algo mais nobre e mais fantástico do que conhecer a si mesmo? O que eu escrevo, por exemplo, é meu ou simplesmente a repetição de idéias alheias? Quando muito lemos e estudamos determinado pensador começamos a escrever e a falar as suas verdades (dele) como se fossem nossas. Até o seu estilo chegamos a usar. Há pessoas, por exemplo, que de tanto lerem Krishnamurti, repetem em seus textos até o estilo desse pensador. Muitas vezes, estão tão condicionadas que escrevem os mesmos pensamentos complexos daquele mestre mas sem os compreenderem.
É muito difícil nos libertarmos dos condicionamentos. Às vezes, surgem idéias que pensamos ser nossas mas que foram absorvidas por estudos e leituras anteriores. Mantiveram-se no inconsciente até a ocasião oportuna. Se observarmos com atenção, não há idéias ou pensamentos originais na nossa civilização. Parece que os gregos disseram tudo o que havia para ser dito. Será que eles foram originais? Também não o sabemos porque não temos registros anteriores. Mas considerando-se que a sabedoria é um conhecimento progressivo, que se transmite de geração para geração, a filosofia grega representa um apogeu do pensamento.
Mas, talvez, consigamos chegar ao ponto de, colhendo as informações necessárias, ter uma compreensão da nossa realidade pessoal: ver o mundo com os nossos olhos e não com os olhos dos outros.


PAIXÃO

o grande homem é grande, quando é suficientemente forte para fazer das paixões os seus animais domésticos”(Nietzsche).

PENSAMENTO

O pensamento do homem sábio está em constante evolução. Ele não tem compromissos com as suas idéias de ontem. Este homem não tem o apreço nem a confiança da massa nem dos intelectuais porque a razão exige coerência, objetividade, estabilidade, constância. É a subjetividade, o sentimento que tem as características de instabilidade, de desenvolvimento, de evolução. A razão pura é estéril. O pensamento lógico somente evolui pela força do sentimento porque este é formado pelo instinto, pela intuição e pela experiência direta.

PENSAR E SENTIR
Há aqueles em que está mais desenvolvida a faculdade de sentir (intuição) e por isto "sentem" o mundo. Outros, porque está mais desenvolvida a faculdade da razão, do pensamento, "pensam" o mundo. São duas faculdades inatas e distintas de ver a realidade que estão mais, ou menos, desenvolvidas em cada pessoa. Fernando Pessoa "sente" o mundo: "Sentir é compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela." E Julius Evola: "Conhecer, para nós, não significa "pensar", mas ser aquilo que se conhece, vivendo-o, realizando-o. Não se conhece verdadeiramente uma coisa enquanto não se pode transformar a consciência nela."
"Pensar" o mundo é vê-lo através da razão e da lógica. É uma forma abstrata composta por idéias e conceitos objetivos. As experiências de vida são orientadas pelos fenômenos objetivos tanto na forma de fatos concretos, como de idéias gerais. Predomina a amplitude do conhecimento.
"Sentir" o mundo é recolher os fatos apenas como evidência para suas próprias hipóteses e não em benefício dos próprios fatos. O modelo vem de dentro, da experiência de vida, da intuição (inconsciente) e é, portanto, puramente subjetivo. Predomina a profundidade em detrimento da amplitude.
A comunicação entre aquele que "sente" e aquele que "pensa" o mundo é naturalmente difícil. A palavra é uma idéia, uma imagem que no primeiro está minimamente (?) "contaminada" pelo subjetivo, ao passo que no segundo a palavra é uma imagem com significado subjetivo.
Observa-se que em Nietzsche está desenvolvida a faculdade de sentir o mundo e, por isto, muitos filósofos o chamam de Poeta. O mesmo ocorre com Rajneesh e por isto tão incompreendido pelos racionalistas. Huberto Rohden também "pensava" e "sentia" o mundo. Nas suas obras iniciais revela-se o filósofo, o pensador, mas na final de sua vida revelou-se aquele que "sentia" o mundo.
Se você não concorda ou tem dificuldades em compreender-me é porque você "pensa" e eu "sinto" o mundo.


PERDÃO

Orgulho, arrogância, culpa, perdão... este é o mundo do egoísmo, da consciência do ego. Precisa do perdão quem se sente culpado. É uma reação condicionada: a falta gera a culpa que precisa do perdão. Podemos afastar-nos dessa guerra de egos ou, então, usar as mesmas armas ou a indiferença, embora perdão não seja algo que possa ser dado pelo outro, perdão é algo que se dá a si mesmo. Tomando consciência dessa realidade podemos avançar no processo de desenvolvimento pessoal.
O perdão faz parte do jogo de poder. Dá o perdão o superior, o Senhor, o vencedor; pede perdão o subordinado, o servo, o derrotado.

PERSONALIDADE

Personalidade é a organização integrada por todas as características cogniscitivas, afetivas, volitivas e físicas de um indivíduo, tal como se manifestam.

PRAZER

Causa do prazer não é a satisfação da vontade: contra esta superficialíssima teoria, em particular, quero bater. Absurda falsa-modelagem das coisas próximas...o sentido de prazer está precisamente na insatisfação da vontade, em que, sem limites e resistências, ela não está ainda suficientemente satisfeita....Poder-se-ia talvez designar o prazer em geral como um ritmo de pequenos estímulos desprazeirosos...Na medida em que toda força só se pode desafogar naquilo que a ela resiste, em toda ação há necessariamente um ingrediente de desprazer. Apenas que esse desprazer atua como estímulo da vida: e fortalece a vontade de poder.(Nietzsche). O prazer move o ser humano. Vive-se por prazer e morre-se quando não há mais o prazer de viver. Mas a sensação do prazer mede-se pelo seu oposto, a dor. A vida, então, move-se, numa compensação, entre o prazer e a dor. Uma vida sem dor, portanto, é uma vida sem prazer e vice-versa. O esforço, o trabalho e o sacrifício de pequenos prazeres são necessários para que se obtenha um grande prazer. É um aprendizado. Afirma Nietzsche que o verdadeiro prazer consiste em estimulá-lo e não em satisfazê-lo. Este também é o princípio do Tantra. Observamos que a satisfação quando existe é momentânea e sempre se buscará a sua repetição ou ampliação. Por outro lado, uma das características do prazer é a singularidade. Cada indivíduo tem a sua fonte de prazer; o que pode ser prazeroso para um não o é necessariamente para o outro.

O gosto capitoso do poder” canta o poeta. O poder embriaga, mas acima de tudo o poder dá prazer. A vida do Ego é um jogo de poder. Muitos sacrificam tudo, absolutamente tudo, por este prazer. Na verdade, ele alimenta-se do poder. A luta entre Egos é uma luta pelo poder. Poder que sobe à cabeça, que entontece, que embriaga e que, muitas vezes, é a sua ruína.


PRECONCEITO

Mas não podemos esquecer que o preconceito também está na cabeça daquele que vê preconceito. Nós projetamos nos outros o que nós somos. No julgamento que emitimos a respeito dos outros, revelamos involuntariamente nossos próprios defeitos: simplesmente culpamos o outro de todas as nossas próprias faltas que não temos coragem de confessar. Enxergamos todos os defeitos nos outros, criticamos sempre o nosso semelhante e queremos sempre educá-lo e corrigi-lo. Não é nada fácil assumir, por própria conta e risco, todas as baixezas e perversidades de que não hesitamos em julgar capazes os outros e contra os quais nos sentimos indignados durante uma vida inteira. A existência real de um inimigo sobre o qual se podem descarregar todas as nossas maldades, constitui um inegável alívio para a consciência. A partir dessa constatação surge uma pergunta interessante: seriam os "grandes" moralistas, os religiosos fanáticos, os piores de todos?


PRISÃO

Somente está preso aquele que tem consciência da sua prisão. Muitos dormem e nada sabem. Cada indivíduo tem uma cela especial com o formato de sua própria personalidade. O conhecimento dos segredos da própria cela e os labirintos do presídio são necessários para perceber-se que a fuga é impossível. O desejo da fuga - a vontade de poder – levam, aos poucos, à tomada de consciência de que as grades da prisão são formadas pela sua consciência e pelas limitações da sua humanidade.
A prisão é composta de limitações. Ela é do tamanho das forças – energia, vontade - que compõem a minha natureza individual. Não serei um filósofo se não tenho a capacidade natural de “navegar” pelo mundo das idéias; não serei um artista se não tenho o dom de expressar a arte; não serei um líder se não tenho a força da liderança. Dizem alguns que os nossos limites são os nossos sonhos; outros, que somos aquilo que pensamos. Tudo, entretanto, é relativo e incerto.

RAZÃO

faculdade espiritual própria do homem, e pela qual ele chega à concepção das idéias universais, como sejam da unidade, de identidade, de causa e de substância.
Se ficamos no campo da razão pura, - Kant, novamente - , observamos que os juízos se contradizem em teses e antíteses, sem que uma ou outra apresentem falhas lógicas de raciocínio.

RAZÃO E SENSIBILIDADE

Afirma o filósofo e físico L.L. Whyte que a tradição intelectual do ocidente foi marcada por aquilo que ele chama de "dissociação". Desde Platão, a dissociação entre o corpo e a mente, a personalidade e a natureza, o intelecto e o senso do sentimento e da intuição, tem impregnado toda e qualquer abordagem da vida, adotada pelo homem ocidental: intelectual, religiosa, econômica e política. Normalmente as raras exceções a esta tendência tem sido os poetas, os místicos e outros que estão situados na periferia da vida sócio-cultural.
Continua Whyte:
"Se a natureza, no todo, é um grande sistema em perpétua transformação e desenvolvimento, a tentativa de isolar qualquer parte está destinada ao fracasso. Em particular, a separação do homem, como dependente, do campo da natureza objetiva, cega-o para a forma de vida apropriada para ele. O homem só pode compreender-se plenamente fundindo o conhecimento objetivo, obtido através da observação da totalidade da natureza orgânica, com o conhecimento subjetivo, de experiência individual. Isso pode trazer uma nova tranqüilidade e auto-aceitação, uma simplicidade baseada no conhecimento. Os preconceitos negativos da moralidade convencional são substituídos por um entusiasmo positivo pela vida em desenvolvimento.."
Stephen Arroyo observa que Blaise Pascal, além de outros, negou que o mundo e, especialmente, o homem pudessem ser verdadeiramente compreendidos por meio da análise racional. Ele afirmou que a intuição, isto é, ver através da superfície das coisas e penetrar no seu mistério essencial era, fundamentalmente, a chave para se compreender o homem e o mundo.
As grandes escolas de mistério da antigüidade ensinaram que a consciência humana só é limitada pelas fronteiras intelectuais arbitrárias que ela impõe a si mesma.
A contribuição dos gregos não se limitou à descoberta de certas leis naturais em atividade no mundo material; ela também se estendeu até os domínios da vida e do desenvolvimento interior do indivíduo. "Conhece-te a ti mesmo" foi a idéia-chave básica para o desenvolvimento da filosofia grega. Formava-se a "sabedoria" através da pesquisa sistemática em busca das verdades "essenciais", ocultas sob a vida e a natureza e uma tentativa de descobrir não só as leis "naturais", mas também as leis metafísicas universais e da própria vida.
O intelecto é principalmente vantajoso para a utilização do mundo exterior, material. Mas até agora a aplicação de uma análise puramente intelectual para se chegar à compreensão do mundo interior da experiência, não tem sido capaz de provar ou desaprovar coisa alguma acerca das questões fundamentais filosóficas ou religiosas, da vida, que formam a base da estrutura psicológica de qualquer pessoa. Há um máximo de abstração com um mínimo de significado. O que o homem precisa é de significado. O significado, entretanto, vem de dentro, não de fora. O mundo não pode ser visto somente como físico, abstrato, objetivo - uma individualidade separada, absolutamente impessoal. "O mundo pessoal, o único que cada um de nós conhece realmente, é o mundo pintado com as tonalidades de todos os nossos significados pessoais", conclui Arroyo.
O filósofo que não consegue ter uma compreensão holística do mundo e da relação de si mesmo com este mundo é meio-filósofo; aquele que ainda se refugia no mundo etéreo das idéias e da objetividade em busca da Verdade, nunca chegará à "sabedoria" - não saberá o que é "philosophia".

REALIDADE

Real é o mundo interior, REAL é a visão que você tem do seu mundo e de si mesmo. O real é subjetivo - o observador faz parte essencial do fenômeno observado. O homem massa vê esta realidade de forma distorcida, ele não consegue distinguir com nitidez o que é real e o que é ilusório. Com base na Psicologia, na Mecânica Quântica, na experiência e observações pessoais, penso que não existe a realidade objetiva. Ela é somente uma idéia.
Aquele que tem consciência está "na real". Consciência é a base do ser. Consciência se adquire com a atenção, com a observação e com a reflexão. O real é aquilo que tem um significado subjetivo.

Observe! A beleza não está na flor mas no observador.

O que é real?

O real e o abstrato; o real e o ilusório; o verdadeiro e o falso; o objetivo e o subjetivo.
Seria a objetividade o resultado da compilação ou combinação de todos os possíveis pontos de vista subjetivos?
A verdade que se sente; a verdade que nos é dita; a verdade que você acredita, a verdade que se percebe através dos sentidos.
Qual é a verdade?

Para Kant o conhecimento começa com a experiência, mas nem por isso origina-se nela. A experiência pressupõe o sujeito como condição de sua possibilidade, sem o que a palavra "experiência" nem teria sentido. O sujeito, então, deve apresentar capacidades ou faculdades que possibilitem a experiência e o próprio conhecimento. A primeira é a sensibilidade definida como a capacidade (receptividade) de obter representações mediante o modo como somos afetados por objetos. O conhecimento vem da percepção do objeto e dos conceitos, com as quais as representações são pensadas.
C. G. Jung, por outro lado, percebeu que cada sujeito tem capacidades ou faculdades individuais próprias, e por isto cada sujeito é afetado pelo objeto de forma peculiar. Definiu os tipos psicológicos e as diversas formas com que cada tipo forma a sua consciência.
Werner Heisenberg que participou das "dores de parto" da teoria dos "quanta", percebeu que a distinção que Descartes fazia entre sujeito e objeto - compartilhada por Einstein - em que o cientista tratava do mundo objetivo, e que neste mundo objetivo tudo devia acontecer segundo um determinado programa que podia ser expresso matematicamente, simplesmente não era possível. Segundo Heisenberg a ciência da natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma parte do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso também uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo. Por conseguinte, nós mesmos não podemos absolutamente excluir-nos dela. Já não podemos projetar os fenômenos totalmente do exterior, e nem podemos objetivá-los completamente, mas apenas falar do mundo que o homem é capaz de conhecer.
Estudos sobre o cérebro tem demonstrado que embora nossas impressões sejam bastante semelhantes a determinados aspectos da realidade externa, nada podemos falar sobre uma realidade objetiva. Criamos nossas cidades com o trabalho das mãos, mas as vemos segundo os caprichos do cérebro. No grande teatro da vida, vemos apenas as peças que as células do cérebro decidem representar. O cérebro cria suas próprias realidades.
O que é real?

REBANHO

Não há um código geral - cada um tem o seu código secreto - mas quando estamos no rebanho acreditamos que somos todos iguais, somos todos filhos de Deus. Essa igualdade torna a vida fácil e confortável, pois basta seguir as regras que são gerais. Para todas as dificuldades há soluções. Se você não cumpre as regras você vai preso, se é louco vai para o manicômio com camisa de força e lá será mantido dopado, se está doente do pé vai para o hospital. No rebanho há solução para tudo. Você estará amparado pelo grupo.
Mas a ovelha que foge do rebanho por uma necessidade instintiva é porque não suporta a mediocridade e a mesmice. Ela precisa descobrir o seu código secreto, a sua verdadeira identidade, pois sabe que não é igual aos demais. Aventurar-se num universo desconhecido, só, consigo mesma, não é tarefa para uma pessoa comum. Atravessar o deserto com os seus mistérios, perigos e miragens "só com a roupa do próprio corpo", sem ter uma mão amiga para segurar; adentrar no desconhecido, no mundo das sombras tendo como única companhia a vontade de chegar, sem saber aonde. Retornar ao rebanho depois de tudo o que descobriu, depois de tudo o que sabe? Será possível? Quem está descobrindo o seu código secreto começa a ter luz própria. Quem tem luz própria é inimigo declarado daqueles que adoram bezerros de ouro. Sim, queremos morrer. O dor, muitas vezes, parece estar acima das nossas forças. Não sabemos porque, mas queremos viver.


REDENÇÃO

Redenção, de acordo com Huberto Rohden, é resgate, emancipação, libertação, auto-realização. A redenção supõe que o homem seja escravo, cativo, prisioneiro - e assim é de fato. Mas o que prende, o que escraviza o homem? O que escraviza o homem é a sua inconsciência.
Segundo Pietro Ubaldi, não há um Redentor ou Salvador, pois cada um paga os próprios pecados e não os dos outros, que pagam somente os seus. Cada um se redime com as próprias dores e não com as dos outros que, por sua vez, não se podem redimir através das dores alheias. A Lei não pode ser senão esta: a Lei da mais exata justiça. Cada um sofre as conseqüências do que faz.
Para Schopenhauer - segundo Marco Aurélio Werle - o único meio de libertação real era o autoconhecimento das vontades inconscientes que governam os indivíduos; por meio desse processo de ascese e renúncia, o indivíduo seria capaz de escapar das seduções do mundo ilusório. Thomas Mann diverge de Schopenhauer e adere a Nietzsche, contra a renúncia e a favor da vontade individual.
A Redenção acontece através do autoconhecimento e são apresentados, pois, dois caminhos gerais: 1. a ascese e renúncia e 2. a vontade individual.
Condicionados que estamos a ver somente um caminho certo, resistimos à idéia de que caminhos opostos possam levar ao mesmo resultado, à libertação, à plena consciência. Quando compreendermos que isto é possível, perceberemos que não há somente dois caminhos, pois o caminho é individual, cada um tem a sua função no processo geral de evolução da humanidade.

RELIGIÃO

As religiões organizadas são efeitos da necessidade humana de exteriorizar em doutrinas, ritos e templos a sua crença na transcendência. Fazem parte da nossa realidade e, como tudo, sujeitas à crítica.

SABER

saber (sapere, saborear, sentir a qualidade, o sabor, experimentar) inclui a intuição, o conhecimento intelectual e a experiência de vida.

SÁBIO

Quem tem autoconhecimento procura despertar as pessoas. Mas isto exige do outro uma disposição, uma vontade, uma necessidade natural, instintiva. Se o outro não está preparado para despertar as palavras nenhum valor terão. Serão somente idéias que podem atrair quem procura erudição.
Quem tem autoconhecimento não será um pregador, um padre, um pastor ou um apóstolo. Ele não quer discípulos ou seguidores. Ele somente quer ajudar o outro a ser si mesmo. Ele não tem o poder, mas auxilia a despertar o poder que está dentro de cada um.

SENTIMENTO


Sentir é a palavra. Sentir o clima, o astral, a energia que neste momento permeia o ar, a água, a mata e a praia. A percepção do Belo. O Belo é harmonia. Tenho a sensação que isto é um sonho.

As emoções e sentimentos são estados comportamentais que geralmente recebem denominações semelhantes, embora haja entre os mesmos diferenças qualitativas.
A emoção é uma reação orgânica desordenada advinda de situações diversas, justamente quando não é possível uma lenta adaptação do organismo. Manifesta-se como ira, ódio, felicidade, alegria, tristeza, medo, ansiedade, etc.
O sentimento é uma função de avaliação pessoal que se manifesta como atração ou rejeição, afeição ou aversão com relação a um objeto, pessoa ou idéia abstrata e que carece das características de uma verdadeira emoção. Poderíamos afirmar que os sentimentos são emoções “polidas” e refinadas formadas pelas relações sociais e pela experiência de vida.
Não podem ser expressos em palavras, não podem ser racionalizados e não se prestam à descrição. Embora os sentimentos sejam inteiramente subjetivos – a forma como se manifestam tem como base um julgamento de valor – o elemento racional nessa função.
O sentimento demonstra em grau máximo a subjetivação do objeto. O sujeito e o objeto entram numa relação tão forte que somente sobra a aceitação ou a recusa.
Ele é capaz de avaliar e tratar uma informação que a razão não registra. "É ele que fundamenta a afirmação do Eu em uma posição ética. Um sentimento é uma realidade tão incontestável quanto a existência de uma idéia, e podemos experienciá-lo exatamente no mesmo grau" afirma Jung.
"Há uma oposição entre pensamento e sentimento", continua Jung. ´Se me oriento pelo pensamento, não posso me orientar, ao mesmo tempo, pelo sentimento, porque o pensamento e o sentimento são duas funções inteiramente distintas. Não podemos negar, também, que o sentimento chega muitas vezes a convicções diferentes daquelas do intelecto, e nem sempre podemos provar que as convicções do sentimento são inferiores àquelas.”
Observamos, pois, que as nossas escolhas, não pertencem somente à razão. O sentimento, entretanto, não é a causa de julgamentos ou decisões emotivas que, muitas vezes, tumultuam a vida. Ele representa a sabedoria formada pela nossa memória consciente e inconsciente, reflete o nosso caráter, o nosso ser.
Estou lendo "Freud, Pensador da Cultura" de Renato Mezan (Brasiliense). Num capítulo intitulado "Diálogo de Surdos" ele trata da relação entre Freud e Jung: "Quem se debruça sobre a correspondência entre Freud e Jung não pode furtar-se à singular impressão de que os dois interlocutores falam línguas diferentes, pensam em comprimentos de ondas antagônicos e padecem de surdez crônica."(pág. 268). Escrevi uma mensagem intitulada "Pensar e sentir" sobre aqueles que "pensam" e aqueles que "sentem" o mundo. Freud é racionalista - "pensa o mundo" - e vejam o sucesso que faz na nossa civilização. Jung, intuitivo - "sente o mundo" - é desprezado pelos racionalistas. Eu sou intuitivo e você racionalista e, por isto, não "enxergamos" o mundo da mesma forma. As tentativas de nos compreendermos serão inúteis, pois o abismo somente se ampliará.


SEXO

é uma questão que diz respeito ao meu processo de identificação. Observo que não só teólogos, mas também filósofos, se poderes tivessem mudariam a reprodução sexuada, por uma assexuada, mais “pura”, mais “limpa” e, principalmente, bem mais eficiente segundo modelos que já existem há milhões de anos na natureza.
Ora, o ser humano é uma unidade energética que interage com o cosmo. A base dessa energia é sexual. Energia sexual é energia vital. Quanto maior a energia sexual de uma pessoa, maior é a sua energia vital. Pessoas com grande energia sexual superam a mediocridade tornando-se líderes, santos ou grandes “pecadores’.
Sabe-se, por experiência direta, que higidez física e mental é efeito, principalmente, de um relacionamento sexual satisfatório e sem culpas. Culpas que são incutidas na alma humana por normas morais e religiosas baseadas na ignorância.
Sexo é energia, sexo é vida. O relacionamento sexual, a troca de energias entre dois corpos e duas almas, é fonte de vida (reprodução), equilíbrio energético e de prazer, uma das necessidades básicas de cada ser humano sadio.
O ser humano é um animal. A sua natureza é animal. Por que querer negar aquilo que ele é?
A busca do prazer mantém o ser humano vivo. Nem que seja o prazer de negar o prazer.
Um dos pontos básicos para manter o controle sobre o rebanho é o sexo. O sexo é mistificado. Quanto menos informações sobre o sexo melhor. "Sexo é pecado" é uma arma poderosíssima, afinal as igrejas dizem-se donas da Verdade. Todas as vontades das suas elites intelectuais são mobilizadas para justificar essa posição. E aqueles que ainda não conseguem ter idéias próprias vão seguindo o rebanho...

SOLIDÃO

O in-divíduo não é só colocado mas também posiciona-se à margem da sociedade. E porque ele desenvolve uma consciência própria, com valores éticos e morais que escandalizam as pessoas do seu meio, ele sente-se melhor estando só, e relacionando-se com pessoas em que há uma afinidade mínima de pensamentos. Mas o motivo maior do seu afastamento é a necessidade interior – instintiva – de estar só, consigo mesmo.
Esta percepção de saber-se o único “certo”, - não no sentido de certo e errado, mas de ter uma visão mais ampla e profunda da realidade, – leva a uma imensa solidão. A capacidade de compreender a realidade de uma forma diversa, de perceber e fazer uma leitura mais profunda dos textos dos grandes sábios isola o indivíduo. É uma passagem pelos “infernos”. Uma “passagem” porque nada dura para sempre. Para tornar essa parte da viagem mais suportável é importante a informação. Saber que não somos muitos nessa caminhada, que somos “estrelas” em busca da nossa galáxia como afirma Rudhyar torna menos dolorosa essa experiência.
À frase "somos apenas o resultado de nossas próprias experiências" gostaria de acrescentar que a herança genética que se manifesta também como instinto é a causa que leva às nossas experiências. A experiência resulta da interação do Eu com o seu meio e, nesse sentido, não somos “apenas” o resultado de nossas próprias experiências. Essa visão freudiana não resiste ao desenvolvimento da nossa consciência, como você, com o tempo, irá perceber. Os instintos - conceituados por Kant como “necessidade interior” – nos levam a experimentar. Eles são “domesticados” pela experiência. A experiência nos condiciona, cria máscaras, mas na essência somos movidos pelo instinto.
Quem experimenta sabe”.

SOMBRA

A sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu. A sombra é detectável em figuras do mesmo sexo que o sujeito, e que são os principais atores de seus sonhos e fantasias. Estes personagens tem traços de caráter e maneiras de agir que são a contrapartida da personalidade consciente. Quanto mais unilateral é o consciente, mais acentuados são esses personagens. Em geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de apoio e mergulhe na obscuridade.(C. G. Jung)


SONHOS


Sim, "A Interpretação dos Sonhos" é a grande obra de Freud. C. G. Jung escreveu "Da Essência dos Sonhos". Pela leitura desses livros aprendemos que as imagens dos sonhos não tem apenas um sentido, mas muitos. E o sentido da maior parte dos sonhos não coincide com as tendências da consciência, mas revela tendências singulares. Parece haver uma "compensação" entre o consciente e o inconsciente. Observo que na interpretação dos sonhos há múltiplas possibilidades de explicação. Qual delas é a verdadeira? É algo extremamente complexo porque, na maioria das vezes, somente o sonhador - que é um universo - pode ter a chave do seu significado. No desenvolvimento do autoconhecimento começamos a compreender os nossos sonhos e... percebemos que eles são "filmes" montados pelo cérebro a partir de imagens da memória, bem como podem refletir desejos conscientes e inconscientes. Mas como esse é um mundo extremamente movediço e singular, não me atreveria a afirmar que os sonhos tem a importância que muitos lhes querem dar.

 TAO

Um dos conceitos mais antigos e mais centrais da Filosofia chinesa é TAO, que os Jesuítas traduziram por Deus, mas não é. Tao é o Nada, Puro Nada, em oposição ao mundo da realidade. Nada porque em si ele não aparece no mundo dos sentidos, mas é apenas o seu organizador. Trata-se, portanto, de uma concepção que se situa na fronteira do mundo das aparências. Nele os opostos se dissolvem na indeterminação, embora ainda existam potencialmente. Estes germes, porém, indicam algo que corresponde, em primeiro lugar, ao visível, isto é, a alguma coisa que tem a natureza de uma imagem; em segundo lugar, corresponde ao audível, isto é, a algo que tem a natureza de palavra; e em terceiro lugar, à extensão no espaço, isto é, a alguma coisa dotada de forma. Mas estas três coisas não são claramente distintas nem objetivas; constituem uma unidade não-espacial ( sem um em cima e um em baixo) e atemporal (sem um antes ou um depois). (Jung)

Chama-se eixo do Tao o estado em que não há oposição entre o “eu” e o “não-eu”. O Sentido (Tao) se obscurece quando fixamos o olhar apenas em pequenos segmentos da existência.



TEMPO E ESPAÇO

Tempo e espaço, porém, não são objetos, mas sim modos ou atributos de percepção sensitiva e concepção intelectual. Se o homem não percebesse os fenômenos materiais pelos sentidos, nem concebesse as leis da energia pelo intelecto, nada saberia ele de tempo e espaço, nem de causalidade. Pela percepção sensorial, portanto, temos a noção da “duração” (tempo) e da dimensão (espaço), assim como pela concepção intelectiva, baseada naquela, temos noção da causalidade. Se fôssemos capazes de conhecer algo independentemente de tempo, espaço e causalidade, estaríamos fora do mundo dos fenômenos e suas leis; estaríamos no mundo do eterno, do infinito, do absoluto.

TEORIA DA INFORMAÇÃO

A informação pode ser definida, por si mesma, como a transferência ( em vários graus e diversas naturezas) de uma situação própria de um sistema para um outro sistema, através de “meios de comunicação” apropriados ao tipo de informação e de sistema. Entendida dessa maneira, a informação comporta sempre uma modificação mais ou menos substancial no sistema receptor; modificação essa ( a própria palavra o diz) que torna o receptor sempre “diferente” do que era. Por si mesma, a informação modifica também o sistema emissor, na medida em que o coloca em relação com outra coisa.
Talvez seja útil observar que, em cibernética, costuma-se às vezes fazer uma distinção entre “informação-conhecimento” (que diz respeito sobretudo ao ato de conhecimento que modifica o sujeito consciente e, por conseguinte, suas reações e seus comportamentos) e “informação-organização”, quando a informação modifica substancialmente a estrutura do sistema que a recebe, tornando-o capaz de novas capacidades operativas, e conferindo-lhe, assim, uma certa natureza “nova”, ou seja, um novo modo de ser e de operar. (Pasolini)

TRANSCENDÊNCIA

Transcendência significa o salto de um modo de ser para outro. Assim, pode-se dizer que se verifica uma transcendência em determinada coisa, ou em determinado estado de coisas, quando nessa coisa ou nesse estado aparece alguma qualidade ou alguma situação de que forma alguma estava presente antes, nem poderia derivar de coisa alguma precedente. É justamente no ato de transcendência que se realiza a entrada em existência de alguma coisa qualitativamente “outra”, alguma coisa que não pode ser relacionada, no mesmo plano, com a natureza da “pré-coisa”, os das “pré-coisas” que foram transcendidas.... O conceito de transcender não é comum a nenhuma ciência chamada positiva. No entanto, este fato misteriosos que é a “criação” de alguma coisa de novo quando se instaura uma situação cibernética, parece Ter sido sempre percebido de alguma maneira pelos cibernéticos. “Se vários elementos são estruturados entre si segundo relações unificadas por um determinado significado, esses elementos dão origem a um sistema que não constitui a sua soma, mas é alguma coisa de novo e diferente, ou seja, em cibernética, o conjunto não é a soma das partes”. (Pasolini)

TUDO É COMO DEVE SER


Tudo é como deve ser. Se há terrorismo - camuflado ou explícito – ele tem causas e estas residem no espírito do próprio homem. Cada homem, individualmente, cada sujeito contém dentro de si esse universo bipolar de ódio e de violência que se equilibra com amor e paz. Esses demônios e anjos que habitam o universo interior manifestam-se na personalidade acompanhando a evolução da vida. Isto é, fazem parte da evolução da vida, o amor e o ódio, a guerra e a paz. É na superação de dificuldades – e a dificuldade maior está numa guerra total - que acontece a evolução. Os maiores avanços, as maiores descobertas científicas e tecnológicos acontecem quando o homem, individualmente, o seu grupo, a nação e o país entram nesse processo de vida ou morte em que domina o instinto e não a razão. O instinto identifica-se com a força cósmica da evolução. No ser humano, Eros (sexo, vida) e Tanatos (guerra, morte). Se Eros é reprimido aumenta a força de Tanatos e vice-versa. Teoricamente, uma civilização que não reprimisse o sexo não faria guerra porque se a energia vital fosse canalizada para o sexo, não sobraria força para os conflitos. Mas não podemos esquecer uma outra persona: o Ego. Alguns advogam sublimar a energia sexual. Mas neste processo são criados objetivos e metas ideais que fortificam o Ego. O Ego é o dono da verdade e de direitos e são estes os fatores principais na promoção da guerra. A guerra e a paz fazem parte da Vida. Todo esse sofrimento vai trazer avanços significativos em todas as áreas, mas a área mais difícil, a que apresenta maiores dificuldades, é a da consciência individual. A guerra interior – entre anjos e demônios, entre Eros e Tanatos – que é projetada no mundo objetivo e material externo tem o objetivo de fazer com que a consciência individual evolua. Que seja lançada luz sobre as trevas da ignorância do sujeito. Comprovado está que não se aprende com a experiência dos outros, é necessário experimentar pessoalmente para que a consciência desperte. É este o drama não da humanidade, mas do ser humano como indivíduo.
Todas as manifestações que compõem a realidade individual, todos os acontecimentos perceptíveis aos nossos sentidos são efeitos de forças inconscientes e/ou desconhecidas que jazem na Alma do Universo.
A guerra e a paz não são efeitos das vontades conscientes. A energia da vontade individual e coletiva, embora possa influenciar na condução dos acontecimentos perceptíveis aos sentidos, tem a sua origem primeira numa ordem que está além da compreensão dos homens.
O caldeirão de energias inconscientes de que é portador cada ser humano é uma força representativa da Lei que move o Cosmo. Os seres vivos são uma parcela deste Universo que está em expansão e em evolução.
Chamamos de Acaso a acontecimentos para os quais não temos explicação, mas que resultam da combinação de uma série de fatores que geram o fato. O intelecto individual saberá relacionar as causas desde as mais absurdas até as mais “coerentes” porque para a sua segurança – do intelecto – ele necessita de certezas, ele precisa identificar as causas que geram os efeitos. Mas esse é apenas o trabalho do intelecto que geralmente está dissociado da Verdade que se esconde sob as aparências.
Uma das leis que move o Cosmo é a lei da evolução. A guerra e a paz estão inseridas nesse movimento. A paz, entretanto, é tão somente o período entre duas guerras - espaço dedicado à preparação de uma nova guerra.
A Dor - não a dor existencial de que nos falam filósofos e poetas –, mas a Dor física e moral individual é causa e efeito do processo da lei da evolução. A guerra é uma catarse. Sangue, dor, perda e morte são necessárias para que o homem aprenda e evolua. Tantas guerras e tantas dores quantas forem precisas para que a consciência do homem desperte.
A vida é uma guerra desde o nascimento até a morte. A lei da evolução não pode ser revogada pelo homem. Por isto, tudo é como deve ser.

ÜBERMENSCH

Friedrich Nietzsche cunhou a palavra übermensch para referir-se ao ser humano superior, evoluído intelectualmente, emocionalmente e espiritualmente, que transcende o bem e o mal.


UNIVERSO

Uni-verso. Mecânica Quântica, Universo ekpirótico, teoria das SuperCordas... Quanto evoluiu a Ciência depois de Newton. Mas estamos condicionados a perceber somente o tempo, o espaço e a causalidade. Repito, estamos condicionados a perceber e a compreender as coisas no tempo e no espaço, regido pela lei de causa e efeito. Estamos condicionados na nossa vida cotidiana a ver o mundo e o Universo regidos por uma única Lei: Causa e Efeito. Para qualquer fenômeno queremos conhecer a causa; para qualquer fato queremos saber o responsável ou o culpado. Isto é de extrema utilidade para a razão, para o intelecto, porque alguém sempre “deve ter” razão. Mas a Mecânica Quântica nos revela que a lei que move o micro é a da incerteza; se no mundo macro tudo parece ser regido pela lei da causalidade, no mundo micro reina o Acaso. Parece, então, que Einstein equivocou-se ao afirmar que “Deus não joga dados”. O mundo macro e micro não estão dissociados, eles formam o uni-verso, um Todo desconhecido do qual fazemos parte.

VERDADE

Talvez os homens nasçam com a verdade dentro de si e só não a digam porque não acreditam que ela seja a verdade (José Saramago);
... da verdade se obtém um conceito novo: de que ela é algo de não codificado nem codificável, mas infinito, para cuja aproximação é imperioso trabalhar e sofrer a cada dia. Concebe-se, desta maneira, a verdade, não mais como um cômodo assento em que nos refestelamos para repousar, como o fizeram os nossos ancestrais, mas como uma íngreme ladeira que importa galgar com a própria vontade.” Pietro Ubaldi
O homem quer respostas racionais para todas as suas interrogações. Mas, racionalmente e pela lógica formal, ele nunca chegará a uma conclusão definitiva sobre coisa alguma. Por isto a demanda da Verdade exige uma passagem para além das fronteiras do pensamento ordenado. Esta passagem, entretanto, não significa fé cega.

A verdade é individual, própria, e, portanto ninguém pode ensiná-la. Ela é uma descoberta pessoal.
A minha verdade é construída desde a concepção quando é formada uma unidade energética, um universo que irá se expandir. As forças iniciais que estruturam a individualidade não são formadas por acaso mas são o efeito das forças vitais que se aglutinaram durante a formação de toda uma linha hereditária. O nascimento e o despertar para este mundo - as condições geográficas, históricas, sociais e econômicas em que cada pessoa está imersa - cria a consciência que resulta das relações dessa unidade energética com o seu meio. O despertar desta consciência inicial está intimamente ligada com a consciência das pessoas que lhe dão as condições necessárias para a sobrevivência: mãe, pai, irmãos, vizinhos. Ela é, de certa forma, uma consciência coletiva pois o significado das sensações que lhe são transmitidas pelos sentidos é ensinado. A sua percepção da realidade é interpretada pelos outros. Ela aprende que a cor do céu é azul e a cor das plantas é verde. Com o crescimento físico e psíquico, e a ampliação do campo de informações, com o uso da inteligência e da razão, a pessoa, aos poucos, começa a ter um ponto de vista seu. Mas este seu ponto de vista está amparado em autoridades. Ela não tem a capacidade de ver o mundo com os seus próprios olhos pois precisa de guias, de pessoas mais sábias, mais experientes, com as quais se identifica. Elege os seus "heróis" e os seus "deuses". Está integrada na sociedade, no rebanho. Uma consciência integrada nos valores do grupo, uma consciência de massa, mais coletiva que individual. A expansão da consciência para além deste nível é uma exceção.
Você pode ler, estudar Platão e convencer-se que o mundo supra-sensível ou inteligível existe de forma anterior e mais efetiva do que o mundo sensível. Você pode acreditar na "verdade" de Platão. Você pode, também, acreditar que a verdade encontra-se na Bíblia ou em outros livros sagrados. A crença é livre. Se a Verdade existe? Sim ela existe. Ela está dentro de você, você está "sentado em cima dela". O difícil é perceber.
Nós procuramos nos esconder para não enfrentar a verdade. A fuga é possível até ficarmos acuados, sem saída. Então, ou enlouquecemos de vez, ou a enfrentamos. Esta luta é promovida por forças inconscientes. Nós não temos o controle sobre elas. ( Não se esqueça que tudo o que escrevo para você também está direcionado para mim, e tudo o que você escreve para mim, também está direcionado a você. Nós nos projetamos no outro. Assim há um processo de ajuda mútua para quem está capacitado a vê-lo.) Nós sempre temos a esperança de que possamos controlá-las através do Ego. Mas isto é impossível: "perca toda esperança".
Quando tomamos consciência do processo e começamos a agir de acordo com as marés e os ventos inconscientes, isto é, deixamos acontecer, volta a alegria de viver. Renascemos, voltamos a ser crianças. "Já não sou eu (ego) que vivo é o espírito (o Cristo) que vive em mim". Se passamos a primeira metade das nossas vidas fortalecendo o Ego, na segunda metade ele precisa ser perdido. Esse segundo período caracteriza-se por períodos em que mergulhamos no mar inconsciente e períodos em que dele saímos e voamos pelo espaço. O sofrimento e a alegria caminham juntos.
Constatamos que a Verdade não pode ser encontrada pelo uso exclusivo da razão e que nenhuma filosofia possui aquela validade universal que faça uniformemente justiça à diversidade dos indivíduos. Nas questões de princípio temos um número indefinidamente grande de enunciados subjetivamente diferentes, cuja validade só pode ser confessada subjetivamente. É necessário abandonar o argumento filosófico e substituí-lo pela experiência. Pela experiência amplia-se a consciência. O mundo interior passa a ser o foco da existência. A valorização da experiência, da subjetividade e do mundo interior parte da constatação de que a criatividade, o pensamento, a beleza, as artes e as ciências são manifestações suas.
É necessário abandonar a idéia de que um ponto de vista para ser válido, precisa colher o maior número possível de aplausos. Verdadeiro e válido não é aquilo que a maioria crê mas aquilo que se experimenta.

VIDA

A Vida, também chamada de espírito, não tem moral - código de normas criado pelo homem para a convivência social. Para o espírito não existe o Bem e Mal, mas sim forças polarizadas. Eros e tanatos são os pólos que, em equilíbrio, mantém um corpo vivo. O homem não tem poderes sobre a Vida nem sobre a morte. Quando as energias que mantém uma estrutura individual entram em colapso, a Vida "chama" a morte. Tudo segue o seu ritmo segundo as leis cósmicas.
"Marginal diz-se de pessoa que vive à margem da sociedade ou da lei como vagabundo, mendigo ou delinqüente; fora-da-lei."(1) É também marginal o assim chamado psicótico e o andarilho. Todos eles, em menor ou maior grau, tem algo em comum: a solidão. Sentem-se impelidos à solidão porque não se adaptam à sociedade, não conseguem conviver com os seus semelhantes. Alguns, inicialmente, desenvolvem um comportamento agressivo para depois afastarem-se do convívio social porque não mais se adaptam às regras que movem o seu grupo.
As "psicoses" são múltiplas e variáveis e com características próprias em cada indivíduo. Alguns vivem no mundo dos homens mas não pertencem a ele. Vivem uma experiência única em outro mundo, o "seu" mundo interior, com leis e valores próprios. Desenvolvem uma sensibilidade e percepções da realidades que fogem ao homem comum. (São movidos por aquelas "forças profundas, naturais e involuntárias que governam a vida" (Nietzsche). Segundo C. G. Jung, há a transferência de conteúdos inconscientes para a consciência). Ele enxerga a realidade sob outros ângulos, com mais profundidade e amplitude. Consegue compreender Nietzsche, Rohden, Rajneesh e outros "loucos" de uma forma própria, peculiar pois se identifica com eles.
Viver à margem da sociedade é desenvolver uma forma de vida sem vínculos, livre e desinteressada. É uma vida que se alterna entre o céu e o inferno. Não é uma escolha consciente. Ela é determinada pela energia da natureza individual. Os médicos dizem que tem "cura". Mas não tem.
(1) Novo Aurélio - Século XXI
Nunca sei porque, e quando penso que sei, descubro que o motivo não era aquele que eu imaginava. Sabe, eu vivo neste mundo, mas não sou deste mundo. Antes eu via a vida com começo, meio e fim. Mas a sensação, a percepção que tenho da vida não é mais de uma seqüência de momentos interligados, uma seqüência de imagens de um filme em que há passado, presente e futuro. A minha vida é feita de momentos, de "curtas metragens", de "músicas" que tem duração determinada. Identifiquei as minhas unidades de tempo em que se completa a onda desse bioritmo: aproximadamente uma hora e meia. Se motivado, tudo o que faço, faco-o bem feito, nesse período de tempo: recreação, trabalho, computador, sexo, etc. etc. Esgotada essa unidade de tempo, perco a motivação para aquilo e necessito mudar de atividade. Descobri depois que esse é o ritmo dos nossos sonhos: o sonho RAM dura aproximadamente uma hora e meia. Esta é mais uma forma de poder explicar que o ego não determina as ações da minha vida.

VONTADE

Ato de vontade é, em princípio, voluntário, isto é, aquele em que o indivíduo tem consciência dos meios e das finalidades de sua conduta; o indivíduo procura atingir um objetivo por ele mesmo proposto, tendo consciência dessa tentativa.
O indivíduo é um ser ativo cujo comportamento manifesto expressa diretamente a sua vontade. A Vontade é irracional em sua manifestação, embora possamos lapidá-la pela educação.
A força da Vontade geralmente está sob o domínio do superego. Com o despertar da Consciência, que passa a dominar a Vontade, começamos a ter a percepção da diferença entre a vontade egoísta e a instintiva. O desejo a que se referem os budistas parece-me ser o desejo egoísta que geralmente traz o sofrimento porque a sua característica é o apego. Se não existir apego a nossa alegria e prazer não estará na dependência de bens materiais. Seremos felizes com o que temos, seja um fusca ou uma mercedes, ou nenhum dos dois. Parece-me então que não é o desejo que traz sofrimento mas o valor que o indivíduo dá ao objeto dos seus desejos.
Eu não escolhi ser o que sou, embora tenha aprendido ainda no ventre materno que querer é poder. Esse "querer é poder" está impresso profundamente na minha alma, mas a vida ensinou-me o contrário. Quase tudo - ou seria tudo? - o que eu aprendi na vida contraria o "querer é poder". Desde criança os meus mestres me ensinaram - e os meus pais também - que nós temos o livre arbítrio: somos nós que decidimos o que fazer das nossas vidas. Mas aprendi pela experiência que, se somos nós que escolhemos, essa escolha não é consciente. Essa escolha é inconsciente... Somos "levados" a fazer isto ou aquilo. Nós não escolhemos conscientemente. É a nossa natureza que dita os caminhos da vida que iremos seguir. A minha vida desviou-se totalmente do ideal que construí seguindo a tradição, a cultura e os valores da minha gente. Não sou uma pessoa "normal" de acordo com o senso comum. O fato de ser "anormal" me causa profundo sofrimento moral. Gostaria de ter continuado uma pessoa que não tem consciência do seu mundo e do universo que a rodeia. As pessoas ignorantes (no sentido de desconhecimento) são mais felizes. Elas têm fé. E a fé é o melhor remédio contra todas as dificuldades da vida. Fé é um sentimento tão forte que aqueles que o tem não conseguem imaginar alguém sem fé. E quem não tem, não consegue imaginar que uma pessoa em bom juízo possa acreditar em Deus e Diabo, e céu e inferno após a morte. Vejam que todos os programas de auto ajuda, grupos de alcoólicos anônimos, neuróticos anônimos, etc., incentivam a fé num Deus, na forma que cada indivíduo o imagina. Mas eu já fui uma pessoa de muita fé. Fé cega, fé profunda.Católico praticante. Não foi nenhum guru, nenhum acontecimento catastrófico que me fez perder a fé. A perda da fé cega foi provocada pela ampliação da minha consciência. Foi um amadurecimento. Esta percepção mais ampla e profunda da realidade levou-me a uma fé consciente. Digo que despertei. Na minha fé consciente não há espaço para as crenças e doutrinas que fundamentam as religiões e seitas organizadas. A minha fé consciente também não tem relação com o materialismo ou com o ateísmo na forma em que são colocados na nossa cultura: eu não sou crente, nem descrente. Eu observo.


YANG-YING

Yang - Ying, é o símbolo chinês da distribuição dual das forças universais, compreendendo o princípio ativo ou masculino (yang) e o feminino ou passivo (ying). Este símbolo tem a forma de um círculo dividido por uma linha sigmóide, e as duas partes assim formadas possuem, quando observadas, uma tendência dinâmica, o que não seria possível se o círculo fosse dividido por uma linha reta (diâmetro). Na representação gráfica desse símbolo, a metade clara representa o yang, e a escura, o ying. Contudo a primeira apresenta em seu interior um ponto negro, e a segunda um ponto branco, significando que ambas possuem em si mesmas, o germe do princípio contrário. Em conjunto, harmonizados, se neutralizam, constituindo a unidade ou Tao.



POEMAS

Quantos "eu te amo" deixei de dizer porque não seria compreendido;
quantos "je t'aime" eu não falei porque seria tido como um insulto;
quantos "Ich liebe Dich" deixei de dizer porque não me deram acesso;
quantos abraços deixei de dar porque as pessoas se afastaram,
quantos beijos ficaram na intenção porque seria chamado de louco.

Viver só é posivel em grupos onde,
Amar tem o mesmo significado para todos.
Meu amor não tem apego. Eu sou diferente.
Eles não me compreendem, e por isto, não me amam.

Amo a igual. Qual é o problema? “Você não sabe lidar com a diferença!!!” diz o “especialista”. Mas vejam Pessoa: “quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo”. Amor é sentimento. O sentimento provoca atração ou rejeição, ele é instintivo. Não me atrai, não gosto do diferente. Devo mudar a minha natureza? Isto é crime? Isto é ser preconceituoso? Amo as pessoas desapegadas. Não amo pessoas possessivas, autoritárias, donas da verdade. Amo as pessoas que tem sensibilidade. Amo o belo, a arte que é harmonia. Amo porque sinto atração e não porque é politicamente correto. Há algo de errado comigo?


AGUARDO VOCÊ!


Campos, rios, florestas;
Lagoa, praia, mar;
Amplitude, distância, paisagem, natureza.
Espaços amplos dominados pelo silêncio.
Aqui estou em casa, aqui eu sou eu.

Retire as suas máscaras,
Abandone os pré-conceitos,
Desfaça-se das suas verdades,
Abdique das suas certezas,
Achegue e sente-se.

Vamos trocar energias,
Palavras, idéias,
Mas, principalmente,
Sentimentos.

Afastemos a idéia de tempo,
Demos espaço para o amor,
Para a sensibilidade,
Para o ser.

Se ao Ego a tarefa parece impossível, esqueça.
Continue vagando pelo seu mundo.
Mas quando a Dor passar pelo seu caminho,
Você se lembrará de mim.

Aguardo você!

TEMPOS AQUELES


Tempos aqueles em que a vida repousava alegre e tranqüila na ampla e cômoda cama das certezas. Conduzida pela lei de causa e efeito ela era lógica e racional: Deus não jogava dados. Tempos aqueles em que a verdade e a fé andavam de mãos dadas.

O tempo passa e o mundo certo e determinado entra em decadência. Novas forças ascendem e, perdidos nas suas certezas, os homens, movidos pela saudade da casa do Pai, se reorientam na busca daquele que tudo provê.

A TOTALIDADE


O in-divíduo,
O homem integral,
A totalidade.
Compor o masculino com o feminino,
A razão com o sentimento,
O positivo com o negativo,
É a crucificação:
Faça-se a tua vontade e não a minha”.
Destino reservado a semideuses,
Mas, humano, demasiado humano.



Amo a igual. Qual é o problema? “Você não sabe lidar com a diferença!!!” diz o “especialista” (psicólogo, psiquiatra, filósofo clínico, terapeuta). Mas vejam Pessoa: “quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo”. Amor é sentimento. O sentimento provoca atração ou rejeição, ele é instintivo. Não me atrai, não gosto do diferente. Devo mudar a minha natureza? Isto é crime? Amo o homem masculino e a mulher feminina. Não amo o homem feminino e a mulher masculina. Isto é ser preconceituoso? Amo as pessoas desapegadas. Não amo pessoas possessivas, autoritárias, donas da verdade. Amo as pessoas que tem sensibilidade. Amo o belo, a arte que é harmonia. Amo porque sinto atração e não porque é politicamente correto. Há algo de errado comigo?

Se você aqui estivesse...

Se você aqui estivesse...

Talvez a dor se escondesse,
Se você aqui ficasse.

Este vento norte
Lembrando morte...
Talvez ele cessasse,
Quando você chegasse.

Se eu o abraçasse,
Talvez a dor se fosse.

Se você aqui estivesse...



A magia do momento

Estavas absorto,
Concentrado em ti mesmo,
Embora o teu olhar se espalhasse
Pela praia, pelas pedras e pelo mar.

Teu corpo nu e másculo,
Irradiava beleza e graça:
O belo que fascina e arrebata.

O encantamento...
A pura beleza de um estranho,
Tornou mágico aquele momento.


São muitas as dores

Tantas quantos os seres humanos,

Entre tantas singularidades
A dor é a verdadeira expressão singular.

Não comente a dor do outro
Porque você a compara com a sua dor
Mas ela é outra dor, a dor dele.

Conversando com Deus

Deus precisa conversar. Largaste-me no mundo e pronto? Certamente não pensas em mim, só pensas em Ti próprio, nessa Tua eterna autocontemplação. Sabemos que não amas o mundo, é o mundo que Te ama e quer assemelhar-se a Ti, repetir a Tua eterna perfeição. Ah, Deus meu! Só tu és o eterno repouso, e nós o eterno retorno! Estou cansado! Eu sei que não irás resolver os meus problemas, que são só meus, mas de certa forma - desculpa-me - eu não pedi para nascer! Eu sei, eu sei, eu sou somente uma manifestação do teu programa... Mas - perdoa-me novamente - parece que esse programa tem bugs e há interferência de hackers (demônios?). Repito, a minha existência foi um erro.
Sabe, Deus - eu sei, eu sei, não és Pai - mas preciso falar. Como seria bom ter um pai, alguém para segurar a mão, alguém para abraçar, alguém para conversar, alguém para dar segurança, um pai amigo. Este teu programa deveria prever, obrigatoriamente, um pai amigo para cada ser humano. Enquanto estás em êxtase na Tua eterna autocontemplação, pouco Te lixando para com o que está acontecendo por aqui, confiando no Teu programa, a Dor é muito forte.

Tchau, eu só precisava conversar. Mas o monólogo foi suficiente.


TAGEBUCH

PASSIO ANIMI (PAIXÃO DA ALMA)

INTRODUÇÃO

Nem todos vivenciam de maneira consciente as mudanças psíquicas que ocorrem após a meia idade, ou mais especificamente, no período de vida que se inicia entre os 35 e os 40 anos.
Alguns, gradativamente, se adaptam a uma outra perspectiva de vida e, dificilmente, se dão conta das mudanças internas, e vivenciam este período sem maiores dificuldades. Outros, passam por uma crise existencial, com questionamentos sobre o significado da vida e o propósito de suas atividades.
Há duas situações extremas neste processo, embora a maioria das pessoas se situe numa posição intermediária. É verdade também, que cada um vivencia de maneira particular e única, cada uma das etapas da evolução. Num dos extremos, estão aqueles que tem certeza de que se conduzem corretamente através da vida, e que tem ideais e princípios corretos. Estão certos de que estas convicções pessoais devem ter aplicação geral. A rigidez de idéias com referência a si mesmos e aos outros, e a tendência a encará-las como incontestáveis, apesar de todo o processo evolutivo do universo, podem levar a um padrão quase inflexível de pensamento e comportamento. Estas pessoas até toleram outras opiniões, mas consideram-se os senhores da verdade.
No outro extremo estão os que entram num período conturbado de sentimentos e ansiedade indefinidos. Um novo sentimento de tensão relativo a sua própria personalidade dará uma sensação de insatisfação, de vazio e de não-preenchimento. Sofrem terrivelmente sem que saibam porque e entram numa crise existencial, definida por Jung como “paixão da alma”.
É o processo de evolução, para uma consciência mais ampla, que é acelerado, e pode levar a um desequilíbrio psíquico. Ocorre uma desestruturação da personalidade com o questionamento dos valores sociais, morais e religiosos.
Se acontece inconscientemente, projeta-se “em símbolos coletivos, em mitos, religiões, filosofias, através dos quais, aqueles que a eles aderem, recebem uma certa animação. Mas então, o fim da evolução fica tão obscuro quanto seu princípio”.
Quando o processo é consciente, “tantas obscuridades são iluminadas, que de um lado, toda a personalidade fica iluminada e de outro, o consciente ganha, infalivelmente, uma amplitude e profundidade.”



PASSIO ANIMI

Vou relatar uma experiência única chamada por Jung de passio animi (paixão da alma). Rudhear, Rajneesh e Rohden abordam também este aspecto da mudança da personalidade sob um enfoque diferente. Vamos ver também o que diz o médico e o místico sobre neurose. Gostaria de ser um intelectual, alguém que tivesse o dom de desenvolver um raciocínio lógico, claro, objetivo, com um bom vocabulário, usando os termos corretos e mais adequados à situação. Mas com esforço, vou procurar ser o mais correto possível, porque o meu intelecto está subordinado ao sentimento, à emoção e, então vou relatar o meu saber (conceituado mais à frente) sobre os fatos relativos aos últimos acontecimentos da minha vida. O processo de transferência do conteúdo inconsciente para a consciência é a peça chave.
Dou a palavra a Jung: “A natureza determinada e dirigida dos conteúdos da consciência é uma qualidade que pressupõe persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas do processo psíquico. Estas qualidades são absolutamente necessárias para todas as profissões desde as mais qualificadas até mesmo o mais simples trabalhador braçal. ... Esta qualidade é freqüentemente prejudicada nas pessoas neuróticos onde a parede divisória situada entre a consciência e o inconsciente é muito mais permeável. O psicótico, por outro lado, se acha inteiramente sob o influxo direto do inconsciente.”...
O encontro com o inconsciente é determinado pelo destino; o homem natural nem suspeita sua existência até que um dia se vê mergulhado nele. É um processo psíquico por excelência. O objetivo essencial é o desenvolvimento da consciência, isto é, em primeiro lugar a tomada de consciência dos conteúdos até então projetados. Este esforço leva pouco a pouco ao conhecimento do outro, bem como ao conhecimento de si e assim, a distinguir o que a pessoa é na realidade daquilo que nela é projetado ou que ela fantasia a seu respeito. Neste processo estamos tão empenhados em nosso próprio esforço, que mal percebemos a que ponto a natureza nos impele e nos ajuda: em outras palavras, mal percebemos o quanto o instinto está interessado em atingir esse nível superior de consciência.”... Esse impulso em direção a uma consciência superior e mais ampla tem o objetivo de reconstituir o ser humano na sua totalidade, unificando o masculino e o feminino, o eu consciente e o inconsciente, “ou seja, compor aquele homem primordial, bissexuado, que se basta a si mesmo.” É dentro de si mesmo que ele vai buscar compor e encontrar a sua totalidade.
A união do consciente ou da personalidade do eu (masculino ou feminino) com o inconsciente personificado pela anima (feminino ou masculino) gera uma nova personalidade que compreende esses dois componentes; a nova personalidade não é, de forma alguma, um terceiro termo entre o consciente e o inconsciente, ela é os dois. Ela transcende a consciência e por esta razão já não deve ser definida como eu, mas sim como si-mesmo.”
A integração do si-mesmo é, no fundo, um problema da segunda metade da vida e acontece quando o inconsciente invade a consciência, inundando-a com os seus arquétipos.”( Obs. Este processo não é comum a todos).
De que maneira podemos confrontar-nos com o inconsciente? Esta é a questão fundamental, na prática, de todas as religiões e de todas as filosofias.
O inconsciente, com efeito, não é isto ou aquilo, mas o desconhecimento do que nos afeta imediatamente. ... o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação ao inconsciente. A razão desta relação é que:
  1. os conteúdos do inconsciente possuem um valor liminar, de sorte que todos os elementos por demais débeis permanecem no inconsciente;
  1. a consciência, devido a suas funções dirigidas, exerce uma inibição (que Freud chama de censura) sobre todo o material incompatível, em conseqüência do que, este material incompatível mergulha no inconsciente;
  2. a consciência é um processo momentâneo de adaptação, ao passo que o inconsciente contém não só todo o material esquecido do passado individual, mas todos os traços funcionais herdados que constituem a estrutura do espírito humano e
4) o inconsciente contém todas as combinações da fantasia que ainda não ultrapassaram a intensidade liminar e, com o correr do tempo e em circunstâncias favoráveis, entrarão no campo luminoso da consciência.
A reunião destes fatos facilmente explica a atitude complementar do inconsciente em relação à consciência.”
Já Rudhyar aborda um outro aspecto: “No homem comum o comportamento, sentimentos e pensamentos são, em grande parte, controlados por impulsos inconscientes dos instintos genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa. A personalidade do homem comum se desenvolve ao longo de diretrizes estabelecidas pelas imagens, ídolos e atitudes coletivas de sua sociedade. No homem comum a personalidade é um fator coletivo; a tribo como um todo, e não algum ser humano individual dentro dela, tem personalidade própria. A tribo é a unidade da consciência e da atividade humana: ela constitui um motor complexo cujo propósito (instintivo e compulsório) é a perpetuação e a expansão de um dado grupo humano num ambiente específico. A vida é a modelagem interior das vidas coletivas de todos os membros da tribo, que os energiza pelo poder de profundas e inconscientes raízes biopsíquicas.
Uma religião e um certo tipo de organização social constituem a base dupla sobre a qual se desenvolve uma cultura. Ambas representam a resposta coletiva de um grupo de homens aos desafios básicos de seu ambiente terrestre.”...
A personalidade do homem que libertou sua consciência dos modelos e impulsos coletivos é basicamente diversa da do homem ordinário.
Aquele que segue a estrada do autoconhecimento experimenta uma cisão quase completa de sua personalidade nitidamente diferenciada de todas as raízes raciais e culturais.
A obra ou função da nova personalidade é a de lançar as bases de uma nova sociedade e cultura que aparecerá no devido tempo. A velha personalidade teve por fim promover a exploração das energias da terra e os valores materiais e da cultura. O propósito da nova personalidade é o de liberar o poder transformador do espírito”.
A palavra com Rajneesh: “De acordo com Nietzsche a energia que move a vida é a energia da vontade, a vontade do poder. A vontade do poder atrai naturalmente o ego. A luta é basicamente o caminho da vontade. Levar a vontade a uma perfeição total será a libertação. Quanto mais você puder se controlar, quanto mais puder controlar os seus instintos, quanto mais puder controlar o seu corpo e seu intelecto, mais poderoso se sentirá. Você se torna um mestre interiormente. Mas isto se dá através de conflitos, através de luta e violência. Quanto mais inatingível o fim, maior perfeição do ego existirá - um ego puro, perfeito, absoluto. Conseguir a perfeição do ego é tornar-se o centro de todo o universo. Intelectualmente é concebível, é existencialmente impossível.
O Tantra só pode atrair em um nível muito profundo - àqueles que já se analisaram, que realmente lutaram através da vontade do poder por muitas vidas. Então o Tantra os atrai porque podem compreendê-lo.
O Tantra não o seduzirá no início, porque pede uma entrega, não uma luta. Pede que você flutue, que não nade. Pede que você se mova com a corrente, não contra ela. Fala sobre a bondade da natureza. Confie na natureza; não lute contra ela. Até mesmo sexo é bom. Confie nele, siga-o, flua para ele; não lute contra ele. Não-luta é o ensinamento central do Tantra. Deixe-se fluir, entregue-se.
Não há satisfação do seu ego através dele. Como primeiro passo, pede para o seu ego ser dissolvido. Isto, antes de qualquer coisa.”

NEUROSE
O médico:
Transtorno psíquico que não se faz acompanhar de grave desintegração da personalidade. Refere-se ao tipo da adaptação que uma pessoa realiza a certas situações, às quais inconscientemente atribui a capacidade de gerar inquietação e ansiedade. O tipo de adaptação constitui a natureza da neurose. A causa é de ordinário a existência, dentro da pessoa, de um conflito emocional, desejos contraditórios, em geral de natureza muito complexa.
As emoções são impulsos para o agir, planos instantâneos para lidar com a vida. Os estados emocionais que tipificam a nossa vida emocional decorrem da loteria genética, vão da ousadia à timidez. Pessoas de temperamento agressivo presumem a ameaça e partem para a ação. Desafiam as regras, tornam-se rejeitados pelos colegas, podem chegar em casos extremos às drogas e à delinqüência. Os deprimidos apresentam dificuldades no relacionamento e para reagir às derrotas da vida. A emoção abafada resulta em embotamento, distância. A emoção extremada reverte-se em depressão, ansiedade.
A angústia é, de fato, o fenômeno básico da neurose. A angústia ou ansiedade é a tensa, desagradável e absorvente expectativa fisiopsíquica de um perigo iminente, cuja fonte é imaginária, desconhecida ou exageradamente avaliada. É o medo vago, sem causa, indefinível, que parece vir "de dentro da alma". Há gradações, da simples intranquilidade até a angústia terrível e catastrófica. Os sintomas específicos (angústia, fobias, obsessões, conversões e certas inibições - a impotência sexual, p. ex.). e os acessórios (depressão, hipocondria, irritabilidade, insônia, dores de cabeça, vertigens, taquicardia ou prisão de ventre, dores e espasmos em qualquer parte do corpo, tremores, paralisias, cegueira, convulsões, etc.) se mesclam, em cada caso, sob proporções variáveis, bastante individualizadas. A neurastenia se caracteriza, entre outras manifestações, por dor de cabeça, tonteiras, insônia, irritabilidade, hipocondria, astenia ou cansaço fácil, intolerância aos ruídos, impotência.
É um ciclo vicioso que passa as dificuldades de geração em geração, mesmo que elas mudem de forma.
O místico:
O sentir é emoção. O mal-estar psicológico é a doença da emoção. O sofrimento é resultante da escolha. A escolha é a satisfação de um desejo, de uma vontade, é produto da mente e não do sentir. A mente deve agir em consonância com o sentir. Somos infelizes por termos permitido que a mente separe os nossos objetivos do nosso fim último. Deste modo, somos arrastados para bem longe pela ação dos meios. A morte autêntica acontece quando cessam todas as nossas ilusões, quando deixamos de viver num mundo de expectativas, emoções, idéias, hábitos, passado e futuro. Então, encontramos a paz. São inúteis as idéias e intenções de transformar, pois só geram sofrimento. Ao libertarmo-nos da longa fixação dos nossos hábitos não seguimos nem obedecemos a nenhum destino fixo; passamos a aceitar plenamente tudo o que as nossas vidas nos trouxerem como frutos da verdadeira liberdade. Toda a infelicidade, todo o sofrimento e todas as poluições provêm da nossa mente.




A PERSONALIDADE

O “EU” natural (físico e mental) é o ser resultante da complexa engenharia da herança genética, moldado pela experiência de vida e pelos valores morais da família e do grupo social. O meu mundo, meu universo está dentro de mim, na minha mente. Eu sou meus pensamentos, minhas emoções, minha memória. Sinto e vejo o mundo através do “EU” usando os sentidos, as emoções, a mente e o saber. O saber (sapere, saborear, sentir a qualidade, o sabor, experimentar) inclui a intuição, o conhecimento intelectual e a experiência de vida.
A personalidade do “EU” é constituída por três sistemas de motivação e ação que se opõem habitualmente no conflito.
O eu instintivo (id) representa o conjunto de impulsos inatos (sexuais e agressivos) e de desejos recalcados que são energias que se acumulam e precisam de satisfação.
O eu moral-religioso, a consciência moral (superego), define as ações como certo e errado (culpado). A ação por ele qualificada traz imediatamente a resposta: bem estar ou mal estar. Esta sensação de prazer ou dor reflete marcas inconscientes provocadas por ações ou omissões que originaram ameaça, ou representaram, um prêmio ou castigo, durante a infância e a adolescência. Aqui está introjetada a culpa em que nos sentimos absolutamente condenados a sofrer com requintes de crueldade que só a imaginação culposa é capaz, por crimes que não cometemos, mas que é como se os tivéssemos cometido.
O eu central (ego - “centro do meu campo de consciência”), especula, indaga, questiona e pesquisa; é conhecimento e memória (a experiência de vida); moldado pelas exigências do superego é responsável pelo ajustamento do indivíduo. (Ele se manifesta através da vontade. A direção da vontade é determinada pelo equilíbrio dos desejos, em geral conflitantes, que se originam do id e do superego). Cabe ao ego manter o equilíbrio de poder.
No homem, os instintos não estão em harmonia uns com os outros: exercem violenta pressão uns sobre os outros e tentam eliminar-se reciprocamente. No entanto, segundo a ótica otimista dos antigos, esta luta não tem caráter caótico, mas busca uma ordem superior.”(Jung).


QUEM SOU EU
Cada um, cada ser humano, tem uma herança própria, específica, e, tal qual uma semente, lançada em solo fértil germina, desenvolve-se , cresce e produz os seus frutos. Os frutos representam o seu trabalho no desenvolvimento da técnica e da arte, as relações com o mundo e com o seu semelhantes.



O SEXO E A EVOLUÇÃO


MUDANÇA DE VALORES MORAIS E DA CIVILIZAÇÃO



Características do homem comum:
- A natureza determinada e dirigida dos conteúdos da consciência.
- O comportamento, sentimentos e pensamentos do homem comum são, em grande parte, controlados por impulsos inconscientes e pelas tradições coletivas.
- a vida é movida pela energia da vontade, a vontade do poder. O caminho da vontade se dá através de conflitos, através de luta e violência.
- vivem no mundo dual, fragmentado: certo e errado, bom e mau, belo e feio, Deus e o Diabo. A vida é baseada em escolhas. A mente absolve ou condena, justifica e compara.
- têm muitas certezas e poucas dúvidas, baseadas no conhecimento intelectual, no raciocínio e na lógica que são muito desenvolvidos.
- em geral têm uma profunda aversão em conhecer alguma coisa a mais sobre si mesmos.
- vivem num mundo de expectativas, emoções, idéias, hábitos, passado e futuro.
De alguma forma, não se sabe como, o “eu” em dado momento, volta-se para o seu interior, na busca de si mesmo. Esta mudança implica em conhecer a outra face da mesma moeda ( o “eu”), o seu lado escuro, desconhecido, e, quase sempre, pouco evoluído. Não é um ato de vontade, nós pela primeira vez, desde que temos vida consciente, sentimos que não escolhemos. Da mesma forma que existe uma pulsão para a experiência sexual, há uma pulsão para o desenvolvimento de níveis de consciência, ou seja há a evolução.
E, de repente, sem avisos, vai chegando o sofrimento. Indefinido e forte. Stress?, depressão?, ansiedade?, alguns o chamam de “crise existencial”. Por que? é a ameaça de morte dos antigos valores e o medo do novo, do desconhecido. Não queremos abandonar as nossas idéias, os nossos ideais pelos quais lutamos e sofremos e somos capazes de matar ou morrer. São valores genéticos, fazem parte da nossa essência, da nossa natureza .
Crises após crises, ele começa a encontrar a paz através da entrega, da não-luta. Deixa-se mover de acordo com o fluxo, flutua na corrente da vida, não luta contra ela, move-se com a corrente. Não luta contra a natureza, mas abandona-se, entrega-se, confia nela. Entrega-se à corrente do sentimento e do amor.
A entrega permite-lhe aos poucos tornar-se íntegro e uno. Afinal o sentimento une, sintetiza, unifica. A entrega vai romper os condicionamentos psicológicos e permitir a reconstrução do ser na sua totalidade, unificando o masculino e o feminino, o eu consciente e o inconsciente e compor aquele ser primordial, bissexuado, que se basta a si mesmo.
O sexo participa desta etapa da evolução. Esta tremenda energia que é o sexo somente vai ser entendida com a evolução consciente. O sexo é a energia à qual temos que nos entregar totalmente, conscientemente, sem resistências e então, se transformará num ato de amor.
A nova personalidade que está nascendo é formada pelo consciente (personalidade do eu - masc. ou fem.) e o inconsciente (personificado pela “anima”- masc. ou fem.), uma bipolaridade que se mantém no todo. É a integração do si mesmo. Este é o mundo do SER.
Características;
- a vida é movida pela sabedoria, amor, harmonia, liberdade, cooperação, respeito mútuo e amizade. O saber (sapere, saborear, sentir a qualidade, o sabor, experimentar) inclui a intuição, o conhecimento intelectual e a experiência de vida consciente.
- O sentir muda a forma de relacionamento da pessoa com o Universo. Afinal o sentimento une, sintetiza, unifica e liberta o ser dos condicionamentos psicológicos do mundo dual.
- a pessoa passa a ter a percepção, a compreensão do todo, do conjunto. Consegue superar a visão dual, fragmentada, do certo e errado, bom e mau.
- vivem segundo o princípio de que “cada pessoa tem a sua hora e cada coisa o seu tempo.”
- o autoconhecimento é uma necessidade básica. Há um mergulho no mundo interior, na busca da verdade, do fim último da existência.
- nas relações pessoais, procuram a comunicação de alma para alma. A comunicação, sem a interferência do superego, sintonizada na freqüência do amor.
- são tolerantes, não julgam e não têm pre-conceitos.
- vivem o aqui-agora e a não-escolha; têm muitas dúvidas e poucas certezas. Estão abertos ao novo e sabem que as certezas de hoje podem estar superadas amanhã e que cada pessoa tem uma compreensão própria da realidade.
- não são movidos pela fé como a entende a pessoa comum, mas “sabem” que Deus é a Realidade Una e Única, o Todo, o Absoluto.


MUDANÇAS

Na época da mudança o meu caminho é o caminho do cristo. “Pai afasta de mim este cálice” é o meu pedido desesperado. Eu estou só. Não há ninguém que possa ajudar-me, médicos, padres, pastores, gurus, pais-de-santo, esotéricos, ninguém, nem o Pai. A paixão e a morte é uma experiência pessoal, ninguém pode fazê-lo por mim. Este cálice amargo, terei que bebê-lo integralmente, gota a gota. Terei que carregar a minha cruz porque esta é a passagem para a ressurreição de uma nova vida. Eu tenho que expiar os meus e os pecados dos meus antepassados que recebi pela herança genética. Eu não tenho escolha. Passaram-se os tempos da escolha, do mundo dual. Depois de mergulhar no inconsciente, “a descida aos infernos” sou levado, tragado, sugado para este túnel de fogo onde vou entrar inteiro, queimar inteiro, pois este é o verdadeiro batismo para a nova vida. “Pai afasta de mim este cálice! Tenho que ser crucificado





Caminhávamos, com os pés descalços, numa madrugada fria de lua cheia. A luz da lua, uma mescla de dourado e prata, iluminava as montanhas, os vales, a estrada de terra, sinuosa, acompanhando o riacho. As cercas de arame farpado, as árvores junto à estrada e as sombras formadas pela lua são diferentes, misteriosas.
Cada noite é uma morte e cada amanhecer é um novo nascimento. A ausência, como diz Saramago, é igual à morte com uma única e essencial diferença, a esperança.
As flores ou espinhos que piso são o caminho da vida.

"Lei da Unidade de Todas as Coisas"
Por intermédio deste princípio que é holístico e ético, que regula o comportamento de nós humanos, ampliaremos o dito cristão de "amarás ao outro como a ti mesmo" pela consígnia holística amarás ao outro que é você mesmo. Existe uma unidade que transcende o singular e nos coloca numa situação da qual somos constituídos e constituintes. Como falei anteriormente, este paradigma passará a formar parte de uma nova ética que deixa para trás a noção de pecado e de um regulador e administrador moral divino e/ou pessoal, dissociado dos acontecimentos cotidianos dos seres humanos. Portanto, o tema não é a aceitação de um mandato de não gerar ato cruel consigo mesmo ou com os outros (moral repressiva) e sim desenvolver as capacidades de preservação que o feminino divino tem nos seres humanos. Isto no sentido ecológico geográfico natural como também príncipio ético para com a economia, a tecnologia, a sexualidade, enfim no que está presente na vida dos seres humanos.

Desisti da minha velha mania de querer converter alguém... Converter por que e para que? Se, no fim, todo homem tem de seguir o caminho que segue?
Desisti, também, de querer aliviar os sofrimentos dos sofredores. Aliviar por que e para que? se cada devedor tem de saldar o débito do seu karma? Que insensatez seria se eu impedisse o devedor de solver o seu débito! Não será melhor que cada um pague, de vez, à eterna Justiça, o que deve? Que fique quite com a Constituição Cósmica, do que protelar essa quitação para tempos vindouros?
Não desisti, entretanto, de enriquecer a minha vida, diariamente, através do diálogo com as pessoas, com a natureza e com o mundo. Conseguiremos desenvolver a plena consciência se não restringirmos o fluxo aberto do coração.


Esta é a corrente do autoconhecimento, da reconversão para o amor. Faça o número de cópias que julgar conveniente e mande para os seus amigos e conhecidos. Vamos dar as mãos e formar a corrente do amor!

VAMOS DAR AS MÃOS!
Por que não desenvolver e ampliar a consciência, para perceber e compreender a vida que me cerca, abrir o coração, SENTIR que eu estou interligado com a natureza, com o sol, com a minha galáxia, com o todo o universo? Eu sou uma onda, um pulso energético que percorre o universo e hoje estou aqui, no meio desta incrível beleza que é o planeta Terra. Vamos dar as mãos! Vamo-nos unir e eliminar as diferenças. Elas são criadas pela nossa mente, elas são uma ilusão. O preto e o branco, o belo e o feio, o bom e o mau, deus e o diabo são uma coisa só. Despertemos! O amor unifica, a mente divide. A ignorância é a fonte do nosso sofrimento. A vida é felicidade, o céu, se soubermos vivê-la com amor. A infelicidade, o inferno, é produto da nossa mente, das nossas escolhas, das nossas divisões, do nosso egoísmo. Vamos dar as mãos, formemos a corrente do amor, da compreensão, da camaradagem, da cooperação, da amizade, da harmonia e seremos felizes. Teremos, então, a verdadeira LIBERDADE que é a de sermos nós mesmos.


O espírito e o instinto são autônomos, cada um segundo a sua natureza, e os dois limitam em igual medida o campo de aplicação da vontade”, afirma Jung.
"Nós devemos aceitar como um axioma incontestável que em todas as operações da natureza e da arte nada é criado; uma quantidade igual de matéria existe antes e depois do experimento". A lei de conservação da massa é generalizada para a lei de conservação de energia e de movimento, ou quantidade de movimento. São leis naturais e a sua propriedade mais importante é sua universalidade. (Marcelo Gleiser).

Tempo e espaço são modos ou atributos de percepção sensitiva e concepção intelectual. Se o homem não percebesse os fenômenos materiais pelos sentidos, nem concebesse as leis da energia pelo intelecto, nada saberia ele de tempo e espaço, nem de causalidade. Se fôssemos capazes de conhecer algo independentemente de tempo, espaço e causalidade, estaríamos fora do mundo dos fenômenos e suas leis; estaríamos no mundo do eterno, do infinito, do absoluto. (Rohden).

Tem sido chamada de centelha divina ou mônada, mas talvez seja mais sábio concebê-la como uma semente de Deus, da qual pode se desenvolver uma planta de substância e poder espirituais se for plantada em solo fértil, na estação oportuna e sob condições climáticas adequadas. O solo fértil é a hereditariedade e o ambiente da pessoa real. A estação e o clima oportunos referem-se às condições sociais e cósmicas sob as quais o ser real vive nesta Terra. Mas, como nos ensina Jesus na parábola evangélica, muitas sementes não chegam a alcançar o estágio de plantas plenamente amadurecidas. ( Tríptico Astrológico – Dane Rudhyar – Ed. Pensamento – São Paulo, 1995).

As sementes do karma passado não podem germinar se forem queimadas no fogo divino da sabedoria” (Paramahansa Yogananda).

natureza do ser humano produto do extenso conflito entre a proibição e o instinto neurótico de quebrar a própria regra. O desejo de violá-lo persiste inconsciente tanto quanto sua proibição.”

A linguagem existe para esconder o pensamento?”
Imanência da linguagem no pensamento?

O racionalismo puro é estéril, o irracionalismo simples é regressivo. O pensamento surge no “entre”.(Peter Sloterdijk.)
As guerras nascem nos espíritos dos homens, e é nos espíritos dos homens que devem ser erguidas as defesas da paz”. Introdução à Constituição da UNESCO, Londres, novembro de 1945.

Ditado Árabe: Se Alá predestinou alguém a morrer num determinado lugar, suscitará nele o desejo de viajar até lá.

Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento." (Prov. Chinês)
Para que os ramos de uma árvore cheguem ao céu, as suas raízes devem chegar ao inferno. (Máxima alquímica Medieval).

Das profundezas do nada é que acontece tudo. Por isso mesmo é que a vida parece às vezes chegar a momentos absolutamente insofismáveis, nos quais andar para frente é perigoso, mas ficar quieto também é perigoso. Aceite os riscos. (Oscar Quiroga.)

O único progresso verdadeiro é o progresso moral; o resto é, simplesmente, ter mais ou menos bens. (José Saramago.)

Os homens se enganam quando acreditam que são livres; e o motivo desta opinião é que têm consciência de suas ações, porém ignoram as causas que as determinam; por conseguinte o que constitui a própria idéia de liberdade é o fato de desconhecerem a causa de suas ações - Espinosa

Ao libertarmo-nos da longa fixação dos nossos hábitos não seguimos nem obedecemos a nenhum destino fixo; passamos a aceitar plenamente tudo o que as nossas vidas nos trouxerem como frutos da verdadeira liberdade (Hôgen Daidô)

Vida e morte (matar e gerar vida) não é um ato (capacidade) individual, mas a natureza inerente ao próprio cosmos (vida original). Das trevas da nossa ignorância provém o medo que sentimos pela nossa morte e pela dos outros. E o apego à vida e à morte causa o medo da morte que nos impede de viver a vida da verdadeira morte.

Noite passada fiz outra vez a promessa: jurei por tua vida jamais desviar os olhos de tua face. Se golpeares com a espada, não me esquivarei. Não buscarei cura em mais ninguém, pois a causa de minha dor é ver-me longe de ti. Joga-me ao fogo; se deixar escapar um único suspiro não serei homem de verdade. Surgi do teu caminho como pó. Retorno agora ao pó do teu caminho.”- Rumi

O homem massificado não tem valor; é uma simples partícula que perdeu a sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade”(C. G. Jung.).
Quem faz depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não se prende a outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau êxito de sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é sábio, na verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante".(Platão).

O ETERNO RETORNO

Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez -, um grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a partir das quais vieste a ser, se reunam outra vez no curso circular do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas. Esse anel, em que és um grão, resplandece sempre outra vez. E em cada anel da existência humana em geral há sempre uma hora, em que primeiro para um, depois para muitos, emerge o mais poderoso dos pensamentos, o pensamento do eterno retorno de todas as coisas: - é cada vez, para a humanidade, a hora do meio-dia. ... O mundo subsiste; não é nada que vem a ser, nada que perece. Ou antes: vem a ser, perece, mas nunca começou a vir a ser e nunca cessou de perecer -, conserva-se em ambos... Vive de si próprio: seus excrementos são seu alimento.”( Nietzsche, Friedrich. O Eterno Retorno, textos de 1881; A Vontade de Potência, textos de 1884-1888).
A ESSÊNCIA DAS COISAS

A essência de tudo na terra, visível e invisível é espiritual.
Ao penetrar na cidade do invisível, meu corpo está envolto por meu espírito. Assim quem desligar o corpo do espírito ou o espírito do corpo está desviando seu coração da verdade.
A flor e sua fragrância são uma coisa só; cegos são os que negam a cor e a imagem da flor, dizendo que ela é apenas perfume pairando no ar. Êles se portam como aqueles deficientes de olfato, para quem as flores são apenas forma e colorido, sem perfume.
Tudo o que existe na natureza existe em ti, e tudo o que tens em ti existe na natureza.
Estás além do alcance das coisas mais próximas e, mais ainda, a distância não te separa das coisas que estão longe de ti.
Todas as coisas, das mais baixas às mais sublimes, das menores às maiores, existem dentro de ti como coisas iguais.
Num átomo, são encontrados todos os elementos da terra. Uma gota d’água contém todos os segredos dos oceanos.
Num momento da mente são encontrados todos os movimentos de todas as leis existentes. (Gibran K. Gibran.)

O AMOR


"Quando o amor vos chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos; E quando ele vos falar, acreditai nele, embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devassa o jardim. Pois da mesma forma por que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma por que ele contribui para vosso crescimento, ele trabalha para vossa poda. E da mesma forma por que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol, assim ele também desce até vossas raízes e as sacode no seu apego à terra. Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor a vossa nudez.
Ele vos peneira para libertai-vos da palha.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no Pão Místico do Banquete Divino..."(Gibran K. Gibran).

O POETA

"Neste mundo, sou um forasteiro, um estranho...
Sou um desconhecido dos meus parentes e amigos; quando com um deles me encontro, por acaso pergunto a mim mesmo: "Quem será esse? Onde e como o conheci? Qual o determinismo estranho que nos aproxima e nos faz falar?"
Sou estranho à minha própria alma: por isso, quando a minha língua fala, não sei se ouço a minha própria voz.
Sou estranho ao meu corpo. Quando diante do espelho, observo em mim como que expressões que não correspondem ao meu íntimo sentir, e vejo, no fundo das minhas pupilas, imagens que não traduzem, de modo algum, o que está na minha alma.
Neste mundo, eu sou um forasteiro. Não existe quem compreenda uma palavra, ao menos, da linguagem da minha alma.
Eu sou um estrangeiro neste mundo. Sou o poeta que, de passagem pela vida, canta em seus versos o que ela possui de mais profundo, harmonioso e belo.
eu sou um estrangeiro, e sempre serei um estrangeiro para mim, até que a morte me leve e me faça voltar à minha verdadeira pátria." (Gibran Kahlil Gibran).
C. G. Jung

O encontro com o inconsciente é determinado pelo destino; o homem natural nem suspeita sua existência até que um dia se vê mergulhado nele. É um processo psíquico por excelência. O objetivo essencial é o desenvolvimento da consciência, isto é, em primeiro lugar a tomada de consciência dos conteúdos até então projetados. Este esforço leva pouco a pouco ao conhecimento do outro, bem como ao conhecimento de si e assim, a distinguir o que a pessoa é na realidade daquilo que nela é projetado ou que ela fantasia a seu respeito. Neste processo estamos tão empenhados em nosso próprio esforço, que mal percebemos a que ponto a natureza nos impele e nos ajuda: em outras palavras, mal percebemos o quanto o instinto está interessado em atingir esse nível superior de consciência. Esse impulso em direção a uma consciência superior e mais ampla tem o objetivo de reconstituir o ser humano na sua totalidade, unificando o masculino e o feminino, o eu consciente e o inconsciente, “ou seja, compor aquele homem primordial, bissexuado, que se basta a si mesmo. É dentro de si mesmo que ele vai buscar compor e encontrar a sua totalidade.
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O autoconhecimento é um processo que leva a compor com o outro, a sombra em nós. A sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu. A sombra é detectável em figuras do mesmo sexo que o sujeito, e que são os principais atores de seus sonhos e fantasias. Estes personagens tem traços de caráter e maneiras de agir que são a contrapartida da personalidade consciente. Quanto mais unilateral é o consciente, mais acentuados são esses personagens.
Ao analisá-los descobre-se que encarnam pulsões reprimidas, e também valores rejeitados pelo consciente. Ela permanece, entretanto, como o eterno antagonista, pois nasce, sob outras formas, do próprio desenvolvimento do sujeito. É sempre o conjunto do que o sujeito não reconhece e que o persegue incansavelmente.
Em geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de apoio e mergulhe na obscuridade.
O despertar da consciência deixa cair o manto das convenções e evolui para um confronto direto com a realidade, sem os véus da mentira, nem enfeites de qualquer espécie. O homem mostra-se, portanto, como ele é, e revela o que antes estava oculto sob a máscara da adaptação convencional, isto é, a sombra. Acontece também a sombra derrubar a ordem estabelecida e tomar o consciente de maneira temporária ou durável. Assistimos, então, seja a comportamentos contraditórios, seja a um verdadeiro transtorno da personalidade. Ao tornar-se consciente, a sombra é integrada ao eu, o que faz com que se opere uma aproximação à totalidade. A totalidade não é a perfeição, mas sim o ser completo. Pela assimilação da sombra, o homem como que assume o seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões. E é justamente isso que faz do homem o problema difícil que ele é.
(JUNG, Carl Gustav - OBRAS COMPLETAS DE C. G. JUNG - Volume XVI/2 Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferência - pág. 106, Ed. Vozes, 1987. A Natureza da Psique - Volume VIII/2, pág. 145.- Ed. Vozes, 1986).

Astrologia

Escorpião

Símbolo da morte como momento de crise necessária à transformação. Representa a perda, pelo homem, de seu estado de inocência e pureza, devido à paixão pelos prazeres sensuais. Ao mesmo tempo como símbolo de transformação, Escorpião simboliza a vitória final do ser espiritual sobre o reino da matéria. Caráter enérgico e prático, tenaz e ativo, prudente e calculador, predispõe, também, a capacidades psíquicas. Negativamente origina excesso de sensualidade, caráter vingativo e invejoso, irritabilidade e vaidade.

Plutão

Na área espiritual Plutão representa a vontade criadora, a vivificação, a transformação. Na área material, a decomposição, a violência e a morte. No sentido geral, Plutão simboliza as mutações profundas tanto na natureza como no homem.

Número 8

O 8 é o símbolo do Logos ou poder criativo universal tem como melhor representação gráfica de seus atributos a figura do caduceu, cetro do Deus Mercúrio. Vara entrelaçada com duas serpentes, que na parte superior tem duas pequenas asas ou um elmo alado. Esotericamente, o caduceu simboliza o caminho da iniciação. A vara do caduceu corresponde à coluna vertebral e as duas serpentes representam a ascensão das duas modalidades da energia Kundalini (energia vital latente) que se concentra no chacra localizado na base da espinha dorsal. As serpentes entrelaçadas do caduceu formam um 8, simbolizando o equilíbrio dinâmico entre as duas forças opostas (masculina e feminina). Devido a sua forma, o oito representa também o eterno movimento em espiral dos céus. Trata-se de um símbolo muito antigo encontrado na Suméria e na Índia, gravado em pedra. Na Grécia foi utilizado como atributo do deus Mercúrio. O caduceu é considerado também emblema do equilíbrio moral e da boa conduta: nesse caso, o bastão expressa o poder; as serpentes, a sabedoria; as asas a diligência; e o elmos pensamentos elevados.

Tantra



Quem segue a via tântrica não procura desapegar-se do mundo fenomenal apoiando-se nas forças do intelecto. Ele visa transmutar toda a natureza, a partir de sua forma mais grosseira, a manifestação corporal. Para executar esta obra gigantesca ele recorre à Energia Fundamental agora sonolenta e inerte sob a aparência da matéria. Kundalini-Yoga, ou Tantra-Yoga.

Libertar a energia adormecida no corpo é a função do Kundalini-Yoga, ou Tantra-Yoga.
O corpo é percorrido por uma infinidade de canais (nadi) que veiculam os alentos vitais (prana), isto é, a energia do corpo sutil que vivifica o corpo grosseiro. Esses nadis são inumeráveis mas dentre esses, três têm importância capital: Ida, Pingala e Sushumna. Sushumna, a nadi suprema, é o canal central, que corre no interior do eixo cerebrospinal. De um lado e de outro dela, estão: à esquerda Ida, a nadi lunar, simbolizada pelo branco-pálido, e Pingala, a nadi solar – à direita -, simbolizada pelo vermelho-sangue. Essas duas nadis que representam os dois pólos opostos da manifestação, estão ativas no homem comum, ao passo que Sushumna, a via mediana que tem a natureza do fogo, está inativa e nela o prana não circula.
Todas as nadis têm a origem no chacra mais baixo, já visto, que é o muladhara ( o suporte da base), de onde se elevam, ramificando-se por todo o corpo. Porém, Sushumna sobe direto até o topo da cabeça e desemboca no lotus coronal ( de mil pétalas) enquanto Ida e Pingala, uma partindo do testículo direito e a outra do testículo esquerdo, vão dar respectivamente na narina esquerda e na narina direita. No entanto, essas duas nadis não seguem um caminho paralelo a Sushumna, mas se entrecruzam, como as serpentes do caduceu de Mercúrio.
Quem segue a via tântrica não procura desapegar-se do mundo fenomenal apoiando-se nas forças do intelecto. Ele visa transmutar toda a natureza, a partir de sua forma mais grosseira, a manifestação corporal. Para executar esta obra gigantesca ele recorre à Energia Fundamental agora sonolenta e inerte sob a aparência da matéria.
Kundalini está adormecida, obstruindo com sua cabeça a entrada de Sushumna, conhecida como “o caminho pelo qual se vai ao céu de Brahman”, fechando a via de retorno. Todas as técnicas têm por objetivo despertar esse Poder enrolado. O objetivo é despertar Kundalini para fazê-lo percorrer novamente, em sentido inverso, as etapas do movimento criador, num movimento de retorno à Fonte, onde finalmente a Energia é reintegrada na Consciência Suprema.

TAO


Um dos conceitos mais antigos e mais centrais da Filosofia chinesa é TAO, que os Jesuítas traduziram por Deus, mas não é. Tao é o Nada, Puro Nada, em oposição ao mundo da realidade. Nada porque em si ele não aparece no mundo dos sentidos, mas é apenas o seu organizador. Tao veste e alimenta todas as coisas, mas não impera sobre elas. Escreve Lao-Tse em Tao Te King:

Tao é a fonte do profundo silêncio,
Que o uso jamais desgasta.
É como uma vacuidade,
Origem de todas as plenitudes do mundo.
Desafia as inteligências aguçadas.
Desfaz as coisas emaranhadas,
Funde em uma só todas as cores,
Unifica todas as diversidades:
Tao é a fonte do profundo silêncio.
Atua pelo não agir.
Ninguém lhe conhece a origem,
Mas é o gerador de todos os deuses.

Trata-se, portanto, de uma concepção que se situa na fronteira do mundo das aparências. Nele os opostos se dissolvem na indeterminação, embora ainda existam potencialmente. Estes germes, porém, indicam algo que corresponde, em primeiro lugar, ao visível, isto é, a alguma coisa que tem a natureza de uma imagem; em segundo lugar, corresponde ao audível, isto é, a algo que tem a natureza de palavra; e em terceiro lugar, à extensão no espaço, isto é, a alguma coisa dotada de forma. Mas estas três coisas não são claramente distintas nem objetivas; constituem uma unidade não-espacial (sem um em cima e um em baixo) e atemporal (sem um antes ou um depois). Jung, Carl Gustav - "A Dinâmica do Inconsciente", págs. 494 e sgts. - Obras completas de C. G. Jung - Vol. VIII - Ed. Vozes - 1984).

Prossegue Lao-Tse:

Nas profundezas do insondável,
Jaz o Ser.
Antes que céu e terra existissem,
Já era o Ser,
Imóvel, sem forma,
O Vácuo, O Nada, berço de todos os Possíveis.
Para além de palavra e pensamento
Está Tao, origem sem nome nem forma,
A Grandeza, a Fonte eternamente borbulhante,
O ciclo do Ser e do Existir.

Tao é insondável,
É invisível, apesar do seu Poder.
O mundo não o conhece.
Se reis e príncipes tivessem consciência de Tao,
Todas as creaturas lhe prestariam
Espontânea homenagem.
O céu e a terra se uniriam em júbilo,
Para fazer descer suave orvalho,
E os homens viveriam em paz,
Mesmo sem governo algum.
Quando Tao assume forma,
Pode ser conhecido mentalmente,
Mas todos os conceitos
São apenas indícios
Que apontam para o Inconcebível.
Não se esqueça o homem da sua limitação.
Quando consciente da sua limitação,
Não há perigo.
Neste caso a relação
Entre o concebível e o Inconcebível
É como entre regatos e lagos
E as grandes correntes que demandam os mares.
Eternos são o céu e a terra,
Porque não são auto-existentes,

Porque radicam em algo

Além deles mesmos.
Esta é a razão da sua eternidade.
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Em todo homem pulsa o movimento que procede do Tao e tende a levá-lo de volta a ele. Mas o homem se deixa cegar pelos sentidos e pelos desejos. É ele próprio que busca a volúpia, a alegria, o ódio, a fama e as riquezas. Seus movimentos buscam a violência e desencadeiam tempestades, seu ritmo é uma ascensão impetuosa seguida de uma queda brusca e vertical. Desesperado ele se apega a tudo o que é irreal. A natureza de seus desejos o conduz à multiplicidade, de tal modo que ele não consegue mais sequer conceber o Único. E quando deseja a sabedoria e a bondade, é uma catástrofe ainda pior. Não resta senão um remédio: voltar à Origem, ao Repouso, ao Tao.
O Tao está em nós, mas só podemos alcançá-lo quando deixamos de querer, ainda que seja a bondade, ou a sabedoria. Que lástima, esses desejos desenfreados de conhecer o Tao! Esse triste esforço de buscar palavras para designá-lo, para invocá-lo! O verdadeiro sábio contempla a inefável Doutrina, que restará para sempre inexprimível. Quem seria capaz de expressar o Tao? Aquele que sabe não fala; aquele que fita não sabe.
Tampouco eu te direi o que é o Tao. Cabe a ti mesmo descobrir. Livrando-te do desejo e da emoção, vivendo sem esforço, sem o que chamas de ação, libertando-te de tudo que se opõe à Natureza. Com um movimento tão calmo e constante quanto o do oceano à nossa frente, deixa-te levar em direção ao Tao. O mar não se move por ser esse seu desejo, nem por saber que é bom ou sábio assim fazê-lo. Ele se move porque assim deve ser, sem que precise saber disso. Assim também te deixarás levar em direção ao Tao, e quando lá chegares, nada saberás de tudo isso, pois então serás o próprio Tao. (Autor desconhecido.)

Chama-se eixo do Tao o estado em que não há oposição entre o eu e o não-eu. O Sentido (Tao) se obscurece quando fixamos o olhar apenas em pequenos segmentos da existência.

YANG-YING

Yang - Ying, é o símbolo chinês da distribuição dual das forças universais, compreendendo o princípio ativo ou masculino (yang) e o feminino ou passivo (ying). Este símbolo tem a forma de um círculo dividido por uma linha sigmóide, e as duas partes assim formadas possuem, quando observadas, uma tendência dinâmica, o que não seria possível se o círculo fosse dividido por uma linha reta (diâmetro). Na representação gráfica desse símbolo, a metade clara representa o yang, e a escura, o ying. Contudo a primeira apresenta em seu interior um ponto negro, e a segunda um ponto branco, significando que ambas possuem em si mesmas, o germe do princípio contrário. Em conjunto, harmonizados, se neutralizam, constituindo a unidade ou Tao.
O conceito esotérico de polaridade representa um dos princípios fundamentais do hermetismo: tudo é dual; tudo tem dois pólos; tudo tem seu par de opostos; os antagônicos e os semelhantes são a mesma coisa; os opostos são idênticos em sua natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são semiverdades; todos os paradoxos podem reconciliar-se.


O Eterno Criativo atua através do sexo e, em variáveis graus, através de qualquer relacionamento polarizado, porque a união polar abre a porta para a nova variação – para o mistério. Deus é consubstanciado na renovação, não na mesmice: na aventura, não em atos conservadores. Não há divindade, não há gênio humano, não há verdadeira grandeza em parte alguma, salvo através daquilo que libera o novo, o ainda-por-vir, o ainda-por-conhecer. (Rudhyar)


O karma é criado não tanto por aquilo que se faz, mas pelo que se deixa de fazer no momento certo. O karma é causado por uma negação – consciente ou inconsciente – do potencial criativo do momento, por quantos vivam esse momento.
Como a psique e a matéria estão encerradas em um só e mesmo mundo, e, além disso, se acham permanentemente em contato entre si, e em última análise, se assentam em fatores transcendentes e irrepresentáveis, há, não só a possibilidade, mas até mesmo uma certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos diferentes de uma só e mesma coisa”(Jung).


O UNIVERSO

Antes de Darwin, era amplamente aceita a idéia de que havia uma evolução no reino humano, uma evolução da consciência humana. No século XVIII, os filósofos progressistas ficaram obcecados com a idéia de progresso humano: da barbárie à civilização, e daí à ciência. Mas não achavam que a evolução ocorria no reino biológico. Darwin mostrou que se podia ter uma teoria científica da evolução biológica, e então a evolução humana estava encaixada numa estória evolutiva bem maior, a evolução da vida. Mas os físicos resistiram à idéia de que a física ou a química evoluíssem, estavam trancados numa visão do universo como eterno, como uma grande máquina que funcionasse para sempre mas que estivessem gradualmente perdendo força, termodinamicamente apagando-se.... Hoje temos uma cosmologia radicalmente evolutiva, mas ainda existe uma relíquia do pensamento antigo, na medida em que a maioria das pessoas acredita que o universo é regido por leis eternas da natureza. O que sugiro é que as assim chamadas leis da natureza não são fixas. Se vivemos num cosmos radicalmente evolutivo, então porque as leis da natureza não deveriam evoluir também? E a minha idéia é de que elas são mais como hábitos; que o que acontece na natureza depende do que aconteceu antes. Existe uma espécie e memória na natureza, e, não, leis matemáticas eternas.
Eu diria que o universo não é uma máquina, é mais como um organismo, e a teoria do Big Bang é como os mitos tradicionais da ruptura do ovo cósmico. Ela nos diz que o universo começou pequeno e que tem crescido desde aquele começo e que, à medida que cresceu, novas estruturas e padrões se desenvolveram dentro dele. É como um embrião. Nenhuma máquina começa pequena e cresce e forma novas estruturas, mas a árvore o faz ao crescer de uma semente; e um embrião o faz ao crescer de um óvulo fertilizado. Efetivamente nossa cosmologia moderna nos deu uma visão de todo o universo como um organismo em desenvolvimento. ... Quando pergunto às pessoas a que se resume o dawinismo, respondem que é sobrevivência do mais apto, donde os seres humanos são a espécie mais bem adaptada e têm todo o direito de estar no topo da escada. Quão profundamente enraigado é esse mito, essa camisa-de-força, do progresso linear?”... Eu diria que a visão tradicional é que a consciência humana é um aspecto inferior de alguma forma superior de consciência, que o próprio cosmos é atravessado por uma espécie de mente ou consciência. A Terra certamente tem uma. Em última instância há a consciência ou a mente de Deus”.(Rupert Sheldrake).

AMOR ROMÂNTICO
Na imaginação popular ocidental a palavra amor acabou por evocar quase que exclusivamente o amor romântico. Emoção pura, paixão, amor à primeira vista – para nós o amor romântico é algo tão certo que para alguns pode ser surpresa o fato de que o conceito de amor, como emoção altamente valorizada e não como paixão clandestina, seja algo relativamente novo na história da humanidade.
O amor romântico não é um tipo de amor que desafie tanto as convenções – pois, de todas as formas de amor é a mais convencional – quanto o amor que nasceu com aparente espontaneidade: indesejado sem acatar sugestões e ordens dos outros, em estado bruto e sem premeditação, do fundo do coração, não cerebral e não genital.
O amor romântico sempre está em oposição aos padrões de comportamento tribais, culturais e formais: casamentos arranjados, em que as noivas e seus dotes são propriedades a serem entregues ao noivo e à sua família ou em que títulos de nobreza se combinam em acordos de conveniência, nada têm a ver com os sentimentos dos indivíduos envolvidos. ...
No mundo antigo, o amor romântico era praticamente desconhecido e raramente celebrado. A palavra amor não existia. O sentimento de amor romântico, como o conhecemos, era o amor homoerótico que homens gregos mais velhos dedicavam a jovens efebos. O amor conjugal, que certamente existia, não foi muito celebrado, pelo menos na literatura da época que sobreviveu até nossos tempos. A longa metáfora sobre a república, ou o estado de perfeito equilíbrio, escrita por Platão, discute o casamento basicamente como conjunção carnal. No entanto, o simpósio do mesmo Platão celebra o amor homoerótico nos mais declarados termos românticos.
Paixão sem controle – E isso é bem diferente da atração erótica extraconjugal heterossexual, que resulta em devastação e morte violenta. Em “Hipólito” de Eurípedes, a jovem rainha Fedra apaixona-se pelo filho ilegítimo de seu marido, que a rejeita e a leva ao suicídio. Fedra não é romântica, mas a vítima de uma paixão incontrolável e indesejada imposta a ela por Afrodite. Tal desejo sexual beira à maldição.
Enquanto para as mentes clássicas a intervenção de eros nas relações humanas é sinal de caos e desgraça, para a sensibilidade moderna com inclinação romântica eros é o motor da história da vida, uma fonte aparentemente inesgotável de fantasias de desejo – principalmente heterossexuais. ...
Por volta dos séculos 14 e 15, pelos menos nas sociedades aristocráticas européias, eros tinha se transformado numa arte, digna de toda a atenção do cortesão. O ideal desses romances é uma refinada gentillesse, não uma sexualidade crua. O amor de um cortesão por uma dama, geralmente a mulher de um outro homem, tem sido interpretado como a secularização do culto medieval à Virgem Maria, uma feminização da patriarcal Igreja Católica. Essas histórias são invariavelmente contadas a partir da ótica masculina: a dama é quase uma santa de uma beleza sobrenatural ou, em desenvolvimentos posteriores, a dama é cruel e até diabólica a paixão do cortesão transforma-se em castigo.
Nos séculos seguintes, o amor romântico triunfaria como uma espécie de mística pessoal e particular associado a um alto valor cultural. ...
O amor romântico, a mais precária e tênue das emoções, certamente sobreviverá ao milênio que assistiu a seu nascimento e o fará enquanto houver uma civilização razoavelmente afluente, pois o segredo do amor é econômico: é um luxo que apenas uns poucos podem ter, assim como o gosto refinado à mesa é conseqüência da fartura de comida. O amor romântico é uma ilusão? Loucura? Sonho ideal? Assim como a maior parte da espécie humana vai continuar a acreditar em deuses de várias denominações, embora nenhum deus tenha sido visto, homens e mulheres continuarão a ouvir o canto de sereia do amor romântico e viverão em função de sua busca. Os biólogos podem continuar a descrever os rituais de corte dos mamíferos, acasalamento, associação, fidelidade ( nos caos em que há fidelidade de fato), mas, mesmo sabendo muito bem que a canção nos diz que “apaixonar-se pelo amor é apaixonar-se pelo faz-de-conta”, sendo humanos somos a espécie que precisa ouvir mentiras da forma mais delicada possível.” (Joyce Carol Oates, escritora – The New York Times Magazine, tradução de Ruth Helena Bellinghini. Jornal O Estado de São Paulo, Caderno2/Cultura. D5, Domingo 18 de julho de 1999.)

NIETZSCHE ERA UM POETA

Nietzsche não é um autor difícil. É o estilista mais latino e mais claro da língua alemã. A sua prosa é a do grande poeta que era. Exprime com igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães, a claridade irônica dos latinos, o grande “pathos” da Bíblia; a sua língua soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos, como as canções, ébrias de luz, dos provençais, e, às vezes como versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente. Mas é sempre clara, bastante clara para esconder sob a virtuosidade dos meios estilísticos as contradições internas. Nietzsche é o último filho da “velha Alemanha ” humanista, filho espiritual de Goethe e Hölderlin, e, ao mesmo tempo, profere fanfarronadas de uma ébria vontade de dominação, que se perderam no reino sóbrio de Bismark, e só mais tarde tiveram eco. Nietzsche é um inimigo mortal dos alemães – a expressão “bom europeu” é dele – e, ao mesmo tempo, proclama o individualismo germânico, o amoralismo bárbaro dos gigantes da Edda. Nietzsche foi o inimigo mais furioso que o cristianismo jamais teve. E todavia esse filho de gerações de pastores luteranos sofre intimamente de conflitos religiosos e é, afinal, um cristão pascaliano. Karl Jaspers chama à obra de Nietzsche “um campo de ruínas, coberto de destroços contraditórios”. O único laço que lhes dá coerência é a paixão intelectual de Nietzsche, que lembra as personagens de Dostoiésvski; é a sua personalidade, agitada nas profundezas da existência humana, o lanço apaixonado de toda a sua personalidade, o que faz da sua loucura a sua obra máxima. Lembra a verdade dos antigos – que os poetas são uns delirantes. Friedrich Nietzsche era um poeta. (Otto Maria Carpeaux.)

QUEM SABE NÃO PERDOA

O homem aproximou-se do cardo.
Ergueu a mão para tocá-lo. Um ai! de dor brotou dos seus lábios, um rubi de sangue no seu dedo brilhou.
Tocou no espinho e foi ferido. O homem limpou o sangue, e disse, fitando o cardo:
  • Eu te perdôo.
Admirei e louvei em mim aquele homem que possuía o doce dom de perdoar.
E aconteceu que veio outro homem. Parou junto ao cardo. Ergueu a mão para tocá-lo, e o espinho o picou.
Mas o homem limpou em silêncio a ferida. Contemplou com amor o espinho. E não disse:
  • Eu te perdôo.
Tive então este pensamento.
  • O primeiro homem era um santo. Sabia perdoar. Este outro não sabe.
Mas o meu Senhor, interrompendo a minha cisma, disse:
  • Quem não sabe és tu.
  • Como, Senhor? Então aquele homem ...?
  • Sim, é um santo, porque perdoou quando foi preciso!
  • E o segundo?
  • É mais santo ainda, porque não tem necessidade de perdoar.
E como eu ficasse perplexo, com o olhar perdido na incompreensão, na dúvida, o
Senhor me disse:
  • O espinho fere, porque é espinho. Ainda que ele quisesse jamais poderia
perfumar. O primeiro homem sentiu a dor da picada. E como não sabia nada, atribuiu culpa ao cardo. Mas, como era limpo de coração, perdoou. O outro sentiu a mesma dor. Mas, como sabia que todo espinho fere, pois que o espinho é assim, não se sentiu ofendido. E como nada tinha a perdoar, não perdoou.

Desde então sofro menos quando os cardos me ferem. Dói-me a ferida. Mas minha
alma sabe que não há ofensa. E como não há ofensa, não há perdão. É assim que do meu peito brota um piedoso amor pelo espinho, que não chegou a ser flor.
Meu sofrimento se transforma em ternura.
Porque já aprendi a não perdoar.
Santiago Arguello

Não te amo, como se fosses rosas de sal, topázio
ou flecha cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.
Ta amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira
senão assim deste modo em que não sou nem és,
tão perto que sua mão sobre meu peito é minha,
tão perto que se fecha teus olhos com meu sonho.”

No homem comum, que só superficial e hesitantemente é um “indivíduo”, e cujo comportamento, sentimentos e pensamentos são, em grande parte, controlados pelas compulsões inconscientes dos instintos genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa, a personalidade é um produto final. Ela representa o florescimento de uma sociedade e de uma cultura, de uma certa ancestralidade e de um ambiente específico; e como tal ele depende, para sua energia e mais ainda para seus motivos e metas, de fatores fundamentais dentro da vida da coletividade humana da qual constitui uma expressão diferenciada. A personalidade do homem que é parte integrante de sua sociedade e de seu grupo cultural ou de classe, e que se sente – consciente ou inconscientemente – enraizado em sua coletividade, é fundamentalmente semelhante à obra de arte de um gênio criador; e o criador, no caso, é a coletividade.
É certo que dentro desse homem e no cerne de sua personalidade brilha a luz da Estrela que constitui sua identidade espiritual; mas seu fator espiritual é muito mais latente que efetivo. O ego do homem – seu muito acalentado ego que representa apenas uma individualidade e uma carcaça temporária – não é essa Estrela. Ele é uma estrutura opaca, que em geral projeta uma sombra pesada. Praticamente, em todos os casos, ele se deteriorará após a morte, e via de regra, se torna tristemente empedrado antes mesmo de morrer. Quando muito, o ego de uma pessoa é como o centro de uma bela e fragrante flor da personalidade; e todas as flores são a expressão direta das raízes da planta.
Aquele que palmilha a Estrada Iluminada deve, a princípio, experimentar uma cisão quase completa de sua personalidade nitidamente diferenciada de todas as raízes raciais e culturais. Isto não significará, em última análise, real isolamento em relação à humanidade, pois o indivíduo iluminado pela Estrela, que vive na Terra, sempre participa profundamente das lutas de sua sociedade; mas essa participação difere, quanto à natureza, polarização e energia impulsionadora, daquela do homem cuja personalidade se desenvolve ao longo de diretrizes estabelecidas pelas imagens, ídolos e atitudes coletivas de sua sociedade. O direito e o poder de participar da obra da civilização como pessoa ( ou “personagem”) ativado pelo espírito e iluminada pela Estrela só os adquire o homem que libertou sua consciência dos modelos e impulsos coletivos, e que, desse modo, se tornou, ao menos por algum tempo, um indivíduo “isolado”. Reorientação, repolarização, reavaliação implicam esse estágio de “isolamento”; mas o isolamento não significa, para nós os modernos, sair a meditar, à maneira iogue, embrenhando-se numa floresta e “longe de tudo”. Refere-se a uma mudança de consciência, que pode ocorrer bem no meio de uma grande multidão – conquanto o isolamento pode tornar o processo, durante certo tempo, muito mais fácil.
Quando pelo menos a tentativa desse processo é completada, a personalidade do homem que sofreu a metamorfose é basicamente diversa da do homem ordinário. É mais “semente” do que “flor”. A semente ainda é um produto final da planta, contanto que se desenvolva nela, e o indivíduo ativado pelo espírito e iluminado pela Estrela é ainda parte de sua sociedade, desde que viva nela; no entanto, toda a polarização da semente está voltada para o futuro. À medida que cresce dentro da flor, ela leva não só essa flor como toda planta efêmera a morrer. Analogamente, o aparecimento de certo tipo de indivíduos, altamente individualizados e iluminados pelo espírito numa sociedade, revela o fato de que essa sociedade alcançou seu ápice como organismo cultural de origem terrestre.
A nova personalidade emergente da crise da metamorfose já não é, principalmente, nem exclusivamente, energizada pelas energias genéricas inerentes à raça humana ou pela sustentação cultural que todo indivíduo normal tem em sua tradição e comunidade. Ela é energizada pelo oceano universal do espírito, pela inter-relação entre Sol e Estrela. A obra ou função da nova personalidade não é a de perpetuar ou provocar o florescimento da sociedade e da cultura que condicionou o desenvolvimento da velha personalidade; mas, isto sim, lançar as bases de uma nova sociedade e cultura que aparecerá no devido tempo. A velha personalidade – nascida de “Adão”, segundo o simbolismo bíblico – teve por fim promover a exploração das energias da Terra e os valores do cultivo e da cultura. O propósito da nova personalidade, nascida através de “Cristo”, é o de liberar o poder transformador e criativo do espírito; liberá-lo como um motor libera poder. Nessas condições, enquanto a velha personalidade pode ser comparada a uma expressão de arte e cultura (como usualmente se compreendem esses termos), a nova personalidade deve ser considerada um motor.

No homem comum a personalidade é um fator coletivo; a tribo como um todo, e não algum ser humano individual dentro dela, tem personalidade própria. A tribo é a unidade da consciência e da atividade humana: ela constitui um motor complexo cujo propósito (instintivo e compulsório) é a perpetuação e a expansão de um dado grupo humano num ambiente específico. A vida é a modelagem interior das vidas coletivas de todos os membros da tribo, que os energiza pelo poder de profundas e inconscientes raízes biopsíquicas.
Uma religião e um certo tipo de organização social constituem a base dupla sobre a qual se desenvolve uma cultura. Ambas representam a resposta coletiva de um grupo de homens aos desafios básicos de seu ambiente terrestre.
A personalidade do homem que libertou sua consciência dos modelos e impulsos coletivos é basicamente diversa da do homem ordinário.
Aquele que segue a estrada do autoconhecimento experimenta uma cisão quase completa de sua personalidade nitidamente diferenciada de todas as raízes raciais e culturais.
A obra ou função da nova personalidade é a de lançar as bases de uma nova sociedade e cultura que aparecerá no devido tempo. A velha personalidade teve por fim promover a exploração das energias da terra e os valores materiais e da cultura. O propósito da nova personalidade é o de liberar o poder transformador do espírito”.
(Rudhyar, Dane - Tríptico Astrológico - Ed. Pensamento - São Paulo, 1987, págs. 208 e sgts.).
CONSCIÊNCIA UNILATERAL

Carl Gustav Jung em A Natureza da Psique, afirma que a natureza determinada e dirigida dos conteúdos da consciência é uma qualidade que só foi adquirida relativamente tarde na história da humanidade e falta, amplamente, entre os primitivos de nossos dias. Também esta qualidade é freqüentemente prejudicada nos pacientes neuróticos que se distinguem dos indivíduos normais pelo fato de que o limiar da consciência é mais facilmente deslocável, ou, em outros termos: a parede divisória situada entre a consciência e o inconsciente é muito mais permeável. O psicótico, por outro lado, se acha inteiramente sob o influxo direto do inconsciente.
A natureza determinada e dirigida (racional, lógica, objetiva) da consciência é uma aquisição extremamente importante porque se por um lado custou à humanidade os mais pesados sacrifícios, por outro prestou o mais alto serviço. Sem ela a Ciência, a técnica e a civilização seriam simplesmente impossíveis, porque todas elas pressupõem persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas do processo psíquico. Estas qualidades são absolutamente necessárias para todas as competências, desde o funcionário mais altamente colocado, até o médico, o engenheiro e mesmo o simples “bóia-fria”.
A ausência de valor social cresce, em geral, à medida que estas qualidades são anuladas pelo inconsciente, mas há também exceções, como por exemplo, as pessoas dotadas de qualidades criativas. A vantagem de que tais pessoas gozam consiste precisamente na permeabilidade do muro divisório entre a consciência e o inconsciente. Mas para aquelas organizações sociais que exigem justamente regularidade e fidedignidade, estas pessoas excepcionais, quase sempre, pouco valor representam.
Por isso não é apenas compreensível, mas até mesmo necessário, em cada indivíduo, que este processo seja tão estável e definido quanto possível, pois as exigências da vida o exigem. Mas estas qualidades trazem consigo também uma grande desvantagem: o fato de serem dirigidas para um fim encerra a inibição e/ou o bloqueio de todos os elementos psíquicos que parecem ser, ou realmente são incompatíveis com ele (instintivos, subjetivos, intuitivos), ou são capazes de mudar a direção preestabelecida e, assim, conduzir o processo a um fim não desejado. Mas como se conhece que o material psíquico paralelo é incompatível? Conhecemo-lo por um ato de julgamento que determina a direção do caminho escolhido e desejado. Este julgamento é parcial e preconcebido, porque escolhe uma possibilidade particular, à custa de todas as outras. O julgamento se baseia, por sua vez, na experiência, isto é, naquilo que já é conhecido. Via de regra, ele nunca se baseia no que é novo, no que é ainda desconhecido e no que, sob certas circunstâncias, poderia enriquecer consideravelmente o processo dirigido. É evidente que não pode se basear, pela simples razão de que os conteúdos inconscientes estão à priori excluídos da consciência.
Por causa de tais atos de julgamento o processo dirigido (racional, lógico) se torna necessariamente unilateral, mesmo que o julgamento racional pareça plurilateral e despreconcebido. Por fim, até a própria racionalidade do julgamento é um preconceito da pior espécie, porque chamamos de racional aquilo que nos parece racional. Aquilo, portanto, que nos parece irracional, está de antemão fadado à exclusão, justamente por causa de seu caráter irracional, que pode ser realmente irracional, mas pode igualmente apenas parecer irracional, sem o ser em sentido mais amplo.
A unilateralidade é uma característica inevitável, porque necessária, do processo dirigido, pois direção implica unilateralidade. A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma contraposição igualmente pronunciada no inconsciente, a não ser que se trate absolutamente de um caso ideal em que todas as componentes psíquicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma direção. É um caso cuja possibilidade não pode ser negada em teoria, mas na prática raramente acontecerá. A contraposição é inócua, enquanto não contiver um valor energético maior. Mas se a tensão dos opostos aumenta, em conseqüência de uma unilateralidade demasiado grande, a tendência oposta irrompe na consciência, e isto quase sempre precisamente no momento em que é mais importante manter a direção consciente. Assim um orador comete um deslize de linguagem precisamente quando maior é seu empenho em não dizer alguma estupidez. Este momento é crítico porque apresenta o mais alto grau de tensão energética que pode facilmente explodir, quando o inconsciente já está carregado, e liberar o conteúdo inconsciente.
Nossa vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável distanciamento do inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter conseqüências desagradáveis.

A SOMBRA


O autoconhecimento, segundo Carl Gustav Jung, é um processo que leva a compor com o outro, a sombra em nós. A sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu. A sombra é detectável em figuras do mesmo sexo que o sujeito, e que são os principais atores de seus sonhos e fantasias. Estes personagens tem traços de caráter e maneiras de agir que são a contrapartida da personalidade consciente. Quanto mais unilateral é o consciente, mais acentuados são esses personagens.
Ao analisá-los descobre-se que encarnam pulsões reprimidas, e também valores rejeitados pelo consciente. Ela permanece, entretanto, como o eterno antagonista, pois nasce, sob outras formas, do próprio desenvolvimento do sujeito. É sempre o conjunto do que o sujeito não reconhece e que o persegue incansavelmente.
Em geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de apoio e mergulhe na obscuridade.
O despertar da consciência deixa cair o manto das convenções e evolui para um confronto direto com a realidade, sem os véus da mentira, nem enfeites de qualquer espécie. O homem mostra-se, portanto, como ele é, e revela o que antes estava oculto sob a máscara da adaptação convencional, isto é, a sombra. Ao tornar-se consciente , a sombra é integrada ao eu, o que faz com que se opere uma aproximação à totalidade. A totalidade não é a perfeição mas sim o ser completo. Pela assimilação da sombra, o homem como que assume o seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões. E é justamente isso que faz do homem o problema difícil que ele é.
Esta realidade fundamental temos que tê-la sempre presente à consciência, se quisermos continuar nosso desenvolvimento. Se a repressão não leva diretamente à estagnação, ela produz pelo menos um desenvolvimento unilateral, o qual por sua vez resultará numa dissociação neurótica.
A questão hoje não é mais: como posso livrar-me da minha sombra ? Pois vimos de perto a maldição que pesa sobre o ser só metade (1). O que temos de nos perguntar agora é: como pode o homem conviver com a sua sombra, sem que isso provoque uma série de desgraças ? O reconhecimento da sombra é motivo de humildade e até de temor diante da insondável natureza humana. E é até bom, assumirmos essa atitude prudente, pois o homem sem sombra julga-se inofensivo, e isto justamente por ignorar a sua sombra. Mas quem conhece a sua sombra sabe que não é inofensivo, porque é através dela que a psique arcaica e todo o mundo arquetípico entram em contato direto com a consciência, impregnando-a de influências arcaicas. Deste modo, o eu com a sua sombra não permanece em estado de dualidade e cisão, mas se reestrutura em uma unidade ainda que conflitiva. Este passo evolutivo, porém, só faz com que a alteridade do parceiro se sobressaia mais nitidamente e o inconsciente procure então, via de regra, superar a distância, através de redobrada atração, para que a unidade desejada se realize de uma forma ou de outra.
O “homem sem sombra”, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo. Infelizmente, nem o chamado homem religioso nem o homem de mentalidade científica constituem exceção a esta regra.




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