CONCEITOS DE VIDA
ALMA
Cada ser humano é uma unidade, um in-divíduo.
Dividi-lo em corpo e alma é uma forma simplista de ver a realidade.
A alma, espírito, psique, "sopro" é a vida. O que existe
então, é um corpo físico que materializa a vida. Cada ser humano é
uma manifestação única dessa força que move o cosmo. Manifestação
que acontece no tempo e no espaço: tem começo meio e fim, assim
como tudo o que é dado ao homem observar. Acontece que os vivos
morrem, mas não a vida que continua a se manifestar sob muitas
formas. O superego deseja apropriar-se da vida, ser vida e assim
tornar-se eterno. A partir do nascimento ele criou uma identidade que
quer preservar. Mas esta identidade é uma máscara, este "eu"
é um robô, uma máquina de efeitos condicionados, depositário da
memória formada nesta vida. Entretanto, como o indivíduo é também
o depositário da memória genética que é transmitida junto com a
vida, na concepção, questiona-se se esta vida (também chamado de
"eu profundo") pode chegar à autoconsciência. Para isto
acontecer a máscara seria arrancada, o robô seria destruído e esta
determinada vida se perpetuaria de forma autoconsciente. Este
processo, entretanto, ocorreria durante esta vida, neste corpo
físico, aqui e agora. Não seria algo a ser experimentado post
mortem.
ALMA
E ESPÍRITO
-
É possível salvar a alma?
-
Não, ela morre com o corpo.
-
É possível salvar o espírito?
-
O espírito não precisa de salvação. Ele é a manifestação do
Uno, que também chamo Tao.
-
Afinal, o que é alma?
-
Alma é o intelecto, a inteligência, o Ego, o “eu” superficial
portador da memória e do conhecimento.
-
E o espírito?
-
É a origem do movimento e da pluralidade. O Uno não é uma coisa,
nem o Ser, nem a Idéia, nem a Forma. O Uno é o que faz com que cada
coisa, ser, idéia ou forma, seja o que é.
AMOR
Nada me soa mais certo do que amar o próximo como a si
mesmo: amo-o e odeio-o como amo e odeio a mim mesmo. Será que alguém
é capaz de amar integralmente a si mesmo? Será que o lado escuro -
o lobo que habita as profundezas de cada um – precisa ser
sacrificado para que triunfe a luz? Mas por que a luz precisa
triunfar se o universo é composto de luz e sombra? Conduzimo-nos por
falsos valores, por uma falsa moral ditada pelo intelecto –
Lúcifer, o Portador da Luz. Falsa porque é uma ilusão. A Luz sem
as Trevas é Nada.
Mas, afinal o que é amor?
O Amor (com A maiúscula) é o sentimento de união com
o Todo (tudo e todos).
O amor tal qual o conhece o homem massa é o apego.
Quanto maior o apego por uma determinada idéia, pessoa ou objeto,
maior é o amor. Nele encontra prazer e segurança que, entretanto,
como tudo no mundo, são passageiros. Então este homem cria um ser
que lhe dará amor e segurança eternos e o chama Deus. Para os seus
inimigos – aqueles que não pensam como ele – cria o inferno,
comandado por Satã, onde sofrerão eternamente.
A
atração entre opostos não é amor, mas uma necessidade utilitária.
Instintivamente cada ser humano necessita desenvolver qualidades
naturais pouco desenvolvidas. Para isto ele precisa do outro. Ao
encontrá-lo usa de todos os meios – principalmente a sedução -
para conseguí-lo. Dependendo do caráter de cada um, pode ser uma
guerra muitas vezes dissimulada ou uma aliança em que o outro supre
as suas deficiências em troca dos seus tesouros. Um negócio
instintivo no nível do inconsciente.
Nós homens da civilização ocidental do século XXI,
face aos poderes que estamos conquistando com a descoberta das leis
que movem o cosmo e a vida, pensamos ser livres, desvinculados da
alma universal. Satanizamos o irracional, o intuitivo, a sabedoria
dos antigos, e usando o poder da vontade, aliado à inteligência e à
razão pensamos na imortalidade e em poderes infinitos. Pensamos ser
os donos da verdade, esquecendo que existem sabedorias milenares que
aí estão e que, se divulgadas e aplicadas, poderiam servir para
sair desse estado de guerra não declarada em que vivemos apesar de
todo o nosso desenvolvimento tecnológico.
Vejam quanta sabedoria em Paracelso:
"Quem nada conhece, nada ama./Quem nada ama,
nada compreende./Quem nada compreende, nada vale./Mas quem
compreende, ama, observa, vê./Quanto mais conhecimento houver, tanto
maior o amor./Aquele que imagina que todos os frutos amadurecem ao
mesmo tempo, como a cereja, nada sabe a respeito das uvas."
Mas sabe alguém o que é amor? Parece que todos sabem
o que é poder e paixão. Mas, amor, alguém sabe o que é amor?
ANIMALIDADE
"Acabemos com esta vida assim!
Acabemos! o modo pouco importa!
Sofrer mais já não posso."
Fernando Pessoa
O homem tem profundo medo dos seus demônios, da sua
animalidade. Resgatar a sua humanidade é resgatar também a sua
animalidade. Não é possível descartá-la, ignorá-la porque o
homem também É animal.
Uma tarefa para super-homens porque a razão é oposição
e minoria nesse universo. Felizes aqueles cujos talentos a serem
desenvolvidos e tarefas a serem cumpridas ainda estão distantes
desse campo de batalha.
APEGO
- dependência psicológica; “Hoje, já não sou
possuidor de coisas minhas - sou apenas administrador das coisas de
Deus, em prol dos filhos de Deus, meus irmãos.” (Rohden)
ARQUÉTIPO OU IMAGEM PRIMORDIAL
- é a "percepção do instinto de si mesmo"
ou o "auto-retrato do instinto", à semelhança da
consciência que nada mais é, também, do que uma percepção
interior do processo vital objetivo. O arquétipo representa o
elemento autêntico do espírito, mas de um espírito que não se
deve identificar com o intelecto humano, e sim com o seu "spiritus
rector" (espírito que o governa)...." (Jung).
ARTE
- Arte é beleza. Beleza é harmonia. Harmonia de
traços, cores, luz, sombra, tons, sons, palavras, etc. Esta
manifestação pode ser agressiva, relaxante, sensual... É preciso
sensibilidade para captá-la. Cada pessoa tem uma reação pessoal,
subjetiva com relação à arte. É uma questão de gosto. Mas o bom
gosto, o gosto apurado - além da sensibilidade pessoal - é
adquirido pelo estudo e pela pesquisa das diversas técnicas
utilizadas na manifestação artística.
"Só
recentemente a obra de arte começou a ser valorizada por si mesma,
como um corpo independente, dissociado de seu criador. Um objeto
autônomo, alheio às considerações temporais e opiniões
subjetivas. A obra de arte é uma “coisa” que traz em si mesma a
razão da sua existência. O “gênio” é aquele pela qual a
natureza se expressa diretamente.
Para
Platão, o artista tem o olhar voltado para as aparências (para o
mundo material e finito) e não para a verdade (isto é, para a idéia
eterna e imutável das coisas. Isso quer dizer que o artista imita o
que já é, por si mesmo, imperfeito e cambiante, enquanto o filósofo
contempla a forma pura, o modelo perfeito. Um artista pinta uma flor,
mas não “a flor”. Ele não mira a essência e sim uma flor
qualquer. Logo, para Platão, a arte não é capaz de revelar verdade
alguma.
Para
Heidegger, a obra de arte traz uma verdade implícita, que transcende
o tempo e o próprio artista. Uma verdade que não é abstrata e
vazia, mas que revela ou desvela um mundo, uma terra. Ou melhor, faz
emergir o que originalmente está oculto, o “fundo” da terra, a
verdade que o mundo tenta esconder. A arte faz aparecer a terra como
terra, redescobre o mundo em seu estado nascente. Poderíamos dizer
então que ela não expressa nada do mundo, mas apenas aquilo que o
mundo não vê ou não quer ver, a sua essência mais profunda, o
próprio ser do mundo. É nisso que Heidegger parece se aproximar de
Nietzsche, que também vê a arte como expressão da vida, das forças
abissais mais profundas, enquanto pensa o artista apenas como o seu
mensageiro, o seu arauto.
Se
Nietzsche parece dar prioridade ao artista e ao seu “estado
criador” é porque é ele quem pode retirar das pedras, das cores
ou das notas musicais uma potência de vida, um poder revitalizador,
uma outra espécie de verdade. Não uma verdade conceitual, cultural.
Essa é, para ele, apenas uma mentira bem contada. Tratas-se de uma
verdade da natureza e do tempo e que diz respeito ao caráter
insubstituível e singular de todas as coisas.
Talvez,
diante disso, possamos compreender melhor porque Platão condenava a
arte, já que nada ameaça mais o falso e doentio equilíbrio da
cultura do que a explosão de vida que irrompe em cada criação
autêntica.”
(Tópicos
do comentário de Regina Schöpke, filósofa, sobre o livro “A Obra
de Arte – Ensaio sobre a Ontologia das Obras”, de Michel Haar.
Bertrand/Difel, publicado no Caderno2/Cultura – O Estado de São
Paulo, pág. D4, de 22/00/2000.)
AUTOCONHECIMENTO
Cada
ser humano tem um caminho próprio, individual para desenvolver as
suas potencialidades.
O
homem, entretanto, está jogado no mundo - conjunto de condições
geográficas, históricas, sociais e econômicas em que cada pessoa
está imersa - sem que a sua vontade tenha participado disso.
Aos
poucos ele desperta e sente uma necessidade instintiva, que se
apresenta como uma angústia indefinida que o leva a questionar quem
é, de onde vem e para onde vai. Com o decorrer dos anos essa
angústia transforma-se num sofrimento intenso ao qual Carl Gustav
Jung denomina de passio
animi (paixão
da alma). Este despertar é um processo de autotransformação, de
evolução que leva a um nível superior de consciência.
A
angústia
– segundo Heidegger – é,
dentre todos os sentimentos e modos de existência humana, aquele que
pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e
juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na
indiferença da vida cotidiana.
Darwin
desenvolveu uma teoria científica da evolução biológica. Antes
dele, já era amplamente aceita pelos filósofos a idéia de que
havia uma evolução da consciência humana. Enquanto aquela pode ser
comprovada cientificamente, esta é um processo subjetivo, é uma
experiência, um saber que não pode ser pesado, medido, testado
porque é autoconhecimento.
Observa-se
pois, que além da evolução biológica há no homem um processo de
evolução de consciência.
O
desenvolvimento ou evolução da consciência processa-se a partir da
experiência direta, da observação, do desenvolvimento da
sensibilidade e da intuição. Este é o sentido da vida.
Na
evolução da minha consciência percebo que cada vez tenho uma visão
mais subjetiva da realidade. Mergulhando dentro de mim e, sendo cada
vez mais eu-mesmo, desenvolvo uma maior percepção do mundo. Mas
esta percepção, esta consciência é subjetiva. Não é mais uma
teoria, mas um pensamento meu. Este pensamento é a única coisa
efetivamente minha, é a única coisa que tenho. Quando cito os
sábios antigos eu tenho consciência de que o que nós sabemos deles
não é efetivamente o que eles pensavam. Ao lermos o que eles
escreveram ou outros escreveram acerca deles, temos uma idéia nossa
do que eles pensavam. Ao interpretarem os escritos destes ou sobre
esses sábios, os estudiosos podem chegar a um denominador comum, mas
nunca será o pensamento real daquele pensador.
Por
isto eu não entro em detalhes sobre o que eles pensavam porque a
interpretação sempre será subjetiva. Mas observo a sua (deles)
visão do mundo, e é essa visão do mundo que procuro sentir,
perceber, intuir. Ora, a partir do momento em que compreendo o
significado do Uno, percebo que é impossível transgredir a Lei
porque qualquer coisa que eu faça ou pense, eu o faço e penso
dentro da Lei. A luta traz sofrimento e fortifica o Ego. O
fortalecimento do Ego acontece de acordo com a Lei. Quando o Ego se
julga o próprio Deus, ele está “maduro” para morrer. Com a
“morte” do Ego cessa a luta, o sofrimento, e o
ser
entra em harmonia com o Todo. Somente luta contra a matéria e os
instintos "bestiais", quem ainda precisa fortalecer o Ego.
A
moralidade é um valor egoísta, é um valor daqueles que dividem o
mundo entre Bem e Mal, certo e errado. “Conhecer o mal para chegar
a ser bom” é uma concepção dualista que conflita com a realidade
do Uno. O sábio é amoral porque ele sente o cosmo como um Todo,
sem as divisões que o intelecto impõe. Ser sábio, ser consciente,
não significa ser bom nem mau, mas ser si-mesmo e ver o mundo como
ele é.
Na
evolução do ser a ampliação da percepção de mim mesmo, o
conhecimento de mim mesmo, leva-me à consciência de que sou um
universo totalmente diferente de qualquer outro ser humano. Eu sou
único e por isso nem tudo o que é válido para mim se aplica aos
demais seres humanos e vice-versa.
Por
ter uma percepção totalmente subjetiva da realidade, observo que
não me é permitido citar outros pensadores. Isto é, eu utilizo
parte das suas idéias para afirmar minha realidade, o que somente
irá gerar confusão para terceiros. Concluo que somente posso expor
a minha visão do mundo e, reconheço que muitas vezes os citava para
demonstrar um pouco do meu conhecimento intelectual.
Tudo
está inter-relacionado. Tudo o que existe forma uma Unidade. A Lei
engloba todas as leis conhecidas e desconhecidas que regem essa
Unidade. Nada a ver com "Verdade Absoluta".
O
livre arbítrio é condicionado. Isto é óbvio, não é verdade?
Então eu não posso fazer o que eu quero, mas somente aquilo de que
sou capaz por imposição da minha natureza individual. Esta minha
natureza individual dá um sentido, uma direção para a minha vida,
independentemente dos meus desejos egoístas. Veja, eu não especulo.
Eu falo da minha experiência pessoal, confirmada por experiências
individuais de outras pessoas. Embora cada sujeito viva uma
experiência singular o processo de individuação segue a Lei. Se
ocorre inconscientemente pode acontecer o que você cita. Mas quando
o processo é consciente muitas obscuridades são iluminadas, e o
consciente ganha, infalivelmente, uma amplitude e profundidade.
Falamos
em "morte" do Ego mas o Ego somente morre com o corpo
físico, não é verdade? Quando se fala em "morte" do Ego
entende-se que não mais é o Ego que domina a personalidade. A
personalidade está dominada por uma força maior que surge do
inconsciente, do Id. É o processo citado pelos esotéricos e pelo
Novo Testamento. É o "espírito", o instinto consciente
que irá dominar a personalidade. Este é o "novo" homem,
um ser total, o si-mesmo. A matéria e os seus "vícios"
fazem parte do corpo e da consciência deste novo homem.
Para
o espírito não existe o certo e o errado. O que é "espírito"?
O Espírito é a origem do movimento e da pluralidade. Ele não é
uma coisa, nem o Ser, nem a Idéia, nem a Forma. O Espírito é o que
faz com que cada coisa, ser, idéia ou forma, seja o que é. Eu chamo
o Espírito de Uno. O Espírito também é chamado de mente: mente
universal.
Ninguém
tem a obrigação de fazer o outro feliz. Ninguém tem a obrigação
de saciar a fome e a sede de outrem a não ser em casos
excepcionais..
O
Universo é equilíbrio. Aquele que é sábio sabe que tudo é como
deve ser. Não há felicidade permanente. Tudo evolui. O sofrimento e
o prazer fazem parte do processo.
A
experiência pessoal, subjetiva, não tem valor universal, mas esta é
a única forma que o ser humano encontra para desenvolver uma
compreensão ampla e profunda da sua realidade.
Em
oposição ao mundo das idéias de Platão há o mundo dos sentidos
dos sofistas. Para os primeiros a única realidade é a das idéias
enquanto que para os outros a realidade é formada pela percepção
dos nossos sentidos e, por isto, os valores e as verdades são
instáveis e relativos. Na verdade, não existe oposição entre
essas duas concepções. Elas se completam. Heráclito já afirmava
que todas as coisas opõem-se umas às outras, e dessa tensão
resulta a unidade do mundo. No mesmo sentido temos o Uno de Plotino e
o complexio oppositorum de Nicolau de Cusa. No oriente distante,
viveu Lao Tse que escreveu sobre Tao, o Uno. A Ciência no século
XX, com a descoberta dos quanta, confirma: O Universo é um Todo,
tudo se relaciona.
O
ser humano é um universo. O ser humano é um todo, espírito e
matéria. A oposição entre essas forças forma a energia necessária
para que a evolução se realize. A visão parcial da realidade, isto
é, dividindo a natureza humana em bestial e divina tem levado aos
equívocos em que incorrem todas as religiões organizadas.
Faço
essas observações porque não participo do entendimento da mística
assim definida pela filosofia, pela teologia e pelas religiões
formais. O homem é um todo e não será usando a razão para lutar
contra si mesmo - contra as forças “bestiais” ou “demoníacas”
que fazem parte de sua natureza, segundo aqueles – que alcançará
a tão desejada unidade com a “divindade”. Não será na
repressão, mas sim no equilíbrio entre os seus instintos e a razão
que alcançará a ampliação da consciência e a percepção do
todo. Se estamos num processo de evolução ou desenvolvimento da
consciência, e eu assim o percebo, o mundo em que vivemos é de
absoluta justiça. Tudo é como deve ser. Basta observar.
Não
sei se você compreende o meu pensamento. Se você se guia somente
pela razão e pela lógica certamente há uma barreira entre nós. O
mundo das idéias do Filósofo geralmente está distante da
realidade, do aqui e do agora. O pensar intelectual opõe-se ao
sentir. E eu sou uma pessoa que sente o mundo. Gostei do texto de
Osho que você postou. Na verdade, Osho nada escreveu. Foram os seus
discípulos que transcreveram as suas palestras. Vale a pena
aprofundar-se no conhecimento de Osho. Ele traduz o verdadeiro
pensamento Sufi: quem experimenta sabe.
Agora
você nos apresenta Ahmad Yesevi: "Faça de você nada além de
um amante do Senhor." Este não conheço, mas dá para perceber
que é o oposto de Osho. Ser um Amante do Senhor é viver uma idéia,
uma ilusão, é desvincular-se do aqui e do agora, da realidade
presente, é viver da fé. É uma opção de vida - quantos a seguem,
não é verdade?
Quando
amar o próximo - homem, animal, vegetal ou mineral; o Sol a Lua e as
estrelas - é muito difícil, ama-se uma ilusão porque ela pode ser
idealizada, pode ser moldada de acordo com as conveniências e
desejos do sujeito.
Percebe
você a babaquice que significa "ser um amante do Senhor"?
Precisamos amar o nosso pai, a nossa mãe, o nosso irmão, a nossa
mulher ou marido, o nosso vizinho, o nosso amigo, o estranho que
encontramos na rua, o cachorro de rua, os pássaros que alegram a
nossa vida. A estes é muito complicado amar, então vamos amar ao
Senhor! Francamente! Escrevo isto porque as pessoas ditas religiosas
muito pouco amor tem ao mundo que as cerca e que elas dividem entre
certo e errado. Se não fosse a diversidade, o universo não teria
graça, não é verdade? Por isso permita-me cumprimentá-lo pela
oportunidade de trocarmos idéias.
AUTOTRANSFORMAÇÃO
São
poucos os que o conseguirão porque “quando se tem inteligência
pode faltar coragem e autoconfiança, ou a pessoa é espiritual e
moralmente demasiado preguiçosa ou covarde para fazer qualquer
esforço” (Jung).
A
civilização é uma construção coletiva em que cada ser humano é
uma peça. O prazer individual é restringido em favor do bem comum.
A energia da vontade, através da disciplina, é canalizada para o
desenvolvimento do grupo. O prazer, a alegria, as lutas, as vitórias
e o sucesso são resultados de um esforço coletivo baseados em
ideais que buscam o bem comum. Toda essa conquista, entretanto,
baseada na repressão e no direcionamento das energias é colocada em
cheque – geralmente, na segunda metade da vida - pelas forças
profundas, naturais e involuntárias – os instintos - que governam
a vida . Pode ocorrer, então, uma autotransformação, também
chamada de “individuação” por Jung, “renascimento pelo
espírito” pela Bíblia, um processo promovido pela lei cósmica da
evolução. É uma crise existencial. A depressão e a ansiedade - a
neurose – não são doenças mas sintomas desse processo. As
energias instintivas e inconscientes, reprimidas e castradas pelos
ideais coletivos, procuram romper o status quo. Embora todo o
esforço do superego auxiliado pelos meios médicos oficiais seja o
de manter o seu poder sobre a personalidade, seja por meio de
terapias, análises e/ou medicações, a evolução processa-se de
acordo com as energias individuais. Se estas forem suficientemente
fortes para usar aqueles meios em proveito próprio, eles serão
abandonados proporcionalmente à evolução da consciência. Deste
processo nasce um novo ser, um novo homem, um homem cosmoconsciente,
um in-divíduo.
Na
nossa civilização o in-divíduo é colocada à margem da sociedade.
Todo o esforço coletivo é direcionado no sentido de impedir a sua
existência. Ele é um perigo para o rebanho. O in-divíduo é
a exceção e como tal é isolado porque foge à regra da igualdade.
Ser um in-divíduo não significa ter personalidade própria (persona
- máscara) ou ser um líder. Este é o eleito da
massa. Canaliza os desejos conscientes e inconscientes de um grupo,
representa, personifica um segmento e/ou determinada sociedade. Ele
também é massa. O in-divíduo é único e, por isto, não
aceitará seguidores, discípulos ou eleitores embora a sua aura,
muitas vezes, atraia multidões. Ele não se identifica com a massa
– o homem comum, normal – porque está num outro nível de
consciência. Ele é um in-divíduo, uma unidade.
No processo de autotransformação, há a evolução da
consciência, em amplitude e profundidade, da inconsciência para a
consciência - da ignorância para a iluminação. É o despertar de
um sono sedado, de uma embriagues, uma batalha contra as trevas, as
ilusões e os condicionamentos.
Despertar,
tomar plena consciência da sua realidade é ser verdadeiramente
homem.
A
ampliação da consciência começa a revelar a verdadeira identidade
individual. O indivíduo começa a perceber a sua diferença em
relação a qualquer outro ser humano. Começa a compreender que cada
ser humano é único, um todo, um universo. A sua identidade estava
dispersa, refletida nos espelhos - amigos e conhecidos - que formam o
seu mundo. Era incapaz, entretanto, de identificar a sua identidade
individual projetada nos seus semelhantes. Mas agora os véus começam
a cair, o espelho começa a desembaciar e, aos poucos, a sua imagem
individual surge iluminada. Ele não está construindo teorias nem
estudando e pesquisando os outros, ele está descobrindo a si mesmo.
Na
autotransformação desenvolve-se a sensibilidade, a intuição, o
sexto sentido. Aos poucos, pela observação, o homem começa a
compreender as conexões que existem entre o seu mundo interior e o
mundo exterior. Este saber somente se firma quando ele abandona
todas as certezas, todas as verdades construídas pela crença, pela
fé cega e pela esperança.
O
homem quer respostas racionais para todas as suas interrogações.
Mas, racionalmente e pela lógica formal, ele nunca chegará a uma
conclusão definitiva sobre coisa alguma. Por isto a demanda da
Verdade exige uma passagem para além das fronteiras do pensamento
ordenado. Esta passagem, entretanto, não significa fé cega. Dizem
alguns que somente existe a Fé. Sem adjetivos. A fé é um
sentimento que pode ser consciente e inconsciente. O homem pode
acreditar numa mentira, e de tanto repeti-la e reafirmá-la como
verdade condicionará a sua mente e o seu coração. Após gerações,
ela será transformada em dogma. E por ele o homem matará e
morrerá. Esta é a fé cega. Mas somente pode enxergar quem é cego
e somente pode despertar quem está dormindo. A fé cega é uma etapa
do caminho da evolução. Quando o homem desperta e começa a
enxergar a fé passa a ser consciente. A realidade é percebida como
ela é. O in-divíduo não tem necessidade de acreditar porque a sua
consciência se iluminou. Ele sabe.
Aqueles
que falam num destino coletivo, em salvação de um povo, de uma raça
ou da humanidade ainda não despertaram para o fato de que a única
realidade é o indivíduo.
A
construção da civilização é uma obra coletiva, a individuação
uma conquista solitária. Esta luta em busca de si mesmo é a maior
aventura e a maior tragédia individual de cada ser humano.
BHAGAVAD GITA
- Segundo a concepção cósmica da filosofia oriental, toda a atividade do homem profano é fundamentalmente trágica, eivada de culpa, ou karma, porque quem age é o ego, e esse ego é uma ilusão funesta e tudo que o ego ilusório faz é necessariamente negativo, contaminado de culpa e maldade.
Se tal é toda e qualquer atividade do homem profano,
então estamos diante de um dilema inevitável: ou agir e onerar-se
de culpa – ou não agir e assim preservar-se de culpa.
Grande parte da filosofia oriental optou pela segunda
alternativa do dilema: não agir, entregar-se a uma total
inatividade, abismar-se numa eterna meditação passiva, a fim de não
aumentar o débito negativo do karma.
A Bhagavad Gita, porém, não recomenda nenhuma dessas
duas alternativas: nem o não-agir e preservar-se de culpa, nem o
agir e cobrir-se de culpa. A Gita descobriu um terceiro caminho: o de
agir sem culpa ou karma.
A Bhagavad Gita recomenda o caminho do reto-agir,
eqüidistante do falso-agir e do não-agir.
Como pode o homem agir sem se onerar de culpa?
O falso-agir é um agir por amor ao ego; mas o reto-agir
age por amor ao Eu, embora através do ego, e assim a sua atividade
não é culpada.
O reto-agir, por amor ao Eu verdadeiro, não só não
cria uma nova culpabilidade, no presente e no futuro, mas neutraliza
também o karma do falso-agir do passado, libertando assim o homem de
todos os seus débitos.
É nisto que consiste a suprema sabedoria da Bhagavad
Gita.
Mas para que o homem possa agir assim, por amor ao Eu
verdadeiro, deve ele conhecer esse Eu, deve conhecer a verdade sobre
si mesmo.
É o que Krishna explica a seu discípulo Arjuna
através dos 18 capítulos que perfazem o diálogo deste poema
metafísico; autoconhecimento para tornar possível a auto-realização
pelo reto-agir.
A quintessência da Gita é, pois, um convite para o
reto-agir, porque o homem não se realiza nem pelo não-agir, nem
pelo falso-agir.
A alma da Bhagavad Gita é um poema de auto-redenção
pela auto-realização baseada em autoconhecimento.
Homem, conhece-te a ti mesmo!
Homem, realiza-te! (Huberto Rohden)
BEM E MAL
O Bem não existe sem o Mal; um é a ausência do outro.
Sabemos o que é Mal porque o comparamos com Bem. Eles não existem
por si mesmos. O Bem só é Bem porque o Mal existe. Quanto maior a
força do Bem maior será a força do Mal. Um precisa do outro. Um
não existe sem o outro. Os dois se completam.
Pela lógica, o Mal é uma necessidade. Pois sem ele,
não existiria Deus. Sem o Mal, não existe o Diabo e o inferno; sem
Diabo e inferno, não existe Deus e o céu que são seus opostos; se
não existisse o Bem e o Mal, Deus e Diabo, as religiões formais
seriam uma farsa. Você tem que acreditar!!!
CAMINHOS
Não
há tempo perdido.
Não
há caminhos certos ou caminhos errados.
Somente
há caminhos. E cada um tem o seu caminho.
Por
isso não há do que se lamentar.
O eu verdadeiro comanda a vida de todos os seres.
CARÁTER
- É o conjunto de disposições congênitas que formam
o esqueleto mental de um homem”(Renné Le Senne). O caráter pode
ser comparado a uma máquina de escrever e a personalidade à letra
escrita.
CIBERNÉTICA
- Ciência do autogoverno, ciência da ação, ciência
da estruturação, da organização e, atribuição suprema, ciência
dos atos reais de transcendência... conforme o grau de profundidade
em que é considerada.”(Pasolini.)
COMUNISMO
- O filósofo italiano Norberto Bobbio afirma que
nazismo e comunismo são irmãos: tem o mesmo inimigo, a liberdade da
democracia liberal e burguesa. ..."o nazismo e o comunismo,
contrariamente à opinião geral de que são ideologias opostas, têm
matrizes comuns: os dois combatem o livre mundo burguês do mercado e
dos Estados parlamentares, os dois casam com a "Gemeinscraft"
contra a "Gesellschaft", a comunidade arcaica (aquela em
que o indivíduo é só parte de um organismo) contra a sociedade
moderna dos indivíduos singulares (e, enquanto tais, em livre
relação entre si), os dois opõem-se ao individualismo e são
partidários do organicismo social." Tanto o comunismo quanto o
nazismo tem como base uma utopia reacionária. "Neste projeto
utópico de transformação radical da sociedade está implícita uma
idéia antiliberal, pois o liberalismo acredita que a história da
liberdade é uma história de constantes passagens do bem para o mal,
de tentativas fracassadas e falidas. Não existe um fim obrigatório
de sociedade perfeita. Liberalismo é igual a antiperfeccionimso, ao
passo que marxismo e nazismo foram utopias perfeccionistas."
CONDICIONAMENTO
- Cada pessoa vê e sente o mundo de uma forma peculiar.
As respostas que damos aos estímulos do mundo exterior são
condicionadas. O condicionamento geralmente é construído pela lei
do menor esforço. Mudá-lo exige esforço, disciplina, tempo e é
doloroso. Por outro lado o ser humano tem necessidade de sentir-se
útil e amado. Pensamos, muitas vezes, que correspondendo à
expectativa dos outros e sendo "bonzinhos" seremos amados.
Veremos depois que estamos enganados. Ser si-mesmo, autêntico e
construir o seu espaço parece-me a melhor forma de conquistar
verdadeiros amigos e a harmonia interior. Ter o seu espaço significa
depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para
a sua felicidade. Embora muitos se sintam felizes na dependência dos
outros, há aqueles que somente o são, sendo livres. A liberdade,
embora relativa, é o trabalho de toda uma vida. Começa-se com
pequenas coisas que parecem insignificantes mas são elas as pedras
que formarão a base para a libertação.
Nosso único dever, a nossa única obrigação é o
profundo respeito ao outro, o que, obviamente, deve ser recíproco.
Respeito não significa submissão. Mesmo quando somos dependentes,
emocional e financeiramente, precisamos construir e manter o nosso
espaço. Não podemos esquecer que as dificuldades, por maiores que
sejam, são desafios a serem vencidos e, por isto, motivações para
viver. Agir é a palavra-chave. Mas a ação para concretizar-se
necessita da energia da vontade que nem sempre está disponível. A
ação não deve ser forçada pelo superego. Uma forma de canalizar a
energia para a ação é o pensamento. Escolher o primeiro passo a
ser dado e fixar o pensamento nele: "eu preciso fazer isto".
Repetindo o pensamento, aos poucos forma-se a energia necessária
para a ação. Ela vai acontecer naturalmente, sem a necessidade de
violência contra o outro ou contra si mesmo.
CONHECIMENTO
Ao invés de procurar conhecer as coisas, é preciso
examinar antes o sujeito e o modo como esse sujeito forma o seu
conhecimento dos objetos, afirmava Kant. O conhecimento começa com a
experiência, mas nem por isso origina-se nela. O sujeito apresenta
capacidades ou faculdades que possibilitam a experiência e o próprio
conhecimento. Tempo e espaço são duas condições sem as quais é
impossível conhecer, mas o conhecimento universal e necessário não
se esgota neles. É preciso, também, o concurso dos elementos
apriorísticos do entendimento.
É necessário compreender como o homem toma consciência
da sua realidade.
A percepção reside na recepção dos estímulos, feita
através dos sentidos; o pensamento qualifica a percepção
objetivamente dentro do quadro mental da sua realidade; o sentimento
qualifica a percepção subjetivamente entre prazer e aversão; a
intuição fornece um componente, um “saber” que está além da
aparência externa da coisa e que não é, necessariamente,
verdadeiro. Desenvolve-se essas capacidades através da
auto-observação.
A inteligência irá processar essas informações. A
associação de informações pouco exige da inteligência porque
representa uma simples soma, um processo mecânico de junção de
dados. O resultado é um conhecimento superficial, a erudição. É a
dissociação intelectual - a reflexão - que permite distinguir a
realidade da aparência, desfaz confusões e ilumina aspectos ocultos
das coisas. Ela exige muito mais argúcia, poder de observação e
senso dos matizes. Ela promove a compreensão profunda, a sabedoria.
CONSCIÊNCIA
Consciência é a percepção, a compreensão que cada
um tem de si mesmo e, conseqüentemente, do mundo que o cerca. Tanto
o homem como o animal são regidos, do ponto de vista psíquico, pelo
inconsciente. Não há entre eles, senão uma diferença de grau,
marcada pelo nível de realização da consciência. Só quando o
homem possui a capacidade de ser consciente é que se torna
verdadeiramente homem.
(Carl
Gustav Jung).
“Consciência é a reflexão pela qual eu percebo que
o fruto de elaboração do meu cérebro é verdadeiro, ou que é
falso, ou que tem este ou aquele valor... Consciência é a percepção
do ato do conhecimento; o olho não vê que está vendo, o ouvido não
ouve o que está ouvindo, mas a mente sabe que está sabendo, conhece
o próprio conhecer, está consciente de ser consciente. No plano da
lógica formal, o problema é insolúvel.”(Piero Pasolini)
No
que consiste a consciência é um enigma para a ciência. Se é
possível decifrá-lo não sabemos, mas sabemos que temos
consciência, isto é, sabemos que sabemos. E que ela evolui. Há
diferenças entre a consciência de uma criança, de um adolescente,
de um jovem e de um adulto. A sua visão do mundo difere. Mas mesmo
entre adultos em que a consciência está madura há abismos. Podemos
afirmar, portanto, que a consciência varia de indivíduo para
indivíduo. Então, sem teorizar, - porque isto irá contra o que
pretendo apresentar - somente posso escrever sobre a minha
consciência.
A
visão que cada um tem do seu mundo é individual, subjetiva, baseada
na sua natureza - formada por forças instintivas e, portanto,
inconscientes - e nas informações recebidas pelos sentidos e
processadas pelo cérebro. O instinto - conceituado por Kant como
“necessidade interior” – nos conduz para o caminho da
experimentação. Ele é “domesticado” pela dor. Entre erros e
acertos o homem aprende. A evolução processa-se pela experiência.
As energias inatas que o movem conduzem-no para caminhos que não são
escolhas, mas determinações do seu caráter, pois os homens nascem
potencialmente diferentes. Alguns, pela sua natureza, vêem o mundo
de forma objetiva: as experiências de vida são orientadas pelos
fenômenos objetivos tanto na forma de fatos concretos, como de
idéias gerais. São racionais. Nestes a consciência tem maior
amplitude. Outros percebem a realidade subjetivamente: os fatos são
recolhidos apenas como evidência para suas próprias hipóteses e
não em benefício dos próprios fatos. O modelo vem de dentro, da
experiência de vida, da intuição (instinto) e é, portanto,
puramente subjetivo. São intuitivos. Aqui predomina a profundidade.
A consciência se expande quando desenvolvemos as percepções
objetiva e subjetiva com a mesma intensidade.
Ter
consciência é saber. Mas este saber é mais profundo do que o
conhecimento intelectual. A ele adiciona-se a experiência e a
maturidade do indivíduo. Esta quando transmitida como informação
tem um impacto apenas superficial na personalidade. Há uma gradação
entre o ouvir falar e estar presente ao fato. Presenciar um fato em
que são ativados todos os sentidos causa uma impressão muito forte.
Nada, entretanto, é comparável ao sentir a experiência na própria
pele. Isto é experimentar. Somente quem experimenta sabe. Ela dá
uma compreensão profunda. Uma experiência pessoal pode derrubar
anos ou até séculos de certezas firmadas teoricamente. A
experiência tem, no entanto, um valor totalmente subjetiva. Ela pode
representar um divisor de águas para a vida de um e ser apenas um
acontecimento corriqueiro para outro. Uma única experiência nem
sempre é suficiente para que se aprenda e compreenda. Cada coisa tem
infinitos ângulos que precisam ser descobertos. Por isto, parece que
o homem, pelas suas limitações naturais, nunca terá plena
consciência da sua realidade. A sua consciência sempre será
parcial, mas em permanente expansão.
O
problema é que "consciência" é um saber que não pode
ser definido intelectualmente, objetivamente, cientificamente.
Consciência é um valor subjetivo.
Consciência é um saber, uma percepção ampla e
profunda da sua realidade. Há aqueles que acham que são conscientes
porque tem informações, tem uma história, tem memória.
Consciência é muito mais do que isto.
Há níveis de consciência. Quem tem consciência ampla
e profunda conhece a "sua verdade". As pessoas "insensatas
e ignorantes" porque tem uma consciência superficial, somente
tem uma "história" pessoal. Elas não conhecem a sua
verdade.
Uma sólida formação religiosa - infância e
adolescência - é um condicionamento poderoso, uma lavagem cerebral
que É consciência. Todos os valores morais e éticos que são
ensinados como verdades nesse período, permanecem, para muitos, como
certos e verdadeiros até o final das suas vidas. A fé, reforçada
diariamente, através de orações e o convívio com o grupo que
partilha das mesmas idéias torna a consciência individual assim
formada impermeável - o objetivo das igrejas.
Sobre essa consciência afirmou Lutero, perante o
conselho de Worms:
"Eis-me, pois aqui. É impossível que seja de
outra maneira, pois minha consciência moral está presa à palavra
de Deus e é perigoso e impossível fazer qualquer coisa contra essa
consciência. Não posso, não quero abjurar".
A consciência é um todo. Forma-se a consciência com o
uso dos sentidos, do sentimento, da razão e da intuição. São
estas funções que dão a cada indivíduo a percepção singular da
realidade. O equilíbrio entre a razão e o sentimento, entre o
objetivo e o subjetivo não é algo que possa ser objeto da vontade.
A natureza intuitiva e emocional não conseguirá ver o mundo com a
mesma racionalidade daquele que tem desenvolvida essa qualidade.
Perseguimos ideais e o equilíbrio entre a emoção e a razão é um
ideal.
Ainda há entre nós - povos do terceiro mundo - o
paternalismo e o servilismo, senhores feudais e seus agregados,
porque ainda não conseguimos evoluir para uma sociedade moderna
formada por indivíduos em livre relação entre si. Por outro lado,
ainda é forte a idéia do rebanho conduzido por pastores iluminados
onde é impensável a liberdade individual. Parece-me que estamos num
período de transição, de contestação, em que os valores éticos
e morais da sociedade arcaica estão sendo reavaliados. Toda mudança
é dolorosa mas ela insere-se no processo de desenvolvimento do
indivíduo e, consequentemente, da sociedade.
Olhamos a realidade através das lentes da cultura, da
experiência de vida e da crença.
A EVOLUÇÃO DA CONSCIÊNCIA
Para muitos é indesejável ver o homem na sua
inteireza. O condicionamento imposto pela civilização - religião,
tradição e moral - o mantém preso na sua inconsciência. As forças
que o aprisionam são poderosas e o fazem lutar contra si mesmo.
Parece que tudo conspira contra a evolução da
consciência. Muitos simplesmente a negam. Aqui poder-se-ia aplicar
aquele ensinamento sobre o Diabo: "o mais belo estratagema do
Diabo seria de nos persuadir que ele não existe." O Mal, aqui,
pode ser identificado como sendo a força que resiste e nega a
existência da evolução.
A força da inércia parece manter o cosmo e o ser
humano num aparente torpor, numa letargia que parece não ter fim. É
verdade, são necessários milhões de anos para que o homem perceba
alguma mudança no processo de evolução do seu mundo externo. E
parece que é necessário o mesmo período de tempo para que a
consciência individual evolua.
O desenvolvimento cultural, científico e tecnológico é
cumulativo e coletivo e, por isso, o seu ritmo é veloz. Estes
conhecimentos e técnicas podem ser transferidos para toda a
humanidade e para as gerações futuras de forma pronta e acabada.
Sua velocidade depende somente dos meios de comunicação. A evolução
da consciência, entretanto, é um processo individual, lento e
gradual, forma um saber que não pode ser transferido.
Nenhum agente externo - religião, escola esotérica,
filosofia, idéia ou crença - é capaz de despertar a consciência.
O despertar somente acontece através de uma transformação interior
cuja causa está no seu inconsciente.
CONSERVADOR E LIBERAL
- Dizia John Stuart Mill que "eu nunca quis dizer
que os conservadores sejam geralmente burros. O que eu quis dizer é
que as pessoas burras são geralmente conservadoras. Esse fato me
parece tão óbvio e tão universalmente aceito como princípio que
não posso imaginar um gentleman verdadeiro que o negue".
Parece-me que conservador é aquele que procura não
correr riscos, ou minimizar os riscos ao máximo. Ele é contra
mudanças que possam abalar a sua segurança, o seu condicionamento.
Ele prefere seguir um caminho pronto em que as dificuldades já são
conhecidas porque é a forma mais simples, fácil e cômoda de
alcançar o objetivo. Ela não exige muito esforço e inteligência.
O inovador quer mudanças e sabe que elas trazem riscos.
As dificuldades e os imprevistos que irão surgir durante o caminho -
pois nem sempre é possível identificar todas as variáveis de uma
empreitada - irão exigir muito trabalho e inteligência para serem
superados.
Parece-me que o conservador prefere deixar as coisas
como estão para ver como é que ficam. O inovador não. Nesse
sentido concordo com J. S. Mill: os burros são conservadores porque
a inovação exige o uso da inteligência.
Obviamente - como você conclui - no meio é que está a
virtude. Mas não podemos negar que são os inovadores, os
revolucionários - que nem sempre podem prever todos os efeitos das
suas ações, mas tem a coragem de seguir em frente - são os
verdadeiros agentes do desenvolvimento.
CULTURA
- Programa que tem audiência, tem patrocinadores. Não
é assim que funciona a lei do mercado? Mande a Globo colocar em
horário nobre a Filarmônica de Berlim tocando Beethoven, Mozart,
Bach, Brahms, para concorrer com o programa do Ratinho para ver o
que acontece. Isto aqui não é uma democracia? Ou será que na área
cultural devemos impor o que a elite julga ser de qualidade? Será
que devemos subsidiar programas culturais? Isto irá mudar o "gosto"
do povo? Por que será que os programas de televisão são um lixo,
estão nivelados por baixo, alguém sabe? Pois se os senhores
acompanharam o que aconteceu neste país nos últimos vinte anos
certamente saberão. A democratização mandou jogar no lixo as
disciplinas de Educação Moral e Cívica e Estudos de Problemas
Brasileiros. Era o mínimo, mas eram resquícios da ditadura! Com a
implantação do Plano Real os excluídos do mercado de consumo
começaram a comprar fornos de microondas, geladeiras e TELEVISORES.
Os excluídos não são somente os sem terra e sem teto, os excluídos
são principalmente, os sem educação, sem civilização e sem
cultura. Por outro lado a nossa educação há muito não educa. A
classe média, aos poucos, também está sendo engrossada por pessoas
sem educação, sem civilização e sem cultura. A Educação é a
base. Há dez anos atras pensei que tínhamos chegado ao fundo do
poço. Vejo agora que este poço não tem fundo. Dizem os
especialistas que o Brasil está incluído nos países cuja
capacidade ainda está restrita a construir escolas (prédios) -
assim como em outra área até agora somente sabemos construir
presídios. Sem Educação de verdade continuaremos com esse lixo
cultural e os presos se organizando em sindicatos. E viva o Brasil!
DEUS
Deus - complexio oppositorum ( Nicolau de Cusa )
Você pode acreditar em qualquer coisa, inclusive em
"deus". Então, o acreditar ou o não acreditar, é uma
forma simplista, superficial de se ver a questão. Encontre-se a si
mesmo e, então, você encontrará "Deus".
Consciência é a percepção ampla e profunda de uma
realidade. Aquele que tem uma percepção ampla e profunda daquilo
que popularmente se denomina Deus, sabe o que é Deus. Quem não tem
essa consciência acredita em Deus. Mas observe, o nível de
consciência do ateu está no mesmo patamar do teísta. Ele não
acredita em Deus, mas também não tem consciência do que é Deus.
A Consciência se forma com o uso da inteligência e da
razão. Penso que a intuição dá a "liga", ajuda a compor
o quadro que forma a consciência de alguma coisa. Ninguém, somente
pela intuição, "saberá" o que é Deus. Ele irá
"acreditar" em Deus na sua forma pessoal de percebê-lo.E
ninguém, somente pela razão, irá encontrar Deus como já sabemos
há séculos.
DOR
- O mais ativo agente que me levou a encontrar a mim
mesmo, o estímulo mais enérgico que me forçou a compreender a mim
próprio e a operar a minha transformação e ascensão. (Pietro
Ubaldi)
EGO
- é a consciência moral que o indivíduo possui,
produto das relações com os objetos que o circundam, da educação
e das influências sociais. As exigências do superego é que moldam
o eu; máscara que começamos a colocar quando nascemos, moldada pela
herança genética e aperfeiçoada durante a vida. “Pelos sentidos
e pelo intelecto, estamos vinculados às categorias de tempo, espaço
e causalidade, força é que essas faculdades cogniscitivas nos façam
uni-laterais ou pauci-laterais; porquanto nenhuma dessas faculdades
tem caráter universal, oni-lateral. Por isto, pelos sentidos e pelo
intelecto todo ser é egoísta. O egoísmo intelectual do homem
consciente, ego-consciente, pode assumir proporções funestas,
quando não controlado por um poder superior, isto é pela
Razão”(Rohden).
Características:
- A natureza determinada e dirigida dos conteúdos da consciência.
- O comportamento, sentimentos e pensamentos são, em grande parte, controlados por impulsos inconscientes e pelas tradições coletivas.
- A vida é movida pela energia da vontade, a vontade de poder. O caminho da vontade se dá através de conflitos, lutas e violência.
- O seu mundo é dual, fragmentado, baseado em escolhas. A mente absolve ou condena, justifica e compara.
- As suas certezas são baseadas no conhecimento intelectual, no raciocínio, na lógica e na fé.
- Em geral têm uma profunda aversão em conhecer alguma coisa a mais sobre si mesmos.
- Vivem num mundo de expectativas, emoções, idéias, hábitos, passado e futuro.
O Ego é incapaz de conhecer a si mesmo. Ele pode
descrever as suas motivações e ações, mas é incapaz de
enxergar-se no espelho. Para identificá-lo é necessária uma outra
“persona”, o eu verdadeiro.
EGO, morte do - Ao perceber que já não pode tudo e
todos os "egos" à sua volta já não o bajulam mais;
quando a sua arrogância já não encontra servilismo; quando o seu
autoritarismo já não encontra subserviência; quando a sua
sapiência já não encontro ignorantes e quando a sua esperteza já
não encontra trouxas, ele começa a desabar.
No processo de evolução do ser humano e com o
desenvolvimento do seu intelecto - também chamado pelos esotéricos
de Lúcifer (o portador da luz) - forma-se o Ego. O Ego pensa ter
força própria, pensa estar desvinculado do Espírito do Universo,
quando, na verdade, apropria-se da energia da vontade, coloca-a a seu
serviço e através de técnicas desenvolvidas pelo intelecto cria a
cultura e a civilização. A luta entre as forças instintivas
(Espírito) e o Ego (Lúcifer) é identificada pelas religiões como
a guerra entre o Bem e o Mal numa inversão de valores. A energia da
vontade está a serviço do Ego e usar esta força para combater o
Mal somente o fortalecerá. Estão equivocados aqueles que combatem o
Mal com o uso da violência porque dela ele se alimenta. O Mal e o
Ego são as duas faces da mesma moeda. O Ego (o Mal) morre pela
entrega, pelo desprendimento, pelo não-agir.
Retornar à casa do Pai é mergulhar no Espírito do
Universo e, para que isto aconteça, o Ego precisa morrer.
ENERGIA, FORÇA E MATÉRIA
- A princípio entendia-se que o átomo era uma
espécie de sistema planetário em miniatura. Depois veio a
descoberta de que o núcleo atômico é composto de prótons e
nêutrons, ou seja, de duas espécies de partículas elementares.
Surgiu então a pergunta: serão essas partículas elementares as
últimas unidades indivisíveis, ou podem elas se subdividir?... Para
esclarecer a situação, poderíamos indagar antes de tudo: como
determinar se estas partículas são já a última unidade ou são
ainda passíveis de subdivisão? A resposta é: já que não existe
outro meio de provar sua indivisibilidade, é preciso fazer com que
essas partículas entrem em choque, umas com as outras, a grande
velocidade ou energia. E, de fato, o resultado é que, nos choques
realizados com grande consumo de energia, as partículas parecem
fragmentar-se realmente em muitos pedações. Mas esses pedaços não
são, na verdade, menores do que as partículas decompostas.
O que sucede, nesses choques, pode ser descrito de
modo mais compreensível dizendo-se que a grande energia de movimento
das partículas se transforma, durante o choque, numa nova matéria.
Realiza-se assim a relação eisnteiniana entre a energia e a
matéria: a energia pode tornar-se matéria.
É possível, assim, acontecer que, da subdivisão,
não se origine nada de menor, mas novamente a mesma coisa.
Realmente, em todos esses processos de choque,
verificamos que, sejam quais forem as partículas iniciais e seja
qual for a energia dessas partículas, o que sempre aparece são as
mesmas partículas chamadas elementares.
Logo, existe simplesmente na natureza um espectro
determinado de formas, de partículas elementares, e estas formas se
reproduzem de certo modo sempre de novo, quando as partículas se
chocam.
Poderíamos, portanto, dizer que a energia se
transforma em matéria quando assume a forma de uma partícula
elementar.” (Heisenberg.)
Tudo no Universo é bipolar. Tudo tem o seu par de
opostos. A existência sem polaridades é inconcebível. A polaridade
é força. O sentimento, a afetividade, sensibilidade, sensação é
a resposta a uma força. Uma coisa atrai outra, uma coisa sente-se
atraída, tanto no mundo orgânico como inorgânico. Isto pode ser
experimentado objetiva e subjetivamente.
ESPÍRITO
O Espírito do Universo está sob as aparências,
imperceptível aos cinco sentidos humanos. Pelo sexto sentido e pela
intuição, o homem é capaz de ter insights desta realidade. São
percepções fugidias, clarões na escuridão da inconsciência.
ESPÍRITO LIVRE
"O espírito dentro do homem não é escravo de
nenhum senhor; nem mesmo da vida, do amor, nem de nenhum deus
invocado pelo eterno desejo humano de ter um Pai celestial sobre quem
lançar o ônus da guia ou libertação do mundo. O espírito no
interior de todo homem é intrinsecamente livre. Não conhece
deterioração. Não conhece dor. Os fluxos e refluxos de Universos e
ciclos se sucedem uns aos outros ao longo do aro da roda do tempo
infindo. Todas as coisas tornam ao seu ponto de origem. Todos os
começos já são mortes dissimuladas. Mas bem ao centro de todas as
experiências humanas está aquela quietude e aquela paz que se podem
sentir onde todo sentimento cessa, que se podem conhecer na ausência
de todo conhecimento. Ser essa própria quietude e essa paz - é esta
a única salvação; esta é a única liberdade. Busca-a com
diligência, incessantemente - porém ... sem pressa, serenamente,
sem desejar-lhe os dons. Esforça-te em buscá-la; até já não
haver necessidade de esforço; até já não haver necessidade
alguma; até já não haver nada." (Dane Rudhyar0
EXPERIÊNCIA
A experiência transmitida como informação é um dado
superficial. Entre o ouvir falar e estar presente ao fato – meninos
eu vi! – há uma gradação. Nada, entretanto, é comparável à
experiência pessoal. Há uma substancial diferença de consciência
entre o motorista teórico e o motorista prático; entre o médico
que assiste ao parto e a mulher que é mãe; entre estar apaixonado e
ter lido um tratado sobre o amor e paixão.
ETERNO RETORNO
“Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será
sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez -, um
grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a
partir das quais vieste a ser, se reunam outra vez no curso circular
do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e
inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada
raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas. Esse
anel, em que és um grão, resplandece sempre outra vez. E em cada
anel da existência humana em geral há sempre uma hora, em que
primeiro para um, depois para muitos, emerge o mais poderoso dos
pensamentos, o pensamento do eterno retorno de todas as coisas: - é
cada vez, para a humanidade, a hora do meio-dia. ... O mundo
subsiste; não é nada que vem a ser, nada que perece. Ou antes: vem
a ser, perece, mas nunca começou a vir a ser e nunca cessou de
perecer -, conserva-se em ambos... Vive de si próprio: seus
excrementos são seu alimento.”
( Nietzsche, Friedrich. O Eterno Retorno, textos de
1881; A Vontade de Potência, textos de 1884-1888).
Tudo passa e tudo retorna. Altos e baixos, prazer e dor,
tudo vai e tudo volta. No universo não há vencedores nem
perdedores, num dia se ganha e no outro dia se perde. É nisto que
está a beleza - para aquele que consegue enxergar além das
aparências.
EVOLUÇÃO
desenvolvimento progressivo de uma idéia;
transformação progressiva das espécies. Lei Cósmica da Evolução:
tudo é um contínuo vir-a-ser.
Segundo o físico Amit Woswami, há muitos furos -
sinais de pontuação - na teoria darwiniana. A teoria da evolução
explica alguns extágios homestáticos da evolução. Ou seja, como
as espécies adaptam-se às mudanças ambientais. Mas não explica
como uma espécie torna-se outra. Essa é uma nova mudança na
evolução que não está na teoria de Darwin. Não temos uma
continuidade de fósseis mostrando como um reptil tornou-se pássaro.
A idéia é que sejam sinais de pontuação, estágios muito rápidos
da evolução. Ele sugere que isto seja um salto quântico na
evolução. Nesse a consciência cósmica interveio. Há uma
intervenção da causalidade descendente. A biologia evolucionista
não pode ser explicada só com a causalidade ascendente.
Antes de Darwin já era amplamente aceita a idéia de
que havia uma evolução da consciência humana. Percebe-se, então,
que a evolução humana está encaixada num processo evolutivo bem
maior, a evolução da vida. Segundo Rupert Sheldrake o universo é
como um organismo em desenvolvimento e a consciência humana é um
aspecto inferior de alguma forma superior de consciência; o próprio
cosmos é atravessado por uma espécie de mente ou consciência, e
que a terra certamente tem uma, e... em última instância, há a
consciência ou a mente de Deus.
No homem, se por um lado, há o desenvolvimento da
consciência, por outro, ele, com a sua inteligência, promove o
progresso científico e tecnológico. Não há uma relação entre um
e outro.
Na evolução cultural, afirma Oliver Sacks,
qualquer coisa que se invente ou aprenda ou descubra imediatamente se
acumula e é passada adiante, é um poderoso mecanismo cumulativo que
não existe na natureza. Na natureza, quando uma espécie desenvolve
alguma coisa, não pode transferi-la para mais ninguém; cada espécie
é a sua própria entidade singular. Há interação, mas nunca
amalgamação, ao passo que na cultura humana você tem essa complexa
reticulação. Então é por essas duas razões que a herança
cumulativa de conhecimento e tecnologia e sua propriedade reticular
de descoberta e invenção, que a evolução cultural é tão rápida.
A evolução da consciência é semelhante à evolução
da natureza, lenta, gradual e individual. O desenvolvimento
científico e tecnológico é cumulativo e coletivo e, por isso, o
seu ritmo é veloz. Estes conhecimentos e técnicas podem ser
transferidos para toda a humanidade e para as gerações futuras de
forma pronta e acabada, ao passo que a consciência é uma
experiência de vida que não pode ser transferida, isto é, o homem
não tem a capacidade de aprender com a experiência dos outros e por
isso o seu progresso é lento.
É necessário continuar. Somente posso continuar. Não
posso voltar e mudar. O meu berço não foi uma escolha e não havia
caminhos a serem escolhidos. O caminho é construído durante a
caminhada. Se me fosse dado voltar no tempo e se me fosse dada a
opção da escolha, construiria eu outro caminho? Certamente que sim
porque este caminho no qual estou eu conheço. Por que repetir a
mesma experiência se ela nada acrescentaria à minha vida? A beleza
está no desconhecido. Se a vida pudesse ser totalmente planejada,
totalmente segura, ela não seria vida. Não para mim.
Mas se "eu" voltasse no tempo era impossível
seguir outro caminho. Impossível. As minhas forças vitais fazem de
mim um ser único, cuja única liberdade é seguir o seu caráter -
conjunto de disposições congênitas que formam o meu esqueleto
mental. Que pode o ego contra as forças que comandam a vida? Para
construir outro caminho seria necessário ser alguém com outro
caráter, alguém com outro eu. Sou único e passageiro. Aqui não
terei outra vida para fazer o que deixei de fazer.
Apesar de toda simpatia que tenho por aqueles que
acreditam na reencarnação, apesar de toda simpatia que nutro por
aqueles que acreditam na vida do eu após a morte - o ego quer ser
eterno -, nada, nada tenho, nenhum elemento racional ou intuitivo que
possa fundamentar aquelas crenças. Tudo nasce, cresce e morre. O
eterno retorno é uma idéia e não uma verdade.
EU
O Universo desenvolve-se a partir de uma força inicial.
Tudo se manifesta a partir desta força criadora primeira que é
energia em constante transformação.
O Eu é uma manifestação da força inicial, um
universo energético onde podemos distinguir o eu profundo e o
superego. O superego nasce com a concepção desenvolve-se durante a
vida e morre com o corpo físico. É, portanto, mortal. Identifica-se
com o nome da pessoa: João, Maria, Tiago. O superego vive no tempo
e no espaço, numa realidade limitada pelos seus sentidos. O eu
profundo é formado pelas forças naturais, profundas e involuntárias
que governam a vida. Ele contém a experiência de vida acumulada por
seus antepassados; forma as linhas mestras, o esqueleto mental de
cada indivíduo. O superego, geralmente, usa a força da vontade, o
intelecto e a inteligência, enquanto o eu profundo manifesta-se
pelo sentimento e pela intuição.
Nenhum ser humano é criador e, por isto, querer não é
poder. A “criação” tem origem no movimento que impulsiona o
indivíduo para desenvolver aquilo que ele já é. O chamado “querer
é poder” é, portanto, a manifestação no mundo material daquelas
potencialidades individuais inatas. O pensamento criador tem origem
na essência, no eu profundo e não na superficialidade do superego.
O ser humano é uma semente que nasce, cresce, produz
flores e frutos, envelhece e morre. Aquele que É um “pinheiro”
não poderá tornar-se uma “roseira”. As podas necessárias para
que se torne um “pinheiro” forte e robusto – a educação no
seu sentido amplo -, muitas vezes, podem mutilá-lo e desfigurá-lo
mas ele, na essência, sempre será um pinheiro. Os ideais da
educação devem despertar as potencialidades individuais, com
trabalho e disciplina. Na criança e no jovem com o auxílio de pais
e mestres até que ele assuma, pessoalmente, o caminho ditado pelas
forças da sua natureza.
Você pode estudar toda a obra de Freud e toda a obra de
Jung; você pode estudar ciências ocultas, esotéricas, budismo,
astrologia, cristianismo, etc.. Você terá muitas, mas tão somente,
informações. Com elas você está em condições de encontrar o
"eu", encontrar a si mesmo.
EXOTERISMO
diz-se da doutrina ensinada publicamente pelos antigos
filósofos;
FÉ E ESPERANÇA
Vive-se enquanto há expectativa de prazer. A fé e a
esperança dão segurança e prazer. Ah, a fé e a esperança... O
importante não é que Deus exista, mas que se acredite na sua
existência; o importante não é saber-se imortal, mas acreditar na
imortalidade; o importante não é exercer a democracia, mas
acreditar que é possível exercê-la; o importante não é o fato
mas a versão do fato.
"Não depositem fé em tradições, mesmo que
tenham sido aceitas por longas gerações e em muitos países. Não
acreditem em algo só porque muitos o repetem. Não aceitem uma coisa
só por ter sido afirmada por algum dos sábios antigos, nem com base
numa declaração encontrada nos livros. Jamais acreditem em alguma
coisa porque as probabilidades lhe são favoráveis. Não acreditem
no que vocês mesmos imaginaram, pensando que foram inspirados por um
Deus. Não acreditem em nada simplesmente por ter sido afirmado por
mestres ou sacerdotes. Após examinarem, acreditem naquilo que
testaram pessoalmente e julgaram razoável, que esteja em
conformidade com seu bem-estar e o dos outros". (Buda).
Dizem
alguns que somente existe a Fé. Sem adjetivos.
A fé é um sentimento que pode ser consciente e
inconsciente. O homem pode acreditar numa mentira, e de tanto
repeti-la e reafirmá-la como verdade condicionará a sua mente e o
seu coração. Após gerações, ela será transformada em dogma. E
por ele o homem matará e morrerá. Esta é a fé cega. Mas somente
pode enxergar quem é cego e somente pode despertar quem está
dormindo. A fé cega é uma etapa do caminho da evolução. Quando o
homem desperta e começa a enxergar, a fé passa a ser consciente. A
realidade é percebida como ela é. O in-divíduo não tem
necessidade de acreditar porque a sua consciência se iluminou. Ele
sabe.
FELICIDADE
Na busca da felicidade muitos imaginam uma convivência
isenta de conflitos. Ma o conflito é necessário. Se não há
conflito é porque não há mais a vontade de potência, há o
repouso que é o símbolo da decadência e da morte.
A conciliação de forças opostas, a harmonia entre
elas, a ausência de conflitos é um ideal. A realidade mostra-se
diferente. Os grandes saltos tecnológicos, por exemplo, ocorrem
durante as guerras - "quentes" ou "frias". A
competição leva a um desenvolvimento mais rápido que a cooperação
pois é da própria natureza das forças vivas o conflito e a
sobrevivência do mais apto.
FIGURANTE
NO FILME DA VIDA
Num país sem valores éticos e educação integral nada
cabe fazer a não ser vender a alma a quem paga mais ou tornar-se um
discípulo de Bin Laden, isto é, de qualquer forma, vender a alma ao
diabo. Por isto, como não tenho poderes nem sou o dono da vida e do
destino cabe-me apenas observar. Observar a vida como um filme em que
sou somente um figurante.
HOMO SAPIENS - “Existem sem dúvida espécimes
isolados de homo sapiens, mas o grosso da humanidade é composto do
tipo homo intelligens, ou até do homo sentiens, o homem sensitivo
com ligeiro verniz de intelectualidade. A sapiência ou sabedoria é
algo incomparavelmente superior à simples inteligência. A
inteligência é analítica, indutiva, silogística ao passo que a
sabedoria é sintética, dedutiva, panorâmica. O homem sapiente
seria aquele homem racional, espiritual, o homem-crístico, o homem
univérsico, que está latente no homem de hoje, porém, não
desenvolvido”(Huberto Rohden).
O homem. Só, ele nasce e só ele morre. De que lhe
serve toda a sua riqueza material, toda a sua erudição e poder
temporal, se ele não sabe quem é, de onde veio e para onde vai.
Acredita em Deus e em Diabo, em céu e inferno, culpa, prêmio e
castigo porque é mais fácil acreditar do que pensar. Prefere andar
em rebanho seguindo o toque do cincerro.
O
homem pensa que é dotado de vontade própria mas é apenas um ator
que desempenha um papel escrito pelas forças cósmicas. O
livre-arbítrio é relativo. Pensa que é livre porque desconhece as
causas inconscientes que motivam as suas escolhas. Ele é livre para
optar por coisas superficiais, acessórias. O seu destino é
determinado pela sua natureza individual. A vida não é um tornar-se
com base em exemplos e ideais coletivos. Viver é desenvolver
potencialidades inatas no mundo em que se vive. Viver é
experimentar, aprender e compreender.
A
civilização é uma construção coletiva em que cada ser humano é
uma peça. O prazer individual é restringido em favor do bem comum.
A energia da vontade, através da disciplina, é canalizada para o
desenvolvimento do grupo. O prazer, a alegria, as lutas, as vitórias
e o sucesso são resultados de um esforço coletivo baseados em
ideais que buscam o bem comum. Toda essa conquista, entretanto,
baseada na repressão e no direcionamento das energias é colocada em
cheque – geralmente, na segunda metade da vida - pelas forças
profundas, naturais e involuntárias – os instintos - que governam
a vida . Pode ocorrer, então, uma autotransformação, também
chamada de “individuação” por Jung, “renascimento pelo
espírito” pela Bíblia, um processo promovido pela lei cósmica da
evolução. É uma crise existencial. A depressão e a ansiedade - a
neurose – não são doenças mas sintomas desse processo. As
energias instintivas e inconscientes, reprimidas e castradas pelos
ideais coletivos, procuram romper o status quo. Embora todo o
esforço do superego auxiliado pelos meios médicos oficiais seja o
de manter o seu poder sobre a personalidade, seja por meio de
terapias, análises e/ou medicações, a evolução processa-se de
acordo com as energias individuais. Se estas forem suficientemente
fortes para usar aqueles meios em proveito próprio, eles serão
abandonados proporcionalmente à evolução da consciência. Deste
processo nasce um novo ser, um novo homem, um homem cosmoconsciente,
um in-divíduo.
Na
nossa civilização o in-divíduo é colocada à margem da sociedade.
Todo o esforço coletivo é direcionado no sentido de impedir a sua
existência. Ele é um perigo para o rebanho. O in-divíduo é
a exceção e como tal é isolado porque foge à regra da igualdade.
Ser um in-divíduo não significa ter personalidade própria (persona
- máscara) ou ser um líder. Este é o eleito da
massa. Canaliza os desejos conscientes e inconscientes de um grupo,
representa, personifica um segmento e/ou determinada sociedade. Ele
também é massa. O in-divíduo é único e, por isto, não
aceitará seguidores, discípulos ou eleitores embora a sua aura,
muitas vezes, atraia multidões. Ele não se identifica com a massa
– o homem comum, normal – porque está num outro nível de
consciência. Ele é um in-divíduo, uma unidade.
No
processo de autotransformação, há a evolução da consciência, em
amplitude e profundidade, da inconsciência para a consciência - da
ignorância para a iluminação. É o despertar de um sono sedado, de
uma embriagues, uma batalha contra as trevas, as ilusões e os
condicionamentos.
Despertar,
tomar plena consciência da sua realidade é ser verdadeiramente
homem.
A
ampliação da consciência começa a revelar a verdadeira identidade
individual. O indivíduo começa a perceber a sua diferença em
relação a qualquer outro ser humano. Começa a compreender que cada
ser humano é único, um todo, um universo. A sua identidade estava
dispersa, refletida nos espelhos - amigos e conhecidos - que formam o
seu mundo. Era incapaz, entretanto, de identificar a sua identidade
individual projetada nos seus semelhantes. Mas agora os véus começam
a cair, o espelho começa a desembaciar e, aos poucos, a sua imagem
individual surge iluminada. Ele não está construindo teorias nem
estudando e pesquisando os outros, ele está descobrindo a si mesmo.
Na
autotransformação desenvolve-se a sensibilidade, a intuição, o
sexto sentido. Aos poucos, pela observação, o homem começa a
compreender as conexões que existem entre o seu mundo interior e o
mundo exterior. Este saber somente se firma quando ele abandona
todas as certezas, todas as verdades construídas pela crença, pela
fé cega e pela esperança.
O
homem quer respostas racionais para todas as suas interrogações.
Mas, racionalmente e pela lógica formal, ele nunca chegará a uma
conclusão definitiva sobre coisa alguma. Por isto a demanda da
Verdade exige uma passagem para além das fronteiras do pensamento
ordenado. Esta passagem, entretanto, não significa fé cega. Dizem
alguns que somente existe a Fé. Sem adjetivos. A fé é um
sentimento que pode ser consciente e inconsciente. O homem pode
acreditar numa mentira. E de tanto repeti-la e reafirmá-la como
verdade condicionará a sua mente e o seu coração. Após gerações,
ela será transformada em dogma. E por ele o homem matará e
morrerá. Esta é a fé cega. Mas somente pode enxergar quem é cego
e somente pode despertar quem está dormindo. A fé cega é uma etapa
do caminho da evolução. Quando o homem desperta e começa a
enxergar, a fé passa a ser consciente, a realidade percebida como
ela é. O in-divíduo não tem necessidade de acreditar porque a sua
consciência se iluminou. Ele sabe.
Aqueles
que falam num destino coletivo, em salvação de um povo, de uma raça
ou
da
humanidade ainda não despertaram para o fato de que a única
realidade é individual.
A construção da civilização é uma obra coletiva, a
individuação uma conquista solitária. A individuação é a maior
aventura e a maior tragédia individual de cada ser humano.
IDEAL
O ideal é uma utopia perfeccionista, uma terra
prometida que nunca será encontrada.
INDIVIDUO
Individualidade
é a consciência de si mesmo, a noção de estar só e apartado de
um grupo.
Preservar,
fortalecer e viver a sua individualidade; construir a sua autonomia,
depender o mínimo do outro e ser livre, parece-me que são valores
pouco cultuados no nosso meio. Aqui viver é relacionar-se, meter-se
na vida alheia, fofocar e, sobretudo pertencer. A individualidade, no
nosso caso, está espalhada pelo grupo, pelo mundo exterior, ela não
está centrada no sujeito.
Estes
pensamentos lembram Platão:” “Quem faz depender de si mesmo, se
não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não
se prende a outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau
êxito de sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é
sábio, na verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante”.
A
individualidade é um valor em Nietzsche:
“Ninguém
pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para
atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por
certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão
para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria
pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único
caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes,
segue-o”.
E
em Albert Einstein:
“Toda
civilização e toda cultura nasce das raízes do individualismo
criativo. Não foi a sociedade, mas um indivíduo quem primeiro tirou
fogo de uma pedra. ... Só o indivíduo pode pensar e,
pensando, criar novos valores para o mundo. Só o
indivíduo pode estabelecer novos padrões morais que mostram o
caminho para as gerações futuras. Sem personalidades decisivas
pensando e criando de forma independente, o progresso humano é
inconcebível.”
É
na individualidade que se percebe em profundidade a desigualdade
entre os sujeitos. Mas porque por aqui reina a fé da igualdade, é
oportuno lembrar Rui Barbosa:
"A
regra da igualdade não consiste senão em aquinhoar desigualmente
aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade
social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a
verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do
orgulho e da loucura. Os apetites humanos conceberam inverter a norma
universal da criação, pretendendo não dar a cada um na razão do
que vale, mas atribuir o mesmo a todos como se todos se equivalessem.
Essa blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a
humanidade, é filosofia da miséria proclamada em nome dos direitos
do trabalho. Se executada, não faria senão inaugurar, em vez da
supremacia do trabalho, a organização da miséria. Mas se a
sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada
um nos limites de sua energia mortal, pode reagir sobre as
desigualdades nativas pela educação, atividade e perseverança. Tal
é a missão do trabalho.”
A
valorização da individualidade não é somente um fator cultural,
mas representa também um estágio mais elevado de consciência de si
mesmo dos componentes daquele grupo social.
O corpo e o espírito formam um todo, um indivíduo, um
sujeito que muito pouco conhece a si mesmo. Mas o homem pode chegar a
um estágio de desenvolvimento individual em que o autoconhecimento e
a Ciência se completam. Não é uma questão de fé, mas de
consciência. Há aqueles para os quais a Ciência é a autoridade
absoluta, esquecendo-se, entretanto eles, que também ela está em
desenvolvimento e as suas descobertas são verdades relativas. O
desenvolvimento do Eu está inserida no processo de evolução do
cosmo e essa situação permite perceber essa constante
transformação.
O pensamento, para muitos, é uma atividade
essencialmente intelectual que envolve somente o cérebro. Pensar,
entretanto, envolve o todo, onde o cérebro é o centro de
processamento de dados. Colocar a vontade a serviço da inteligência,
e somente dela, impede o desenvolvimento integral. A erudição e a
inteligência enciclopédica escondem, muitas vezes, uma
personalidade mutilada. A abstração e desenvolvimento intelectual
parecem funcionar como um estorvo para a percepção da totalidade.
Privilegiando a inteligência e a razão, o homem atrofia, por falta
de uso, o sentimento, o intuitivo, o instintivo e o humano.
É da natureza do intelecto dividir, separar e somar –
processos analítico e sintético. Mas na formação da consciência
aparece um componente a mais: o sentimento. O sentimento une,
aglutina aquilo que o intelecto separa e soma. Somar é uma função
matemática, objetiva, lógica e racional. Na união entra o
componente afetivo que trabalha com significados. O sentimento é o
componente necessário para que se forme a consciência. Ter
consciência é ter a capacidade de dividir, identificar, somar e
unir as partes do todo.
A ignorância não é só a falta de inteligência e de
conhecimentos, mas, principalmente, a falta dessa consciência, dessa
compreensão do todo. Por isto, podemos afirmar que o único Mal que
aflige a humanidade chama-se ignorância.
Quando paro e olho para dentro de mim mesmo, "eu
sou dois": um "eu" é memória cerebral desta
"encarnação", o outro é instinto, "eu"
profundo, memória genética. São estes dois que brigam, um querendo
convencer o outro daquilo que é certo e errado. A luta entre os dois
traz sofrimento. Onde está a "mente"? A “mente” é
“consciência”, aquela que observa os dois. A mente não sente
prazer ou dor, ela é o observador, o tertius, formando a Trindade.
É
perigoso o homem que pensa em mudar o seu semelhante e o mundo de
acordo com os seus ideais. É perigoso o homem que pensa na
existência de uma realidade objetiva, é perigoso o homem que pensa
que somente existe uma realidade, seja a dos sentidos, seja a das
idéias. Este homem tem um problema: é cego à diversidade do
universo. O homem cego é aquele que mata as coisas do mundo porque
não as compreende. Ele racionaliza a realidade, ele não sente, ele
não se torna um com ela. A razão divide, o sentimento une.
Uma
bela manhã numa praia deserta de uma ilha do atlântico sul. Aqui há
harmonia, aqui existe beleza. Mas a violência, a guerra e o
sofrimento dominam o mundo. O homem é cego. Que posso fazer?
Observar.
Tudo
o que o homem em geral pensa foi aprendido com seus pais, mestres,
amigos, professores, padres, pastores, autores de livros, etc. etc.
Apega-se a ideais que lhe foram ensinados, apega-se à tradição e à
cultura do seu grupo social. Ele é um homem massa. Ele tem o seu
grupo, o seu time, a sua religião, o seu clube, o seu rebanho. Para
desvincular-se desse emaranhado, dessa rede que o prende, dessa teia
que o amarra ao grupo ele precisa despertar. Isto é, ele precisa
perceber, ele precisa tomar consciência dessa situação. Esta
consciência forma-se com a reflexão. E é na reflexão sobre si
mesmo e a sua relação com o seu mundo que surgem as idéias, as
suas idéias, as suas convicções, a sua fé consciente. Desse
processo de individuação surge o verdadeiro ser humano. Um ser
humano que não segue nem Jung nem Freud; nem Jesus nem Buda; nem
Maomé nem Moisés; nem Alan Kardec, nem a Teosofia de Helena
Blavatsky e Annie Besant, ou a Tradição Sufi; nem Platão,
Aristóteles, Kant, Hegel ou Nietzsche, mas saberá compreender
aquelas idéias e aproveitá-las para a formação do seu
conhecimento.
Construir
a sua verdade é desenvolver a sua consciência. A única verdade, a
única realidade de cada sujeito é a sua consciência. Esta
consciência quando pouco desenvolvida ou infantil precisa acreditar
ou não acreditar em algo que esteja além de sua compreensão. Este
é o nível daquele que tem fé cega. A fé consciente está num
nível mais elevado; é a fé daquele que experimentou. Esta
experiência, entretanto, deve submeter-se ao crivo da razão e do
conhecimento. O que é consciência e nível de consciência? É algo
extremamente subjetivo, pois a consciência ou o seu nível não pode
ser definido racionalmente. Darwin
desenvolveu a teoria da evolução biológica. Antes dele, já era
amplamente aceita pelos filósofos a idéia de que havia uma evolução
da consciência humana. Enquanto aquela pode ser comprovada
cientificamente, esta é um processo subjetivo, é uma experiência,
um saber que não pode ser pesado, medido, testado porque é
autoconhecimento.
A
única realidade, a única verdade que existe é a do sujeito que a
experimenta, nos afirma a Física Quântica. E isto não é fé nem
teoria porque pode ser experimentado individualmente.
É
necessário superar a crença no mundo das idéias e cair na real.
Aqueles que ainda não se descobriram como in-divíduos;
aqueles que ainda não tem consciência de si-mesmos; aqueles cuja
individualidade está espalhada pelo grupo, isto é, alimenta-se das
energias do grupo; aqueles que ainda estão presos a preconceitos,
verdades e certezas e pensam que todos os homens são iguais,
esquecem que cada um precisa atingir a totalidade como ser para poder
chamar-se de in-divíduo. A igualdade dentro do grupo - a ovelha do
rebanho - é o ideal dos medíocres. Somente a “ovelha desgarrada”
é capaz de abrir novo caminho, somente o in-divíduo é
verdadeiramente homem.
"Deus é Fiel" estava escrito no adesivo do
vidro traseiro do carro que trafegava na minha frente. "Fiel",
digno de fé, que cumpre aquilo que se obriga; leal, honrado,
íntegro, probo; que não falha, seguro, certo; que não muda, firme,
constante, perseverante; exato, verídico, verdadeiro; que não
rouba, honesto; que professa uma religião; que é amigo certo;
diz-se daquele que não mantém ligações amorosas senão com a
pessoa com quem se comprometeu (Aurélio - Século XXI). Ser fiel.
És-se fiel a alguém ou a alguma coisa. Se Deus é tudo, ele também
é fiel. Mas fiel a quem? Deus é fiel a Si-mesmo.
O homem porque divide o seu mundo entre certo e errado,
entre Bem e Mal - projeta no mundo exterior o seu mundo interno -
espera-se que seja fiel a um lado, que tenha um partido (!), isto é,
que siga o caminho do Mal ou o caminho do Bem, assim definidos pelo
código moral da sua gente. É inconcebível para a massa que seja
diferente. Mas para quem consegue enxergar um pouco além dessa visão
dual; para quem consegue compreender que o universo tanto externo
quanto interno é o "complexio oppositorum" de que nos fala
Nicolau de Cusa, é de todo evidente que o homem só pode e deve ser
fiel a si mesmo. Sendo fiel a si mesmo ele será fiel à força que
move o cosmo. Mas isto somente irá acontecer quando a sua
consciência despertar.
Deus é fiel. O verdadeiro homem também é fiel, a si
mesmo.
INSTINTO
O instinto é uma "necessidade interior",
segundo Kant. "Por instinto, entendo um impulso natural cego
para certas ações, sem ter em vista determinado fim, sem
deliberação, e muito freqüentemente sem percepção do que estamos
fazendo" (Thomas Reidl).
O instinto, o inconsciente, o spiritus rector, é a
força – a necessidade - que move cada ser. (Há coisas que não
precisam de argumentação porque são evidentes. A necessidade é
uma força superior ao livre arbítrio). O meio ambiente opõe
resistências ou facilita a expressão, a manifestação dessa força
que é cega, isto é, vive na escuridão e está em busca da luz, do
conhecimento do seu meio e de si mesma. Usando a inteligência e a
razão começa a descoberto do seu mundo, daquilo que está à sua
volta, dos segredos do seu universo externo. A esse mundo externo
está dedicado a Ciência e a Religião - a religião cristã,
principalmente, cujo Deus e Diabo são entidades externas, o céu e o
inferno são reinos localizados no espaço sideral ou em outra
dimensão. A atenção do homem está direcionada para fora de si
mesmo, os seus sentidos estão aptos a identificar o que acontece no
tempo e no espaço em que predomina a lei da causalidade. A sua
motivação, a sua força de vontade, canalizada para estudar e
controlar a sua realidade externa e a vida do seu semelhante, é
determinada pela sua natureza, pelo seu instinto. Para a maioria das
pessoas toda a vida é dedicada à descoberta do seu mundo externo.
Parecem desconhecer o deus que os motiva, que lhes dá vida, e que
está dentro e não fora. Outros, satisfeita a necessidade de
conhecer o mundo externo, sentem o imperativo da descoberta do seu
universo interno. Toda a energia que estava direcionada para o mundo
exterior, para o trabalho, o lazer, o social, o estudo e a pesquisa,
é direcionada, pela necessidade, para a descoberta de si mesmo. O
vasto conhecimento empírico e teórico acerca do universo que está
à sua volta e do outro vai auxiliá-lo a conhecer a si mesmo. O
importante, agora, é a profundidade do conhecimento e não a
amplitude. É desta profundidade que falavam os antigos: “para que
os ramos de uma árvore cheguem ao céu, as suas raízes devem chegar
ao inferno”.
O homem tem medo dos seus instintos. O medo está na
ignorância, no desconhecido. A defesa é a repressão. A ignorância
é a base de todos os medos e de todas as formas de repressão.
Nietzsche tem uma frase genial: faça dos instintos seus animais
domésticos. Ao conhecer o sexo, por exemplo, em todas as suas formas
de expressão, ao compreendê-lo como a manifestação da Vida e
fonte de prazer, não mais será necessário reprimi-lo, mas vivê-lo
total e conscientemente.
Muito antes dos alquimistas, sacerdotes egípcios e
hebreus, sabia-se dos benefícios da transferência da energia vital
entre corpos, mesmo sem a consumação do ato sexual. Chamava-se
sunamitismo a prática em que o idoso dormia com jovens enlaçados ao
seu corpo, devido à história contada no Antigo Testamento sobre o
rei David: na velhice, ele costuma dormir com uma jovem virgem
sunamita, para renovar suas forças. O imperador alemão Frederico
Barba-Roxa costumava estreitar dois rapazes aos seus estômago e
pernas. Dizem, também, que nos campos de concentração nazistas
faziam-se experiências para reanimar os prisioneiros, aquecendo-os
com os corpos de donzelas.
O sexo entre jovens e pessoas que passaram da meia idade
ainda é um tabu. Mas se atração existe entre essas pessoas, ela é
instintiva, uma necessidade natural. Em assim sendo, nada há a ser
questionado pelos moralistas de plantão, aqueles do “façam o que
eu digo, mas não façam o que eu faço”.
INTELIGÊNCIA
conjunto imensamente complexo e variado de habilidades
e capacidades que emergem da estrutura do cérebro humano.
INTUIÇÃO - percepção cognitiva diferente do
racional que encontra no meio científico seu lugar com o nome
"contexto de descobrimento de idéias". Esta percepção
cognitiva comprime anos de experiência e aprendizado num clarão
instantâneo.
O "processo intuitivo" não é uma percepção
sensorial nem um pensamento, nem também um sentimento. Intuição é
um processo de sentir, ou seja, a percepção das possibilidades
inerentes a uma dada situação. A intuição decorre de um processo
inconsciente, dado que o seu resultado é uma idéia súbita, a
irrupção de um conteúdo inconsciente na consciência. A intuição
é, portanto, um processo de percepção, mas, ao contrário da
atividade consciente dos sentidos e da introspecção, é uma
percepção inconsciente” (C. G. Jung, in A Natureza da Psique -
Ed. Vozes - Petrópolis, 1986).
JUSTIÇA
Quando conseguimos olhar-nos de longe e do alto, quando
iluminamos os mais profundos abismos de nós mesmos, compreendemos
que tudo é como deve ser. Há harmonia no cosmo, há equilíbrio
entre as forças que o compõem. O homem como micro-cosmo e a
sociedade por ele formada desenvolvem-se em meio a esta força
chamada vida. Tudo tem o seu motivo de ser, tudo é efeito de uma
causa porque a realidade humana situa-se no tempo e no espaço.
Quando desconhecemos a causa damo-lhe o nome de acaso, fatalidade ou
livre-arbítrio. A Justiça existe, somos nós que muitas vezes não
temos a capacidade de conhecer os atos ou fatos que resultaram
naqueles efeitos. Não há pessoas injustiçadas porque cada um, no
final, tem o que merece ter.
KARMA
Sorte,
karma, destino - chamem-lhe o que quiserem - existe uma lei de
justiça que de algum modo, mas não por acaso, determina a nossa
raça, a nossa estrutura física e algumas das nossas características
mentais e emocionais. O importante é compreender que não podemos
fugir ao nosso modelo básico, podemos agir em conformidade com ele –
e assim, sermos livres. (Paramahansa Yogananda)
O
destino não é senão o desenvolvimento de uma trajetória lançada
por nós mesmos anteriormente e a cujo percurso estamos
inexoravelmente ligados pela lei de causa e efeito. É por isso que
nossa vida não é um conjunto de acontecimentos ocorridos ao acaso,
mas tudo é pré-ordenado segundo esse jogo de forças, sua natureza,
atração e repulsa.(Stephen Arroyo).
O karma é criado não tanto por aquilo que se faz mas
pelo que se deixa de fazer no momento certo. O
karma é causado por uma negação – consciente ou inconsciente –
do potencial criativo do momento por quantos vivam esse momento.
(Rudhyar).
As sementes do karma passado não podem germinar se
forem queimadas no fogo divino da sabedoria” (Paramahansa
Yogananda). O karma é baseado na lei cósmica de causa e efeito,
isto é, toda ação desencadeia uma reação igual e oposta. Esta
lei somente pode agir numa mente que divide e separa. O ser humano
que superou a mente dual ao tornar-se Um, não sofre a influencia da
lei do karma.
LEI
O
homem, a natureza, a Terra, o sistema solar, enfim, o Universo é
movido por leis próprias que, penso eu, evoluem com ele. É
impossível contrariar tais leis, mas o seu conhecimento pode
direcionar ou anular determinadas forças.
LEI DE CONSERVAÇÃO DA MASSA
formulada por Lavoisier: "Nós devemos aceitar
como um axioma incontestável que em todas as operações da natureza
e da arte nada é criado; uma quantidade igual de matéria existe
antes e depois do experimento". A lei de conservação da massa
é generalizada para a lei de conservação de energia e de
movimento, ou quantidade de movimento. São leis naturais e a sua
propriedade mais importante é sua universalidade.
LEI ÉTICA DA UNIDADE DE TODAS AS COISAS
tudo o que existe é expressão de uma rede energética
holográfica em movimento ondulatório fora das categorias de espaço
e tempo. Tal rede energética ondulatória se expressa na chamada
ordem explicada ( o que nos aparece) e numa ordem implicada ( rede
energética fundante). O cérebro funciona holograficamente e é
suporte que manifesta o funcionamento do todo. O humano, o vegetal, o
animal, o mineral e todas as formas de expressão da vida formam
parte da mesma rede espiritual e energética.
LIBERDADE
Os homens se enganam quando acreditam que são
livres; e o motivo desta opinião é que têm consciência de suas
ações, porém ignoram as causas que as determinam; por conseguinte
o que constitui a própria idéia de liberdade é o fato de
desconhecerem a causa de suas ações - Espinosa
Como poderá uma pessoa libertar-se (ou ser libertada)
das cadeias forjadas pelos seus desejos (pelo karma), a fim de poder
ser outra vez livre? Esta liberdade é o objetivo máximo de todas
as vias de libertação e técnicas de auto-realização. Ver
autonomia.
"Fazer o que se gosta" dizem ser a regra
básica do bem viver. Isto é, ser livre. Geralmente, proibido. Mas
essa proibição nem sempre é social. É um impedimento ditado, na
maioria das vezes, pela consciência moral. Ah... de novo a
moralidade. "Sou prisioneiro da minha consciência moral",
dizia Lutero, lembram-se? Esta consciência resulta do
condicionamento. Romper o condicionamento é como arrancar as
próprias vísceras, é uma dor que nem todos têm coragem ou
capacidade de suportar. "É preferível morrer" diz o ego.
A liberdade interior resulta do descondicionamento. A
liberdade de ser si-mesmo é a única e verdadeira liberdade.
Observe, pode não ter sentido para você porque cada
indivíduo é um universo. Preciso confessar a você que eu sou um
indivíduo para o qual a liberdade é uma necessidade "fisiológica".
Ser livre para mim, não é uma escolha, mas uma necessidade que tem
a sua origem, a sua causa na essência, no espírito, ela está nos
genes. Veja eu não falo em idéias. Eu falo em viver a vida. Eu não
habito o mundo das idéias, eu vivo de emoções, de percepções, de
significados. Para quem vive no mundo das idéias, talvez, a
liberdade não tenha sentido, mas não ocorre o mesmo para quem é
corpo e alma.
Geralmente
as técnicas usadas para o descondicionamento criam um novo
condicionamento. Técnicas para relaxar, para tornar a mente vazia.
Se o novo condicionamento é melhor ou pior do que anterior eu não
sei, mas é um condicionamento.É isto o que eu tenho observado nas
pessoas que usam "técnicas". Não podemos esquecer que o
cérebro cria ilusões, a imaginação cria realidades. Há pessoas
que são "ar", são intelectuais. A fórmula que o
intelectual usa para libertar-se não pode ser a mesma utilizada pelo
"água", "fogo" ou "terra". Então eu
penso que a única e verdadeira liberdade é ser si-mesmo, sem
"técnicas", sem fé, sem fórmulas para não correr o
perigo de querer tornar-se o que não se é. O sujeito, o indivíduo
somente se realiza ao ser ele-mesmo, isto é, quando tem consciência
do seu condicionamento. É a consciência do condicionamento que
liberta. Isto, entretanto, precisa ser vivido.
“Lieben und arbeiten”, amar e trabalhar (realização
afetiva e material) é a fórmula do bem viver, segundo Sigmund
Freud. Essas são as necessidades básicas do ser humano segundo a
ótica da cultura anglo-saxônica pois sabemos que há culturas em
que a segunda necessidade tipificada por Freud, geralmente, é
considerada um castigo.
A liberdade é essencial para que o homem se realize
afetiva e materialmente. Novamente serei contestado por aqueles que
pensam que um Estado socialista - onde a liberdade econômica é
programada e restrita - deve promover o bem comum. Serei contestado
também por aqueles que pensam que a realização afetiva deve
obedecer a regras, tais como casamento heterossexual monogâmico,
etc. etc. Observamos, então, que mesmo nas nossas necessidades
básicas, a liberdade precisa ser conquistada.
Ser livre, embora relativamente, é uma conquista. E
depois da conquista o preço é a eterna vigilância. Não podemos
negar que a liberdade individual - física, de pensamento, de crença,
de consciência, afetiva, econômica, etc. - é ampliada através do
exercício do poder, da posse de bens e de conhecimentos. A conquista
de qualquer espaço aumenta a nossa liberdade. A busca de liberdade é
uma procura de prazer. Não podemos esquecer, entretanto, que nem
todos sentem prazer em ser livres. Para muitos, e me parece que estes
são maioria, a liberdade individual é indesejável. Estes tem
prazer em ser escravos, seguir ordens, métodos e autoridades.
Ser livre é um processo progressivo e um grande
desafio.
Liberdade é um saber. O homem que despertou e tem
consciência do seu mundo SABE o que é liberdade e por isto é
livre.
LIBERTAÇÃO
Homem
liberta-te das doutrinas, das verdades e valores estabelecidos e
entrega-te à realidade única - a verdade - que mora dentro de ti.
Busca-a com diligência, mas sem pressa; procura-a com cuidado e
atenção; mantenha a calma - ela está no centro do turbilhão da
vida. Ela se revelará aos poucos; paulatinamente perceberás as suas
múltiplas formas e funções e, embora não consigas compreendê-la
totalmente, saberás que ela é o tesouro procurado por alquimistas,
esotéricos e sábios de todos os tempos. Tu o saberás! Ela é sol,
luz, som, sabor, sensação, saber... Super lucidez. Agora sorria e
projete a sua luz sobre o mundo!
LIVRE-ARBÍTRIO
livre-arbítrio é agir em conformidade com o nosso
modelo básico (natureza) e assim sermos livres. Somos livres de
selecionar e de escolher até os limites do nosso entendimento.
Na verdade os caminhos da vida são o resultado de
escolhas. Mas escolhemos quase sempre desconhecendo o seu efeito
final. Mas não podemos negar que a escolha é feita pela energia que
move o ser. Se nascêssemos novamente certamente faríamos as mesmas
escolhas que fizemos até hoje. Mas se conhecêssemos os resultados
antecipadamente certamente as nossas escolhas seriam outras. A
liberdade de cada um está em agir de acordo com a sua natureza.
Há um estágio na vida em que as opções são tão
somente efeitos das escolhas passadas.
Não há escolha livre. Toda escolha é condicionada.
Inicialmente, é bom repetir o conceito de
livre-arbítrio: “Possibilidade de exercer um poder sem outro
motivo que não a existência mesma desse poder; liberdade de
indiferença. [ Refere-se o “livre-arbítrio” principalmente às
ações e à vontade humana, e pretende significar que o homem é
dotado do poder de, em determinadas circunstâncias, agir sem motivos
ou finalidades diferentes da própria ação.]” (Novo Aurélio.)
“Ninguém em sã consciência se suicida.” Se
concordarmos com este pensamento será difícil afirmar que há
livre-arbítrio no suicídio.
A preferência sexual e a “escolha do seu amor” são
determinadas por uma força natural irracional. Há uma atração
instintiva que não pode ser classificada como livre-arbítrio, tanto
na relação heterossexual quanto homossexual.
Em todas as nossas escolhas, a sua motivação mais
profunda é a busca do prazer. O “livre-arbítrio” é, muitas
vezes, determinado pela memória de um acontecimento prazeroso que
queremos repetir. Se alguém prefere manga à maçã é possível
afirmar que há “livre-arbítrio”? Não, as preferências
pessoais não podem ser classificadas como livre-arbítrio.
No alcoolismo a própria ciência médica reconhece que,
na maioria das vezes, há um componente genético que promove uma
compulsão ao álcool ou à droga. Não há, nesta situação,
livre-arbítrio.
O meu livre-arbítrio – estou falando de mim, agora -
somente existe em ações superficiais. Posso, agora, encerrar este
texto, desligar o computador e dar uma caminhada pela praia. Isto é
livre-arbítrio! Será?? E se eu for atropelado ao atravessar a rua?
O superego dirá que foi um acidente, uma fatalidade resultante do
meu descuido em atravessar a rua. O eu profundo lembrará um ditado
Árabe: “se Alá predestinou alguém a morrer num determinado
lugar, suscitará nele o desejo de viajar até lá.”
É certo que o livre arbítrio é limitado. Cada
indivíduo segue um destino incerto que pode ser modificado dentro
dos limites da sua natureza. A liberdade individual é exercida na
dependência da energia, da força da vontade. A força da vontade
resulta de um exercício de disciplina e esforço individuais que
canalizam a energia vital. Esta tem características próprias e
forma o caráter da pessoa. O Eu, portanto, é determinado pela sua
natureza. A sua liberdade está em agir de acordo com as energias que
o constituem e que determinam o seu destino. A única liberdade,
portanto, é ser si-mesmo. E este é o destino de cada um, que
independe do querer do Eu.
Onde você vê contradição, o que existe é uma
afirmação de que a experiência deve ser SELETIVA, guiada pela
nossa racionalidade e inteligência -podemos selecionar as
experiências que nos tragam prazer, desenvolvimento, crescimento:
Você parte da premissa de que o homem tem livre
arbítrio.Se o homem o tivesse, poderia selecionar as experiências.
Com estudos, observação e reflexão você perceberá que somente
existe o livre arbítrio para superficialidades, que querer não é
poder nos caminhos e descaminhos de uma vida. Observe!
O desenvolvimento pessoal, a evolução da vida e a
ampliação da consciência acontecem através da experiência
pessoal direta. Você pode escolher as experiências superficiais, as
básicas são determinadas pela sua natureza. Por exemplo, a mulher
da sua vida não é uma escolha do seu “eu”, mas da sua natureza.
A guerra não é uma escolha pessoal, mas uma
determinação da natureza individual. A vida não é movida pelo
querer do homem, mas pela força inconsciente do seu espírito.
A experiência, o estudo e a reflexão promovem o
despertar individual.
LOUCURA
Para
quem como eu se dedica a observar a vida, há coisas
extraordinárias acontecendo. Se não fosse a crise existencial
que virou a minha vida do avesso, eu não teria pesquisado,
observado e estudado para saber o que estava acontecendo com o
meu mundo interior. Descobri que conhecer a si mesmo é a mais
fantástica aventura do indivíduo, somente comparável
aos grandes descobridores e aos primeiros astronautas. Pensava
eu, seguindo o diagnóstico médico, que era um doente. Afinal
os distúrbios emocionais crônicos, a profunda dor moral, a
percepção da realidade sob ângulos não convencionais e a
amoralidade como valor, me levaram a aceitar o rótulo de doente
mental. Na realidade, aos poucos compreendi que eu sou uma
exceção. Não sou um homem comum, mas também não sou um
doente mental. O difícil é conviver em sociedade quando se é uma
exceção. Muito difícil não se é compreendido porque se tem
uma visão totalmente diferente da realidade e dos valores ocultuados
pela massa. Talvez a palavra "louco" seja a que melhor
defina essa situação. "Louco" para os medíocres, para o
homem comum, e "iluminado" para os sábios.
O
caminho da "loucura" não é uma escolha. Usamos os termos
"caminhos", "trilhas", porque são imagens que
também se adaptam à descoberta do mundo interior. Assim como
descobrimos, pesquisamos e estudamos o mundo externo e o nosso
semelhante, chega o momento em que somos voltados para o nosso mundo
interior. Sim, "somos voltados" porque poucas escolhas
livres são concedidas ao ser humano ter. O mergulho no mundo
interior é um processo que leva à "loucura" - uma
psicose, segundo os "especialistas" - ou à "iluminação",
segundo a ótica de sábios e místicos.
Se
nos orientarmos por "especialistas" viveremos o resto das
nossas vidas dopados e freqüentando analistas; se nos orientarmos
por sábios e místicos poderemos chegar à "iluminação"
ou seja, à plena consciência.
O
Código Civil Brasileiro dispõe que “estão sujeitos a curatela os
loucos de todo gênero” e determina que “o Ministério Público
só promoverá a interdição no caso de loucura furiosa” e que os
loucos são relativamente incapazes nos limites definidos pelo juiz,
depois de ouvidos profissionais. Esse é o aspecto legal.
A
maioria das psicoses apresenta algumas características da
esquizofrenia. Mas como “não existe um exame laboratorial que seja
capaz de identificar a esquizofrenia, o diagnóstico permanece
inteiramente dependente do julgamento clínico médico, através de
uma entrevista psiquiátrica cuidadosa com a pessoa e seus
familiares. Como não existem sintomas específicos da esquizofrenia
os médicos se baseiam em critérios diagnósticos.”
Ainda
não existe um exame laboratorial capaz de identificar a
esquizofrenia, a neurose crônica, e, parece-me a maioria das doenças
ditas mentais e, conseqüentemente, o indivíduo está entregue a um
critério médico subjetivo.
A
realidade percebida pela maioria da população – a visão mediana
- é definida como a única realidade, a única verdade.
Será
que cérebro e mente são a mesma coisa? A visão materialista afirma
que a mente é apenas uma função do cérebro, mas outros afirmam
que mente e cérebro são duas coisas diferentes. Quanto mais o
sujeito toma consciência de si mesmo,
Mais
percebe essas diferenças, entre si e os outros (já dizia Pascal que
“as pessoas comuns não acham diferença entre os homens”), e as
diferentes forças que movem a personalidade (será que isto é coisa
de psicótico?).
Tenho
consciência de que o cérebro é bastante parecido com um computador
que foi programado (condicionado) e que tem memória. Esta memória é
condicionada pelo passado, pelas pressões externas, pela sociedade e
modifica-se com o presente. Esse condicionamento do cérebro forma o
eu, a psique, o pensamento. O eu é condicionado, ele, portanto, não
é livre. O eu por ser condicionado não tem liberdade para
investigar de um modo imparcial.
A
intuição, a criatividade, a percepção, a compreensão profunda e
o amor incondicionado provêm da mente. A mente não é “minha”,
ela é universal ou geral, ilimitada e indivisa. Ela é impoluta; não
está contaminada pelo pensamento, pelo eu.
Esta
é a “consciência” que quero repartir com vocês e dizer que não
existe um doente mental, existe um doente da psique, um doente do eu.
Mas afinal, o que é “consciência”? A consciência pertence à
mente.
MEDO
O medo é a base de todos os problemas da existência
humana e a ignorância a causa de todos os medos.
MENTE
O
que é mente? Mente é pensamento, sentimento, vontade, desejo ou é
algo maior? Será que não é tudo isso mas com um potencial maior
que ainda não tem total consciência de si mesma? Será mente o
nous (espírito ou inteligência) formulado por Anaxágoras? Logos –
o Verbo, filho de Deus? A mônada de Leibniz? A semente de Deus de
Rudhyar? O eu profundo ou verdadeiro? A centelha divina? O corpo
espiritual das doutrinas esotéricas? O Universo não é a mente
geral - a realidade da qual se forma a mente individual? Se assim é
por que pensamos que o “eu” pode controlar a mente? Não foi o
homem que criou o “eu” (ego)?
A mente não é minha porque não foi criada por mim
como foi criado o eu. O eu é uma criação individual, uma “máquina”
de efeitos condicionados. Há um salto, uma transformação, quando
ocorre a profunda compreensão do condicionamento do eu. É uma
libertação. Nasce uma consciência capaz de perceber a divisão
entre sujeito e objeto e incorporá-los em uma mesma realidade. Ao
sentir a força e o poder da unidade, a mente é consciência.
Mente, consciência e cérebro são coisas distintas.
“A consciência não é um resultado secundário
(epifenômeno) da atividade cerebral. Isso vira o ponto de vista
materialista (newtoniano) de cabeça para baixo. O problema desse
ponto de vista é que se começa com partículas produzindo átomos,
átomos produzindo moléculas, moléculas produzindo neurônios,
neurônios produzindo o cérebro e o cérebro produzindo consciência.
Esta visão transforma a consciência em um objeto, apesar de que os
objetos fazem parte da experiência da nossa consciência, e não só
eles mas o todo. O enfoque convencional não consegue incorporar essa
duplicidade do sujeito e objeto e perceber a unidade”(1).
Consciência é uma qualidade do eu ou da mente. A consciência do eu
é formada por ilusões.
A mente começa a revelar-se quando mergulhamos em nós
mesmos e atingimos outros níveis de percepção. Os fenômenos
paranormais e as curas “milagrosas” são efeitos da mente.
“Toda
criatividade é mental. É a mente que processa os significados. Para
os cientistas, a mente é um fator secundário do cérebro. Se assim
fosse, então a criatividade não existiria, porque o cérebro não
pode processar o significado. O que a criatividade pode fazer à
nossa volta é nos ajudar a ver um sentido novo naquilo que todos
vêem como algo comum.”(1)
O conhecimento intelectual - a erudição - é
informação. Esta é superficial. Nós precisamos de transformação.
É necessário entrar no mundo interior para experimentar o
extra-ordinário. Este salto não é dado pela força da vontade,
por drogas alucinógenas ou pela auto-hipnose. É um caminho
individual, uma necessidade interior, um despertar que não é
promovido pelo eu (ego).
Eu não estou seguindo ou formando teorias sobre o “eu”,
eu estou descobrindo, através do autoconhecimento, quem, ou o que, é
o “eu”.
Quem sou “eu”, o “eu” que “eu” conheço? Por
exemplo, “eu” sou José. Este José começou a formar-se desde a
concepção, nas relações com a sua mãe e também já com o seu
meio. O José desde o ventre materno começa a formar a consciência
da sua realidade com a descoberta do mundo à sua volta. Este
relacionamento instintivo do José com o seu mundo através das
percepções sensoriais vai criando o seu “eu”. Crescendo,
estudando, seguindo exemplos e aprendendo, forma-se a consciência do
“eu”. Perceba que o “eu” é criado através de reflexos
condicionados. O condicionamento torna o “eu” um robô que vive
repetindo verdades que aprendeu, sejam religiosas, filosóficas,
morais ou éticas. Este “eu” chamamos de ego. Este “eu” é
José.
Ao mergulharmos dentro de nós mesmos, começamos a
identificar o “eu” e as demais forças que movem o ser humano.
Vontade, pensamento, sentimento, desejo, razão e, principalmente,
aquelas que o “eu” através da razão e da vontade não consegue
compreender ou controlar. São as forças naturais e “irracionais”
que levam à transformação. Que transformação? A capacidade de
perceber o “eu” e ver o mundo sob outros ângulos, descobrindo
realidades que fogem do ordinário, do normal.
O “eu-ego” não consegue ver a si mesmo. Somente um
“não-ego” que esteja “fora” conseguirá percebê-lo e
compreendê-lo. Este não-ego chamamos de eu-profundo, eu-verdadeiro,
Logos, e também de mente. A consciência do eu-ego é formada pela
lei da causalidade que acontece no tempo e no espaço. A mente está
fora desses limites.
Então coisa primeira não é o “eu” mas a mente
inconsciente. A mente é a coisa em si, o “eu-ego” e o corpo
físico é um fenômeno que acontece no tempo e espaço. Criado e
aperfeiçoado o “eu”, a pessoa pode entrar numa crise existencial
que representa o despertar da mente. Amplia-se a consciência e o
“eu-ego”, aos poucos, passa a ser totalmente dominado pela
mente (Logos). A força da vontade já não lhe pertence mais.
Fala-se de sua “morte” (crucificação).
Há de observar-se, ainda, que o “eu-ego” morre com
o corpo físico porque com ele foi criado.
Para a compreensão desse processo devemos afastar
qualquer crença ou conceito de Deus. A Bíblia (Novo Testamento)
está repleta de citações sobre essa autotransformação, este
renascimento.
(1) Amit Goswami – físico quântico. Revista Planeta
– Edição 335.
MORAL E ÉTICA
Numa abordagem superficial as palavras ético e moral
podem ser consideradas sinônimos, com a única diferença de que a
primeira vem do grego e a segunda do latim. No uso diário ética e
moral se confundem embora moral esteja mais relacionada com os
costumes de determinado grupo social e a ética represente valores
universais.
Numa visão mais profunda chamamos de Moral os valores
consuetudinários de determinado povo ou civilização que se dividem
entre certo e errado, moral e imoral - aqui incluídos a virtude, o
altruísmo e seus sinônimos. Homens bons e homens maus são
definidos pela moralidade. Homens viciosos e homens virtuosos
pertencem ao mesmo mundo, o mundo onde reina o egoísmo, o mundo da
Moral e do Direito. A ética está no nível da Consciência, da
sabedoria. Para a ética o homem não é bom nem mau, nem vicioso ou
virtuoso, ele é somente um ser humano com todas a complexidade e
dificuldades que são comuns a todos.
O comportamento moral e ético do povo brasileiro - com
as exceções que confirmam a regra - é esse. Esta é a realidade
brasileira. Gostamos de dizer que os estrangeiros tem uma imagem
deformada do Brasil mas a imagem que projetamos é aquilo que somos.
O corporativismo é uma realidade que está em todos os segmentos da
sociedade, não é um privilégio dos políticos. Sempre procuramos
encontrar o inimigo público número um - o dos nazistas eram os
judeus . Os políticos são simplesmente os representantes do povo.
Só isto. Sob o seu ponto de vista eles não tem ética nem moral,
são corruptos, venais, etc. etc.. mas eles simplesmente seguem a
ética e a moral do grupo social que eles representam. De quatro em
quatro anos o povo tem a opção de substituí-los e, geralmente,
essa troca chega a 50%... mas a m... continua a mesma. Num país de
analfabetos e semi-anafabetos, queremos o que? Se eu e você
estivéssemos no poder talvez fôssemos piores... segundo o ponto de
vista do povo.
MORALIDADE
“Façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”.
É o ideal que se confronta com a realidade. “Façam o que eu digo”
é o ideal, “o que eu faço” é o real. Todos somos
especialistas em dizer o que o outro deve fazer. Por isto é
impossível viver em sociedade sem máscaras. É impensável a vida
em que os nossos pensamentos e desejos mais íntimos fossem públicos.
As máscaras mostram um ser humano ideal numa sociedade ideal.
A razão e o ideal caminham juntos porque o ideal é um
modelo construído pelo intelecto. O conflito entre o real e o ideal
é a grande luta, a base que irá formar a moral. O ideal é a
máscara sob a qual repousa o real. É a única forma de convivência
social que o homem encontrou. Mas as regras morais são necessárias
para aqueles que vivem na inconsciência e, por isto, incapazes de
viver em sociedade sem as amarras que as normas impõem. O homem
consciente é amoral.
MORTE
A morte, muitas vezes, parece brincar. Algumas vezes
escapamos dela milagrosamente mas podemos morrer bestamente. Há
aqueles que morrem na hora certa, no auge da sua vida, da fama, do
sucesso e viram nome de rua, de praça. Outros morrem na hora errada,
quando estão no fundo do poço, esquecidos de todos. Parece que a
morte é uma escolha inconsciente. Acidentes mortais e doenças
fatais, de acordo com pesquisas realizadas, estão relacionados como
formas de suicídio inconsciente. Na verdade, há quase uma
unanimidade entre os estudiosos da psique, de que parte do
inconsciente a força motriz das nossas motivações e ações. A
morte é, na verdade, o repouso, o descanso, a noite que vem depois
do dia. A imortalidade, se existisse, seria uma maldição. A
maldição que acompanha os vampiros.
Estou ouvindo Das Lied vom Tod (a canção da morte).
Uma música suave e sentimental. Um sucesso do momento na Europa. A
morte me lembra descanso, harmonia, integração no todo, a volta à
terra. Segundo a teoria da evolução das espécies nós somos filhos
da terra, e à ela retornamos. Simples, claro e objetivo. Criamos a
Filosofia, a Teologia e as religiões, fundimos neurônios tentando
encontrar respostas para quem somos, de onde viemos e para onde
vamos. Nos julgamos deuses e por isto criamos um Deus à nossa imagem
e semelhança. Queremos um ego eterno com felicidade eterna. O Mal
que nos aflige, todos sabemos, é o intelecto, a inteligência.
Esquecemos de observar e de compreender que as coisas são simples, a
vida é simples. Quanto mais forte o ego mais medo temos da morte.
Spiel mir das Lied vom Tod. Uma bela
música.
Sabemos,
com certeza, que no universo tudo se transforma, e a morte, portanto,
é uma transformação. Retornar ao seio do Pai ou da Mãe, ou seja,
do Uno, não me parece algo difícil de aceitar para quem vive
conscientemente, isto é, quem não deixa para amanhã o que pode ser
feito hoje.
É preciso acrescentar algo muito importante: o
desapego. É importante observar que o desapego não é algo que se
cultive, algo que exija esforço, algo que resulte do querer. Sabemos
nós que no plano do espírito não domina a vontade. A vontade
pertence ao ego. No plano do espírito domina a necessidade e o
aprendizado consciente. O desapego é um aprendizado que exige tempo
porque ele resulta da experiência, ele faz parte da consciência, do
amadurecimento do ser. Mas é importante observar que isto muda de
pessoa para pessoa. Algumas são naturalmente possessivas e morrerão
possessivas. Isto me leva a outro pensamento: o da reencarnação.
Pelo processo de reencarnação o sujeito teria várias vidas para
desenvolver todas as possíveis experiências humanas e assim atingir
a totalidade. É uma teoria em que muitos acreditam. Embora muitos
digam que não se pode misturar religião, ciência e filosofia, eu,
pessoalmente, tenho uma visão holística da realidade.
A Ciência é a base para qualquer tentativa séria de
identificar a realidade e conhecer a si mesmo. A Ciência trabalha
com o mundo observável que pode ser medido e experimentado: o mundo
externo ao sujeito. A Psicologia, a Religião e as ditas “ciências
ocultas” têm como objeto um outro mundo: o mundo interno do
sujeito. Disse Jesus sinteticamente: o meu reino não é deste mundo
(muitos pensam que o reino de Jesus ou de Deus é o destino do
sujeito depois da morte. Isto é, morre-se e o espírito vai para o
reino de Deus e, sendo julgado, pode ser mandado para o inferno).
Jesus disse, também, que o reino de Deus está dentro de cada um. O
Reino de Deus é o mundo interno, subjetivo, do sentimento. Então há
o mundo externo que é o objeto da Ciência; o mundo interno que é o
objeto das religiões, da Psicologia e das ciências ocultas; para
completar há a Filosofia: Estudo geral sobre a natureza de todas as
coisas e suas relações entre si. O sujeito, se desenvolver o
conhecimento dessas três áreas, passa a ter uma visão holística
da realidade.
Estava escrevendo sobre a teoria da reencarnação. Numa
visão holística, a reencarnação, na forma como é enunciada, não
existe. O Karma não existe. O que existe é a herança genética.
Cada indivíduo é o resultado final de uma “linha de produção”,
de um sistema tão complexo que não sabemos se em algum dia a
ciência o poderá determinar. Dizem, por exemplo, que os irmãos de
Beethoven, o maior gênio musical de todos os tempos, eram retardados
mentais. Não precisamos ir longe, como dizem, para identificar
diferenças incríveis entre irmãos. Um gênio é um produto da
natureza, uma exceção no meio da mediocridade e somente isso.
Cada indivíduo é o resultado de um encadeamento
genético que tem as suas origens nos seus antepassados. Conhecer os
seus antepassados é básico para o conhecimento de si mesmo. Cada
sujeito é único e um todo onde convivem o Reino da Ciência e o
Reino de Deus. Este sujeito irá retornar à mãe Terra de onde
nasceu. É o que sabemos.
A morte, para o Ego, significa o fim. Sim, a morte
térmica é o fim indiscutível do Ego. Mas nem todos pensam assim,
nem todos os Egos conseguem imaginar o seu fim. Por que as religiões
fazem tanto sucesso? Porque elas afirmam que o Ego é imortal. Ele
sobreviverá num céu ou inferno eternos segundo os católicos;
reencarnará segundo outras. Elas não provam nada, apenas exigem a
fé, e os Egos acreditam. Então, por via de dúvidas, a nossa
civilização, com o apoio das religiões – algo que não consigo
compreender: se, segundo elas o Ego é eterno por que o temor da
morte? – fazem tudo o que está ao seu alcance para prolongar a
vida (vejam que o Império em guerra não mais coloca seus soldados
em risco de vida - a sua tecnologia militar permite fazer isto -:
somente o inimigo deve morrer). A vida é o bem supremo. Faz-se de
tudo para preservar a vida do Ego como se homem tivesse poderes sobre
a vida e a morte. Nascer, crescer, amadurecer e morrer é uma regra
que se aplica a poucos. Dos que nascem vivos, quantos chegam aos
cinqüenta anos?
O Ego
tem medo da morte porque sabe instintivamente que este será o seu
fim. Viver pelo espírito é não deixar para amanhã o que pode ser
feito hoje. Viva total e intensamente o agora, de tal forma que nada
sobre para ser vivido. Afinal, a qualquer momento, com toda a
certeza, a morte baterá à sua porta.
MUNDO
O mundo sensível e o mundo das idéias. Os filósofos,
de um modo geral, continuam a ser fiéis discípulos de Platão. O
mundo das idéias fascina e, observamos, condiciona o pensamento de
muitos. O
mundo das idéias formulado por Platão está em oposição ao mundo
sensível dos sofistas. São duas formas de "ver" a
realidade. A partir do momento em que eu afirmo que a experiência é
a base do saber, eu estou privilegiando o mundo sensível. Este não
tem espaço no mundo de Platão. Toda a minha argumentação tem como
base a experiência de vida - o mundo sensível - e, por isto,
identifico-me com Kant, Nietzsche, Jung, etc.
Cada
pessoa vê a coisa de uma forma peculiar e pessoal. De forma natural,
uma pessoa, por exemplo, pode ver a rosa objetivamente: uma rosa,
vermelha, num jardim; outra vê uma rosa, bela, vermelha, com todas
as lembranças emocionais que ela traz: a mãe podando as rosas no
jardim, o espinho que lhe tirou uma gota de sangue dos dedos, a rosa
que ofereceu à sua primeira namorada, o perfume, etc. Ele ama ou
despreza a rosa de acordo com as experiências que ele teve com a
rosa. Ele “vê” a rosa subjetivamente. Outro pode ver, ainda, a
rosa de forma objetiva e subjetiva. Assim é o homem que vê a rosa.
A beleza, portanto, não está nela, mas naquele que a vê.
O
homem, entretanto, “é” a medida de todas as coisas (Protágoras).
Werner Heisenberg - Prêmio Nobel de Física e um dos expoentes da
mecânica quântica - afirma: “Inclino-me a dizer que a ciência
da natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma
parte do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso
também uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo. Por
conseguinte nós mesmos não podemos excluir-nos dela... Já não
podemos projetar os fenômenos totalmente no exterior, e nem podemos
objetivá-los completamente, mas apenas falar do mundo que o homem é
capaz de conhecer.” (Pasolini, Piero, A unidade do cosmo, Ed.
Cidade Nova, São Paulo, 1988).
O
mundo sensível nos mostra que “o observador faz parte essencial
do fenômeno observado” ; “a beleza não está na flor mas
naquele que a vê”. Podemos afirmar então que só existe uma
verdade: a verdade individual (voltamos a Protágoras). Mas existe
alguém que conheça a sua verdade? Por acaso as nossas verdades não
são somente cópias de verdades alheias? Adotamos pensamentos,
idéias, filosofias e crenças e as repetimos como verdades.
Pensamos estar com a verdade porque muitos a repetem. Robôs!!! O
despertar da mente é uma luta contra as ilusões. Ilusões formadas
pela crença em idéias transmitidas por pessoas que elegemos como
“autoridades”: religiosos, filósofos, cientistas ou livros
chamados sagrados. Que tal descobrir a nossa verdade?
Observo
como os filósofos, candidatos a filósofo e religiosos de todos os
naipes procuram provar a existência de Deus. Todos os argumentos
racionais e lógicos em todas as variações são utilizados para
convencer a si mesmos a aos outros sobre a existência de Deus, do
demônio, de anjos e outros habitantes celestiais e infernais. Livros
ditos sagrados, revelações e sábios antigos são os mais citados.
Mas há também aqueles que, através de provas matemáticas e da
informática, dizem poder provar a Sua existência. Mas apesar de
todas as provas que dizem ter ninguém jamais os viu a não ser em
sonhos ou na imaginação.
A
razão e a lógica tratam do mundo objetivo, do mundo que está fora
do ser humano. A idéia, o pensamento, somente tem validade quando
não está contaminado pelo subjetivo, pelos sentidos, pelo
sentimento, pelo mundo interior. A inteligência que dá o suporte
para a razão e a lógica, não sem motivos, também é chamada de
Lúcifer: portador da luz para uns e príncipe dos demônios para
outros.
Quando
o sujeito compreender que ele vive em dois mundos que se interligam,
o mundo exterior e o mundo interior; quando o sujeito for capaz de
explorar e descobrir esses seus dois mundos; quando o sujeito começar
a construir a ponte entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo;
quando o sujeito começar a perceber a unidade, ele começará a
encontrar a Verdade.
NIETZSCHE
Nietzsche
não é um autor difícil. É o estilista mais latino e mais claro da
língua alemã. A sua prosa é a do grande poeta que era. Exprime com
igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães, a claridade
irônica dos latinos, o grande “pathos” da Bíblia; a sua língua
soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos, como as
canções, ébrias de luz, dos provençais, e, às vezes como
versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente. Mas é
sempre clara, bastante clara para esconder sob a virtuosidade dos
meios estilísticos as contradições internas. Nietzsche é o último
filho da “velha Alemanha ” humanista, filho espiritual de Goethe
e Hölderlin, e, ao mesmo tempo, profere fanfarronadas de uma ébria
vontade de dominação, que se perderam no reino sóbrio de Bismark,
e só mais tarde tiveram eco. Nietzsche é um inimigo mortal dos
alemães – a expressão “bom europeu” é dele – e, ao mesmo
tempo, proclama o individualismo germânico, o amoralismo bárbaro
dos gigantes da Edda. Nietzsche foi o inimigo mais furioso que o
cristianismo jamais teve. E todavia esse filho de gerações de
pastores luteranos sofre intimamente de conflitos religiosos e é,
afinal, um cristão pascaliano. Karl Jaspers chama à obra de
Nietzsche “um campo de ruínas, coberto de destroços
contraditórios”. O único laço que lhes dá coerência é a
paixão intelectual de Nietzsche, que lembra as personagens de
Dostoiésvski; é a sua personalidade, agitada nas profundezas da
existência humana, o lanço apaixonado de toda a sua personalidade,
o que faz da sua loucura a sua obra máxima. Lembra a verdade dos
antigos – que os poetas são uns delirantes. Friedrich Nietzsche
era um poeta. (Otto Maria Carpeaux.)
NOVO HOMEM
Características do novo homem:
- A vida é movida pelo amor, harmonia e liberdade.
- O relacionamento com o Universo que o cerca é feito através da intuição, do bom senso e do sentimento do Amor.
- Tem uma visão holística, uma compreensão do todo, do conjunto.
- Vive segundo o princípio de que tudo tem o seu tempo e cada coisa a sua hora.
- Nas relações pessoais é tolerante, não julga e não têm preconceitos.
- Vive o aqui, o agora e a não-escolha. Está aberto ao novo porque sabe que as certezas de hoje podem estar superadas amanhã.
- Não é movido pela fé mas sim pelo saber.
OBSERVADOR,
O
Niels
Bohr propõe que somente existe o fenômeno porque há um observador.
Heisenberg afirma que o observador faz parte do fenômeno observado.
Aqui temos a consciência individual. A consciência não é
comprovada cientificamente. Se provarmos a existência da consciência
individual, provaremos a existência da consciência cósmica - Deus.
Como a consciência pertence ao mundo subjetivo eu posso saber se
tenho consciência. Se eu tenho consciência eu sei o que é Deus,
independentemente da comprovação científica ou da fé.
Observar com o pensamento e o coração, com os sentidos
e a intuição. Observar a si mesmo, profundamente, até poder dizer:
começo a conhecer-me. Poderá haver algo mais nobre e mais
fantástico do que conhecer a si mesmo? O que eu escrevo, por
exemplo, é meu ou simplesmente a repetição de idéias alheias?
Quando muito lemos e estudamos determinado pensador começamos a
escrever e a falar as suas verdades (dele) como se fossem nossas. Até
o seu estilo chegamos a usar. Há pessoas, por exemplo, que de tanto
lerem Krishnamurti, repetem em seus textos até o estilo desse
pensador. Muitas vezes, estão tão condicionadas que escrevem os
mesmos pensamentos complexos daquele mestre mas sem os compreenderem.
É muito difícil nos libertarmos dos condicionamentos.
Às vezes, surgem idéias que pensamos ser nossas mas que foram
absorvidas por estudos e leituras anteriores. Mantiveram-se no
inconsciente até a ocasião oportuna. Se observarmos com atenção,
não há idéias ou pensamentos originais na nossa civilização.
Parece que os gregos disseram tudo o que havia para ser dito. Será
que eles foram originais? Também não o sabemos porque não temos
registros anteriores. Mas considerando-se que a sabedoria é um
conhecimento progressivo, que se transmite de geração para geração,
a filosofia grega representa um apogeu do pensamento.
Mas,
talvez, consigamos chegar ao ponto de, colhendo as informações
necessárias, ter uma compreensão da nossa realidade pessoal: ver o
mundo com os nossos olhos e não com os olhos dos outros.
PAIXÃO
“o grande homem é grande, quando é suficientemente
forte para fazer das paixões os seus animais domésticos”(Nietzsche).
PENSAMENTO
O pensamento do homem sábio está em constante
evolução. Ele não tem compromissos com as suas idéias de ontem.
Este homem não tem o apreço nem a confiança da massa nem dos
intelectuais porque a razão exige coerência, objetividade,
estabilidade, constância. É a subjetividade, o sentimento que tem
as características de instabilidade, de desenvolvimento, de
evolução. A razão pura é estéril. O pensamento lógico somente
evolui pela força do sentimento porque este é formado pelo
instinto, pela intuição e pela experiência direta.
PENSAR E SENTIR
Há aqueles em que está mais desenvolvida a faculdade
de sentir (intuição) e por isto "sentem" o mundo. Outros,
porque está mais desenvolvida a faculdade da razão, do pensamento,
"pensam" o mundo. São duas faculdades inatas e distintas
de ver a realidade que estão mais, ou menos, desenvolvidas em cada
pessoa. Fernando Pessoa "sente" o mundo: "Sentir é
compreender. Pensar é errar. Compreender o que outra pessoa pensa é
discordar dela. Compreender o que outra pessoa sente é ser ela."
E Julius Evola: "Conhecer, para nós, não significa "pensar",
mas ser aquilo que se conhece, vivendo-o, realizando-o. Não se
conhece verdadeiramente uma coisa enquanto não se pode transformar a
consciência nela."
"Pensar" o mundo é vê-lo através da razão
e da lógica. É uma forma abstrata composta por idéias e conceitos
objetivos. As experiências de vida são orientadas pelos fenômenos
objetivos tanto na forma de fatos concretos, como de idéias gerais.
Predomina a amplitude do conhecimento.
"Sentir" o mundo é recolher os fatos apenas
como evidência para suas próprias hipóteses e não em benefício
dos próprios fatos. O modelo vem de dentro, da experiência de vida,
da intuição (inconsciente) e é, portanto, puramente subjetivo.
Predomina a profundidade em detrimento da amplitude.
A comunicação entre aquele que "sente" e
aquele que "pensa" o mundo é naturalmente difícil. A
palavra é uma idéia, uma imagem que no primeiro está minimamente
(?) "contaminada" pelo subjetivo, ao passo que no segundo a
palavra é uma imagem com significado subjetivo.
Observa-se que em Nietzsche está desenvolvida a
faculdade de sentir o mundo e, por isto, muitos filósofos o chamam
de Poeta. O mesmo ocorre com Rajneesh e por isto tão incompreendido
pelos racionalistas. Huberto Rohden também "pensava" e
"sentia" o mundo. Nas suas obras iniciais revela-se o
filósofo, o pensador, mas na final de sua vida revelou-se aquele que
"sentia" o mundo.
Se você não concorda ou tem dificuldades em
compreender-me é porque você "pensa" e eu "sinto"
o mundo.
PERDÃO
Orgulho, arrogância, culpa, perdão... este é o mundo
do egoísmo, da consciência do ego. Precisa do perdão quem se sente
culpado. É uma reação condicionada: a falta gera a culpa que
precisa do perdão. Podemos afastar-nos dessa guerra de egos ou,
então, usar as mesmas armas ou a indiferença, embora perdão não
seja algo que possa ser dado pelo outro, perdão é algo que se dá a
si mesmo. Tomando consciência dessa realidade podemos avançar no
processo de desenvolvimento pessoal.
O perdão faz parte do jogo de poder. Dá o perdão o
superior, o Senhor, o vencedor; pede perdão o subordinado, o servo,
o derrotado.
PERSONALIDADE
Personalidade é a organização integrada por todas as
características cogniscitivas, afetivas, volitivas e físicas de um
indivíduo, tal como se manifestam.
PRAZER
Causa do prazer não é a satisfação da vontade:
contra esta superficialíssima teoria, em particular, quero bater.
Absurda falsa-modelagem das coisas próximas...o sentido de prazer
está precisamente na insatisfação da vontade, em que, sem limites
e resistências, ela não está ainda suficientemente
satisfeita....Poder-se-ia talvez designar o prazer em geral como um
ritmo de pequenos estímulos desprazeirosos...Na medida em que toda
força só se pode desafogar naquilo que a ela resiste, em toda ação
há necessariamente um ingrediente de desprazer. Apenas que esse
desprazer atua como estímulo da vida: e fortalece a vontade de
poder.(Nietzsche). O
prazer move o ser humano. Vive-se por prazer e morre-se quando não
há mais o prazer de viver. Mas a sensação do prazer mede-se pelo
seu oposto, a dor. A vida, então, move-se, numa compensação, entre
o prazer e a dor. Uma vida sem dor, portanto, é uma vida sem prazer
e vice-versa. O esforço, o trabalho e o sacrifício de pequenos
prazeres são necessários para que se obtenha um grande prazer. É
um aprendizado. Afirma Nietzsche que o verdadeiro prazer consiste em
estimulá-lo e não em satisfazê-lo. Este também é o princípio do
Tantra. Observamos que a satisfação quando existe é momentânea e
sempre se buscará a sua repetição ou ampliação. Por outro lado,
uma das características do prazer é a singularidade. Cada indivíduo
tem a sua fonte de prazer; o que pode ser prazeroso para um não o é
necessariamente para o outro.
“O gosto capitoso do poder” canta o poeta. O poder embriaga, mas acima de tudo o poder dá prazer. A vida do Ego é um jogo de poder. Muitos sacrificam tudo, absolutamente tudo, por este prazer. Na verdade, ele alimenta-se do poder. A luta entre Egos é uma luta pelo poder. Poder que sobe à cabeça, que entontece, que embriaga e que, muitas vezes, é a sua ruína.
PRECONCEITO
Mas não podemos esquecer que o preconceito também está
na cabeça daquele que vê preconceito. Nós projetamos nos outros o
que nós somos. No julgamento que emitimos a respeito dos outros,
revelamos involuntariamente nossos próprios defeitos: simplesmente
culpamos o outro de todas as nossas próprias faltas que não temos
coragem de confessar. Enxergamos todos os defeitos nos outros,
criticamos sempre o nosso semelhante e queremos sempre educá-lo e
corrigi-lo. Não é nada fácil assumir, por própria conta e risco,
todas as baixezas e perversidades de que não hesitamos em julgar
capazes os outros e contra os quais nos sentimos indignados durante
uma vida inteira. A existência real de um inimigo sobre o qual se
podem descarregar todas as nossas maldades, constitui um inegável
alívio para a consciência. A partir dessa constatação surge uma
pergunta interessante: seriam os "grandes" moralistas, os
religiosos fanáticos, os piores de todos?
PRISÃO
Somente está preso aquele que tem consciência da sua
prisão. Muitos dormem e nada sabem. Cada indivíduo tem uma cela
especial com o formato de sua própria personalidade. O conhecimento
dos segredos da própria cela e os labirintos do presídio são
necessários para perceber-se que a fuga é impossível. O desejo da
fuga - a vontade de poder – levam, aos poucos, à tomada de
consciência de que as grades da prisão são formadas pela sua
consciência e pelas limitações da sua humanidade.
A prisão é composta de limitações. Ela é do tamanho
das forças – energia, vontade - que compõem a minha natureza
individual. Não serei um filósofo se não tenho a capacidade
natural de “navegar” pelo mundo das idéias; não serei um
artista se não tenho o dom de expressar a arte; não serei um líder
se não tenho a força da liderança. Dizem alguns que os nossos
limites são os nossos sonhos; outros, que somos aquilo que pensamos.
Tudo, entretanto, é relativo e incerto.
RAZÃO
faculdade espiritual própria do homem, e pela qual ele
chega à concepção das idéias universais, como sejam da unidade,
de identidade, de causa e de substância.
Se
ficamos no campo da razão pura, - Kant, novamente - , observamos que
os juízos se contradizem em teses e antíteses, sem que uma ou outra
apresentem falhas lógicas de raciocínio.
RAZÃO
E SENSIBILIDADE
Afirma o filósofo e físico L.L. Whyte que a tradição
intelectual do ocidente foi marcada por aquilo que ele chama de
"dissociação". Desde Platão, a dissociação entre o
corpo e a mente, a personalidade e a natureza, o intelecto e o senso
do sentimento e da intuição, tem impregnado toda e qualquer
abordagem da vida, adotada pelo homem ocidental: intelectual,
religiosa, econômica e política. Normalmente as raras exceções a
esta tendência tem sido os poetas, os místicos e outros que estão
situados na periferia da vida sócio-cultural.
Continua Whyte:
"Se a natureza, no todo, é um grande sistema em
perpétua transformação e desenvolvimento, a tentativa de isolar
qualquer parte está destinada ao fracasso. Em particular, a
separação do homem, como dependente, do campo da natureza objetiva,
cega-o para a forma de vida apropriada para ele. O homem só pode
compreender-se plenamente fundindo o conhecimento objetivo, obtido
através da observação da totalidade da natureza orgânica, com o
conhecimento subjetivo, de experiência individual. Isso pode trazer
uma nova tranqüilidade e auto-aceitação, uma simplicidade baseada
no conhecimento. Os preconceitos negativos da moralidade convencional
são substituídos por um entusiasmo positivo pela vida em
desenvolvimento.."
Stephen Arroyo observa que Blaise Pascal, além de
outros, negou que o mundo e, especialmente, o homem pudessem ser
verdadeiramente compreendidos por meio da análise racional. Ele
afirmou que a intuição, isto é, ver através da superfície das
coisas e penetrar no seu mistério essencial era, fundamentalmente, a
chave para se compreender o homem e o mundo.
As grandes escolas de mistério da antigüidade
ensinaram que a consciência humana só é limitada pelas fronteiras
intelectuais arbitrárias que ela impõe a si mesma.
A contribuição dos gregos não se limitou à
descoberta de certas leis naturais em atividade no mundo material;
ela também se estendeu até os domínios da vida e do
desenvolvimento interior do indivíduo. "Conhece-te a ti mesmo"
foi a idéia-chave básica para o desenvolvimento da filosofia grega.
Formava-se a "sabedoria" através da pesquisa sistemática
em busca das verdades "essenciais", ocultas sob a vida e a
natureza e uma tentativa de descobrir não só as leis "naturais",
mas também as leis metafísicas universais e da própria vida.
O intelecto é principalmente vantajoso para a
utilização do mundo exterior, material. Mas até agora a aplicação
de uma análise puramente intelectual para se chegar à compreensão
do mundo interior da experiência, não tem sido capaz de provar ou
desaprovar coisa alguma acerca das questões fundamentais filosóficas
ou religiosas, da vida, que formam a base da estrutura psicológica
de qualquer pessoa. Há um máximo de abstração com um mínimo de
significado. O que o homem precisa é de significado. O significado,
entretanto, vem de dentro, não de fora. O mundo não pode ser visto
somente como físico, abstrato, objetivo - uma individualidade
separada, absolutamente impessoal. "O mundo pessoal, o único
que cada um de nós conhece realmente, é o mundo pintado com as
tonalidades de todos os nossos significados pessoais", conclui
Arroyo.
O filósofo que não consegue ter uma compreensão
holística do mundo e da relação de si mesmo com este mundo é
meio-filósofo; aquele que ainda se refugia no mundo etéreo das
idéias e da objetividade em busca da Verdade, nunca chegará à
"sabedoria" - não saberá o que é "philosophia".
REALIDADE
Real é o mundo interior, REAL é a visão que você
tem do seu mundo e de si mesmo. O real é subjetivo - o observador
faz parte essencial do fenômeno observado. O homem massa vê esta
realidade de forma distorcida, ele não consegue distinguir com
nitidez o que é real e o que é ilusório. Com base na Psicologia,
na Mecânica Quântica, na experiência e observações pessoais,
penso que não existe a realidade objetiva. Ela é somente uma idéia.
Aquele que tem consciência está "na real".
Consciência é a base do ser. Consciência se adquire com a atenção,
com a observação e com a reflexão. O real é aquilo que tem um
significado subjetivo.
Observe! A beleza não está na flor mas no observador.
O que é real?
O real e o abstrato; o real e o ilusório; o verdadeiro
e o falso; o objetivo e o subjetivo.
Seria a objetividade o resultado da compilação ou
combinação de todos os possíveis pontos de vista subjetivos?
A verdade que se sente; a verdade que nos é dita; a
verdade que você acredita, a verdade que se percebe através dos
sentidos.
Qual é a verdade?
Para Kant o conhecimento começa com a experiência, mas
nem por isso origina-se nela. A experiência pressupõe o sujeito
como condição de sua possibilidade, sem o que a palavra
"experiência" nem teria sentido. O sujeito, então, deve
apresentar capacidades ou faculdades que possibilitem a experiência
e o próprio conhecimento. A primeira é a sensibilidade definida
como a capacidade (receptividade) de obter representações mediante
o modo como somos afetados por objetos. O conhecimento vem da
percepção do objeto e dos conceitos, com as quais as representações
são pensadas.
C. G. Jung, por outro lado, percebeu que cada sujeito
tem capacidades ou faculdades individuais próprias, e por isto cada
sujeito é afetado pelo objeto de forma peculiar. Definiu os tipos
psicológicos e as diversas formas com que cada tipo forma a sua
consciência.
Werner Heisenberg que participou das "dores de
parto" da teoria dos "quanta", percebeu que a
distinção que Descartes fazia entre sujeito e objeto -
compartilhada por Einstein - em que o cientista tratava do mundo
objetivo, e que neste mundo objetivo tudo devia acontecer segundo um
determinado programa que podia ser expresso matematicamente,
simplesmente não era possível. Segundo Heisenberg a ciência da
natureza não é uma explicação do mundo objetivo, e sim uma parte
do jogo recíproco entre o mundo e nós mesmos: e por isso também
uma parte da linguagem com que nós falamos do mundo. Por
conseguinte, nós mesmos não podemos absolutamente excluir-nos dela.
Já não podemos projetar os fenômenos totalmente do exterior, e nem
podemos objetivá-los completamente, mas apenas falar do mundo que o
homem é capaz de conhecer.
Estudos sobre o cérebro tem demonstrado que embora
nossas impressões sejam bastante semelhantes a determinados aspectos
da realidade externa, nada podemos falar sobre uma realidade
objetiva. Criamos nossas cidades com o trabalho das mãos, mas as
vemos segundo os caprichos do cérebro. No grande teatro da vida,
vemos apenas as peças que as células do cérebro decidem
representar. O cérebro cria suas próprias realidades.
O que é real?
REBANHO
Não há
um código geral - cada um tem o seu código secreto - mas
quando estamos no rebanho acreditamos que somos todos
iguais, somos todos filhos de Deus. Essa igualdade torna a vida fácil
e confortável, pois basta seguir as regras que são
gerais. Para todas as dificuldades há soluções. Se você não
cumpre as regras você vai preso, se é louco vai para o manicômio
com camisa de força e lá será mantido dopado, se está doente do
pé vai para o hospital. No rebanho há solução para tudo. Você
estará amparado pelo grupo.
Mas a ovelha que foge do rebanho por uma
necessidade instintiva é porque não suporta a mediocridade e a
mesmice. Ela precisa descobrir o seu código secreto, a sua
verdadeira identidade, pois sabe que não é igual aos demais.
Aventurar-se num universo desconhecido, só, consigo mesma, não é
tarefa para uma pessoa comum. Atravessar o deserto com os seus
mistérios, perigos e miragens "só com a roupa do próprio
corpo", sem ter uma mão amiga para segurar; adentrar no
desconhecido, no mundo das sombras tendo como única companhia a
vontade de chegar, sem saber aonde. Retornar ao rebanho depois de
tudo o que descobriu, depois de tudo o que sabe? Será possível?
Quem está descobrindo o seu código secreto começa a ter luz
própria. Quem tem luz própria é inimigo declarado daqueles que
adoram bezerros de ouro. Sim, queremos morrer. O dor, muitas vezes,
parece estar acima das nossas forças. Não sabemos porque, mas
queremos viver.
REDENÇÃO
Redenção, de acordo com Huberto Rohden, é resgate,
emancipação, libertação, auto-realização. A redenção supõe
que o homem seja escravo, cativo, prisioneiro - e assim é de fato.
Mas o que prende, o que escraviza o homem? O que escraviza o homem é
a sua inconsciência.
Segundo Pietro Ubaldi, não há um Redentor ou Salvador,
pois cada um paga os próprios pecados e não os dos outros, que
pagam somente os seus. Cada um se redime com as próprias dores e não
com as dos outros que, por sua vez, não se podem redimir através
das dores alheias. A Lei não pode ser senão esta: a Lei da mais
exata justiça. Cada um sofre as conseqüências do que faz.
Para Schopenhauer - segundo Marco Aurélio Werle - o
único meio de libertação real era o autoconhecimento das vontades
inconscientes que governam os indivíduos; por meio desse processo de
ascese e renúncia, o indivíduo seria capaz de escapar das seduções
do mundo ilusório. Thomas Mann diverge de Schopenhauer e adere a
Nietzsche, contra a renúncia e a favor da vontade individual.
A Redenção acontece através do autoconhecimento e são
apresentados, pois, dois caminhos gerais: 1. a ascese e renúncia e
2. a vontade individual.
Condicionados que estamos a ver somente um caminho
certo, resistimos à idéia de que caminhos opostos possam levar ao
mesmo resultado, à libertação, à plena consciência. Quando
compreendermos que isto é possível, perceberemos que não há
somente dois caminhos, pois o caminho é individual, cada um tem a
sua função no processo geral de evolução da humanidade.
RELIGIÃO
As religiões organizadas são efeitos da necessidade
humana de exteriorizar em doutrinas, ritos e templos a sua crença na
transcendência. Fazem parte da nossa realidade e, como tudo,
sujeitas à crítica.
SABER
saber (sapere, saborear, sentir a qualidade, o sabor,
experimentar) inclui a intuição, o conhecimento intelectual e a
experiência de vida.
SÁBIO
Quem
tem autoconhecimento procura despertar as pessoas. Mas isto exige do
outro uma disposição, uma vontade, uma necessidade natural,
instintiva. Se o outro não está preparado para despertar as
palavras nenhum valor terão. Serão somente idéias que podem atrair
quem procura erudição.
Quem
tem autoconhecimento não será um pregador, um padre, um pastor ou
um apóstolo. Ele não quer discípulos ou seguidores. Ele somente
quer ajudar o outro a ser si mesmo. Ele não tem o poder, mas auxilia
a despertar o poder que está dentro de cada um.
SENTIMENTO
Sentir é a palavra. Sentir o clima, o astral, a energia
que neste momento permeia o ar, a água, a mata e a praia. A
percepção do Belo. O Belo é harmonia. Tenho a sensação que isto
é um sonho.
As emoções e sentimentos são estados comportamentais
que geralmente recebem denominações semelhantes, embora haja entre
os mesmos diferenças qualitativas.
A emoção é uma reação orgânica desordenada advinda
de situações diversas, justamente quando não é possível uma
lenta adaptação do organismo. Manifesta-se como ira, ódio,
felicidade, alegria, tristeza, medo, ansiedade, etc.
O sentimento é uma função de avaliação pessoal que
se manifesta como atração ou rejeição, afeição ou aversão com
relação a um objeto, pessoa ou idéia abstrata e que carece das
características de uma verdadeira emoção. Poderíamos afirmar que
os sentimentos são emoções “polidas” e refinadas formadas
pelas relações sociais e pela experiência de vida.
Não podem ser expressos em palavras, não podem ser
racionalizados e não se prestam à descrição. Embora os
sentimentos sejam inteiramente subjetivos – a forma como se
manifestam tem como base um julgamento de valor – o elemento
racional nessa função.
O sentimento demonstra em grau máximo a subjetivação
do objeto. O sujeito e o objeto entram numa relação tão forte que
somente sobra a aceitação ou a recusa.
Ele
é capaz de avaliar e tratar uma informação que a razão não
registra.
"É ele que fundamenta a afirmação do Eu em uma posição
ética. Um sentimento é uma realidade tão incontestável quanto a
existência de uma idéia, e podemos experienciá-lo exatamente no
mesmo grau" afirma Jung.
"Há uma oposição entre pensamento e sentimento",
continua Jung. ´Se me oriento pelo pensamento, não posso me
orientar, ao mesmo tempo, pelo sentimento, porque o pensamento e o
sentimento são duas funções inteiramente distintas. Não podemos
negar, também, que o sentimento chega muitas vezes a convicções
diferentes daquelas do intelecto, e nem sempre podemos provar que as
convicções do sentimento são inferiores àquelas.”
Observamos, pois, que as nossas escolhas, não pertencem
somente à razão. O sentimento, entretanto, não é a causa de
julgamentos ou decisões emotivas que, muitas vezes, tumultuam a
vida. Ele representa a sabedoria formada pela nossa memória
consciente e inconsciente, reflete o nosso caráter, o nosso ser.
Estou lendo "Freud, Pensador da Cultura" de
Renato Mezan (Brasiliense). Num capítulo intitulado "Diálogo
de Surdos" ele trata da relação entre Freud e Jung: "Quem
se debruça sobre a correspondência entre Freud e Jung não pode
furtar-se à singular impressão de que os dois interlocutores falam
línguas diferentes, pensam em comprimentos de ondas antagônicos e
padecem de surdez crônica."(pág. 268). Escrevi uma mensagem
intitulada "Pensar e sentir" sobre aqueles que "pensam"
e aqueles que "sentem" o mundo. Freud é racionalista -
"pensa o mundo" - e vejam o sucesso que faz na nossa
civilização. Jung, intuitivo - "sente o mundo" - é
desprezado pelos racionalistas. Eu sou intuitivo e você racionalista
e, por isto, não "enxergamos" o mundo da mesma forma. As
tentativas de nos compreendermos serão inúteis, pois o abismo
somente se ampliará.
SEXO
é uma questão que diz respeito ao meu processo de
identificação. Observo que não só teólogos, mas também
filósofos, se poderes tivessem mudariam a reprodução sexuada, por
uma assexuada, mais “pura”, mais “limpa” e, principalmente,
bem mais eficiente segundo modelos que já existem há milhões de
anos na natureza.
Ora, o ser humano é uma unidade energética que
interage com o cosmo. A base dessa energia é sexual. Energia sexual
é energia vital. Quanto maior a energia sexual de uma pessoa, maior
é a sua energia vital. Pessoas com grande energia sexual superam a
mediocridade tornando-se líderes, santos ou grandes “pecadores’.
Sabe-se, por experiência direta, que higidez física e
mental é efeito, principalmente, de um relacionamento sexual
satisfatório e sem culpas. Culpas que são incutidas na alma humana
por normas morais e religiosas baseadas na ignorância.
Sexo é energia, sexo é vida. O relacionamento sexual,
a troca de energias entre dois corpos e duas almas, é fonte de vida
(reprodução), equilíbrio energético e de prazer, uma das
necessidades básicas de cada ser humano sadio.
O ser humano é um animal. A sua natureza é animal. Por
que querer negar aquilo que ele é?
A busca do prazer mantém o ser humano vivo. Nem que
seja o prazer de negar o prazer.
Um dos pontos básicos para manter o controle sobre o
rebanho é o sexo. O sexo é mistificado. Quanto menos informações
sobre o sexo melhor. "Sexo é pecado" é uma arma
poderosíssima, afinal as igrejas dizem-se donas da Verdade. Todas as
vontades das suas elites intelectuais são mobilizadas para
justificar essa posição. E aqueles que ainda não conseguem ter
idéias próprias vão seguindo o rebanho...
SOLIDÃO
O
in-divíduo não é só colocado mas também posiciona-se à margem
da sociedade. E porque ele desenvolve uma consciência própria, com
valores éticos e morais que escandalizam as pessoas do seu meio, ele
sente-se melhor estando só, e relacionando-se com pessoas em que há
uma afinidade mínima de pensamentos. Mas o motivo maior do seu
afastamento é a necessidade interior – instintiva – de estar só,
consigo mesmo.
Esta
percepção de saber-se o único “certo”, - não no sentido de
certo e errado, mas de ter uma visão mais ampla e profunda da
realidade, – leva a uma imensa solidão. A capacidade de
compreender a realidade de uma forma diversa, de perceber e fazer uma
leitura mais profunda dos textos dos grandes sábios isola o
indivíduo. É uma passagem pelos “infernos”. Uma “passagem”
porque nada dura para sempre. Para tornar essa parte da viagem mais
suportável é importante a informação. Saber que não somos muitos
nessa caminhada, que somos “estrelas” em busca da nossa galáxia
como afirma Rudhyar torna menos dolorosa essa experiência.
À
frase "somos apenas o resultado de nossas próprias
experiências" gostaria de acrescentar que a herança genética
que se manifesta também como instinto é a causa que leva às nossas
experiências. A experiência resulta da interação do Eu com o seu
meio e, nesse sentido, não somos “apenas” o resultado de nossas
próprias experiências. Essa visão freudiana não resiste ao
desenvolvimento da nossa consciência, como você, com o tempo, irá
perceber. Os instintos - conceituados por Kant como “necessidade
interior” – nos levam a experimentar. Eles são “domesticados”
pela experiência. A experiência nos condiciona, cria máscaras,
mas na essência somos movidos pelo instinto.
“Quem experimenta sabe”.
SOMBRA
A
sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade,
ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não
viveu. A sombra é detectável em figuras do mesmo sexo que o
sujeito, e que são os principais atores de seus sonhos e fantasias.
Estes personagens tem traços de caráter e maneiras de agir que são
a contrapartida da personalidade consciente. Quanto mais unilateral é
o consciente, mais acentuados são esses personagens.
Em geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em
causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais
radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A
experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou
ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de
apoio e mergulhe na obscuridade.(C.
G. Jung)
SONHOS
Sim, "A Interpretação dos Sonhos" é a
grande obra de Freud. C. G. Jung escreveu "Da Essência dos
Sonhos". Pela leitura desses livros aprendemos que as imagens
dos sonhos não tem apenas um sentido, mas muitos. E o sentido da
maior parte dos sonhos não coincide com as tendências da
consciência, mas revela tendências singulares. Parece haver uma
"compensação" entre o consciente e o inconsciente.
Observo que na interpretação dos sonhos há múltiplas
possibilidades de explicação. Qual delas é a verdadeira? É algo
extremamente complexo porque, na maioria das vezes, somente o
sonhador - que é um universo - pode ter a chave do seu significado.
No desenvolvimento do autoconhecimento começamos a compreender os
nossos sonhos e... percebemos que eles são "filmes"
montados pelo cérebro a partir de imagens da memória, bem como
podem refletir desejos conscientes e inconscientes. Mas como esse é
um mundo extremamente movediço e singular, não me atreveria a
afirmar que os sonhos tem a importância que muitos lhes querem dar.
TAO
Um dos conceitos mais antigos e mais centrais da Filosofia chinesa é TAO, que os Jesuítas traduziram por Deus, mas não é. Tao é o Nada, Puro Nada, em oposição ao mundo da realidade. Nada porque em si ele não aparece no mundo dos sentidos, mas é apenas o seu organizador. Trata-se, portanto, de uma concepção que se situa na fronteira do mundo das aparências. Nele os opostos se dissolvem na indeterminação, embora ainda existam potencialmente. Estes germes, porém, indicam algo que corresponde, em primeiro lugar, ao visível, isto é, a alguma coisa que tem a natureza de uma imagem; em segundo lugar, corresponde ao audível, isto é, a algo que tem a natureza de palavra; e em terceiro lugar, à extensão no espaço, isto é, a alguma coisa dotada de forma. Mas estas três coisas não são claramente distintas nem objetivas; constituem uma unidade não-espacial ( sem um em cima e um em baixo) e atemporal (sem um antes ou um depois). (Jung)
Chama-se eixo do Tao o estado em que não há oposição entre o “eu” e o “não-eu”. O Sentido (Tao) se obscurece quando fixamos o olhar apenas em pequenos segmentos da existência.
TEMPO E ESPAÇO
Tempo
e espaço, porém, não são objetos, mas sim modos ou atributos de
percepção sensitiva e concepção intelectual. Se o homem não
percebesse os fenômenos materiais pelos sentidos, nem concebesse as
leis da energia pelo intelecto, nada saberia ele de tempo e espaço,
nem de causalidade. Pela percepção sensorial, portanto, temos a
noção da “duração” (tempo) e da dimensão (espaço), assim
como pela concepção intelectiva, baseada naquela, temos noção da
causalidade. Se fôssemos capazes de conhecer algo independentemente
de tempo, espaço e causalidade, estaríamos fora do mundo dos
fenômenos e suas leis; estaríamos no mundo do eterno, do infinito,
do absoluto.
TEORIA DA INFORMAÇÃO
A
informação pode ser definida, por si mesma, como a transferência (
em vários graus e diversas naturezas) de uma situação própria de
um sistema para um outro sistema, através de “meios de
comunicação” apropriados ao tipo de informação e de sistema.
Entendida dessa maneira, a informação comporta sempre uma
modificação mais ou menos substancial no sistema receptor;
modificação essa ( a própria palavra o diz) que torna o receptor
sempre “diferente” do que era. Por si mesma, a informação
modifica também o sistema emissor, na medida em que o coloca em
relação com outra coisa.
Talvez
seja útil observar que, em cibernética, costuma-se às vezes fazer
uma distinção entre “informação-conhecimento” (que diz
respeito sobretudo ao ato de conhecimento que modifica o sujeito
consciente e, por conseguinte, suas reações e seus comportamentos)
e “informação-organização”, quando a informação modifica
substancialmente a estrutura do sistema que a recebe, tornando-o
capaz de novas capacidades operativas, e conferindo-lhe, assim, uma
certa natureza “nova”, ou seja, um novo modo de ser e de operar.
(Pasolini)
TRANSCENDÊNCIA
“Transcendência significa o salto de um modo de
ser para outro. Assim, pode-se dizer que se verifica uma
transcendência em determinada coisa, ou em determinado estado de
coisas, quando nessa coisa ou nesse estado aparece alguma qualidade
ou alguma situação de que forma alguma estava presente antes, nem
poderia derivar de coisa alguma precedente. É justamente no ato de
transcendência que se realiza a entrada em existência de alguma
coisa qualitativamente “outra”, alguma coisa que não pode ser
relacionada, no mesmo plano, com a natureza da “pré-coisa”, os
das “pré-coisas” que foram transcendidas.... O conceito de
transcender não é comum a nenhuma ciência chamada positiva. No
entanto, este fato misteriosos que é a “criação” de alguma
coisa de novo quando se instaura uma situação cibernética, parece
Ter sido sempre percebido de alguma maneira pelos cibernéticos. “Se
vários elementos são estruturados entre si segundo relações
unificadas por um determinado significado, esses elementos dão
origem a um sistema que não constitui a sua soma, mas é alguma
coisa de novo e diferente, ou seja, em cibernética, o conjunto não
é a soma das partes”. (Pasolini)
TUDO É COMO DEVE SER
Tudo é como deve ser.
Se há terrorismo - camuflado ou explícito – ele tem causas e
estas residem no espírito do próprio homem. Cada homem,
individualmente, cada sujeito contém dentro de si esse universo
bipolar de ódio e de violência que se equilibra com amor e paz.
Esses demônios e anjos que habitam o universo interior manifestam-se
na personalidade acompanhando a evolução da vida. Isto é, fazem
parte da evolução da vida, o amor e o ódio, a guerra e a paz. É
na superação de dificuldades – e a dificuldade maior está numa
guerra total - que acontece a evolução. Os maiores avanços, as
maiores descobertas científicas e tecnológicos acontecem quando o
homem, individualmente, o seu grupo, a nação e o país entram nesse
processo de vida ou morte em que domina o instinto e não a razão. O
instinto identifica-se com a força cósmica da evolução. No ser
humano, Eros (sexo, vida) e Tanatos (guerra, morte). Se Eros é
reprimido aumenta a força de Tanatos e vice-versa. Teoricamente, uma
civilização que não reprimisse o sexo não faria guerra porque se
a energia vital fosse canalizada para o sexo, não sobraria força
para os conflitos. Mas não podemos esquecer uma outra persona: o
Ego. Alguns advogam sublimar a energia sexual. Mas neste processo são
criados objetivos e metas ideais que fortificam o Ego. O Ego é o
dono da verdade e de direitos e são estes os fatores principais na
promoção da guerra. A guerra e a paz fazem parte da Vida. Todo esse
sofrimento vai trazer avanços significativos em todas as áreas, mas
a área mais difícil, a que apresenta maiores dificuldades, é a da
consciência individual. A guerra interior – entre anjos e
demônios, entre Eros e Tanatos – que é projetada no mundo
objetivo e material externo tem o objetivo de fazer com que a
consciência individual evolua. Que seja lançada luz sobre as trevas
da ignorância do sujeito. Comprovado está que não se aprende com a
experiência dos outros, é necessário experimentar pessoalmente
para que a consciência desperte. É este o drama não da humanidade,
mas do ser humano como indivíduo.
Todas
as manifestações que compõem a realidade individual, todos os
acontecimentos perceptíveis aos nossos sentidos são efeitos de
forças inconscientes e/ou desconhecidas que jazem na Alma do
Universo.
A guerra e a paz não são efeitos das vontades
conscientes. A energia da vontade individual e coletiva, embora possa
influenciar na condução dos acontecimentos perceptíveis aos
sentidos, tem a sua origem primeira numa ordem que está além da
compreensão dos homens.
O caldeirão de energias inconscientes de que é
portador cada ser humano é uma força representativa da Lei que move
o Cosmo. Os seres vivos são uma parcela deste Universo que está em
expansão e em evolução.
Chamamos de Acaso a acontecimentos para os quais não
temos explicação, mas que resultam da combinação de uma série de
fatores que geram o fato. O intelecto individual saberá relacionar
as causas desde as mais absurdas até as mais “coerentes” porque
para a sua segurança – do intelecto – ele necessita de certezas,
ele precisa identificar as causas que geram os efeitos. Mas esse é
apenas o trabalho do intelecto que geralmente está dissociado da
Verdade que se esconde sob as aparências.
Uma das leis que move o Cosmo é a lei da evolução. A
guerra e a paz estão inseridas nesse movimento. A paz, entretanto, é
tão somente o período entre duas guerras - espaço dedicado à
preparação de uma nova guerra.
A Dor - não a dor existencial de que nos falam
filósofos e poetas –, mas a Dor física e moral individual é
causa e efeito do processo da lei da evolução. A guerra é uma
catarse. Sangue, dor, perda e morte são necessárias para que o
homem aprenda e evolua. Tantas guerras e tantas dores quantas forem
precisas para que a consciência do homem desperte.
A vida é uma guerra desde o nascimento até a morte. A
lei da evolução não pode ser revogada pelo homem. Por isto, tudo é
como deve ser.
ÜBERMENSCH
Friedrich Nietzsche cunhou a palavra übermensch
para referir-se ao ser humano superior, evoluído intelectualmente,
emocionalmente e espiritualmente, que transcende o bem e o mal.
UNIVERSO
Uni-verso.
Mecânica Quântica, Universo ekpirótico, teoria das SuperCordas...
Quanto evoluiu a Ciência depois de Newton. Mas estamos condicionados
a perceber somente o tempo, o espaço e a causalidade. Repito,
estamos condicionados a perceber e a compreender as coisas no tempo e
no espaço, regido pela lei de causa e efeito. Estamos condicionados
na nossa vida cotidiana a ver o mundo e o Universo regidos por uma
única Lei: Causa e Efeito. Para qualquer fenômeno queremos conhecer
a causa; para qualquer fato queremos saber o responsável ou o
culpado. Isto é de extrema utilidade para a razão, para o
intelecto, porque alguém sempre “deve ter” razão. Mas a
Mecânica Quântica nos revela que a lei que move o micro é a da
incerteza; se no mundo macro tudo parece ser regido pela lei da
causalidade, no mundo micro reina o Acaso. Parece, então, que
Einstein equivocou-se ao afirmar que “Deus não joga dados”. O
mundo macro e micro não estão dissociados, eles formam o uni-verso,
um Todo desconhecido do qual fazemos parte.
VERDADE
Talvez os homens nasçam com a verdade dentro de si
e só não a digam porque não acreditam que ela seja a verdade
(José Saramago);
“... da verdade se obtém um conceito novo: de que ela
é algo de não codificado nem codificável, mas infinito, para cuja
aproximação é imperioso trabalhar e sofrer a cada dia. Concebe-se,
desta maneira, a verdade, não mais como um cômodo assento em que
nos refestelamos para repousar, como o fizeram os nossos ancestrais,
mas como uma íngreme ladeira que importa galgar com a própria
vontade.” Pietro Ubaldi
O
homem quer respostas racionais para todas as suas interrogações.
Mas, racionalmente e pela lógica formal, ele nunca chegará a uma
conclusão definitiva sobre coisa alguma. Por isto a demanda da
Verdade exige uma passagem para além das fronteiras do pensamento
ordenado. Esta passagem, entretanto, não significa fé cega.
A verdade é individual, própria, e, portanto ninguém
pode ensiná-la. Ela é uma descoberta pessoal.
A minha verdade é construída desde a concepção
quando é formada uma unidade energética, um universo que irá se
expandir. As forças iniciais que estruturam a individualidade não
são formadas por acaso mas são o efeito das forças vitais que se
aglutinaram durante a formação de toda uma linha hereditária. O
nascimento e o despertar para este mundo - as condições
geográficas, históricas, sociais e econômicas em que cada pessoa
está imersa - cria a consciência que resulta das relações dessa
unidade energética com o seu meio. O despertar desta consciência
inicial está intimamente ligada com a consciência das pessoas que
lhe dão as condições necessárias para a sobrevivência: mãe,
pai, irmãos, vizinhos. Ela é, de certa forma, uma consciência
coletiva pois o significado das sensações que lhe são transmitidas
pelos sentidos é ensinado. A sua percepção da realidade é
interpretada pelos outros. Ela aprende que a cor do céu é azul e a
cor das plantas é verde. Com o crescimento físico e psíquico, e a
ampliação do campo de informações, com o uso da inteligência e
da razão, a pessoa, aos poucos, começa a ter um ponto de vista seu.
Mas este seu ponto de vista está amparado em autoridades. Ela não
tem a capacidade de ver o mundo com os seus próprios olhos pois
precisa de guias, de pessoas mais sábias, mais experientes, com as
quais se identifica. Elege os seus "heróis" e os seus
"deuses". Está integrada na sociedade, no rebanho. Uma
consciência integrada nos valores do grupo, uma consciência de
massa, mais coletiva que individual. A expansão da consciência para
além deste nível é uma exceção.
Você pode ler, estudar Platão e convencer-se que o
mundo supra-sensível ou inteligível existe de forma anterior e mais
efetiva do que o mundo sensível. Você pode acreditar na "verdade"
de Platão. Você pode, também, acreditar que a verdade encontra-se
na Bíblia ou em outros livros sagrados. A crença é livre. Se a
Verdade existe? Sim ela existe. Ela está dentro de você, você está
"sentado em cima dela". O difícil é perceber.
Nós
procuramos nos esconder para não enfrentar a verdade. A fuga é
possível até ficarmos acuados, sem saída. Então, ou enlouquecemos
de vez, ou a enfrentamos. Esta luta é promovida por forças
inconscientes. Nós não temos o controle sobre elas. ( Não se
esqueça que tudo o que escrevo para você também está direcionado
para mim, e tudo o que você escreve para mim, também está
direcionado a você. Nós nos projetamos no outro. Assim há um
processo de ajuda mútua para quem está capacitado a vê-lo.) Nós
sempre temos a esperança de que possamos controlá-las através do
Ego. Mas isto é impossível: "perca toda esperança".
Quando
tomamos consciência do processo e começamos a agir de acordo com as
marés e os ventos inconscientes, isto é, deixamos acontecer, volta
a alegria de viver. Renascemos, voltamos a ser crianças. "Já
não sou eu (ego) que vivo é o espírito (o Cristo) que vive em
mim". Se passamos a primeira metade das nossas vidas
fortalecendo o Ego, na segunda metade ele precisa ser perdido. Esse
segundo período caracteriza-se por períodos em que mergulhamos no
mar inconsciente e períodos em que dele saímos e voamos pelo
espaço. O sofrimento e a alegria caminham juntos.
Constatamos que a Verdade não pode ser encontrada pelo
uso exclusivo da razão e que nenhuma filosofia possui aquela
validade universal que faça uniformemente justiça à diversidade
dos indivíduos. Nas questões de princípio temos um número
indefinidamente grande de enunciados subjetivamente diferentes, cuja
validade só pode ser confessada subjetivamente. É necessário
abandonar o argumento filosófico e substituí-lo pela experiência.
Pela experiência amplia-se a consciência. O mundo interior passa a
ser o foco da existência. A valorização da experiência, da
subjetividade e do mundo interior parte da constatação de que a
criatividade, o pensamento, a beleza, as artes e as ciências são
manifestações suas.
É necessário abandonar a idéia de que um ponto de
vista para ser válido, precisa colher o maior número possível de
aplausos. Verdadeiro e válido não é aquilo que a maioria crê mas
aquilo que se experimenta.
VIDA
A Vida, também chamada de espírito, não tem moral -
código de normas criado pelo homem para a convivência social. Para
o espírito não existe o Bem e Mal, mas sim forças polarizadas.
Eros e tanatos são os pólos que, em equilíbrio, mantém um corpo
vivo. O homem não tem poderes sobre a Vida nem sobre a morte. Quando
as energias que mantém uma estrutura individual entram em colapso, a
Vida "chama" a morte. Tudo segue o seu ritmo segundo as
leis cósmicas.
"Marginal diz-se de pessoa que vive à margem da
sociedade ou da lei como vagabundo, mendigo ou delinqüente;
fora-da-lei."(1) É também marginal o assim chamado psicótico
e o andarilho. Todos eles, em menor ou maior grau, tem algo em comum:
a solidão. Sentem-se impelidos à solidão porque não se adaptam à
sociedade, não conseguem conviver com os seus semelhantes. Alguns,
inicialmente, desenvolvem um comportamento agressivo para depois
afastarem-se do convívio social porque não mais se adaptam às
regras que movem o seu grupo.
As "psicoses" são múltiplas e variáveis e
com características próprias em cada indivíduo. Alguns vivem no
mundo dos homens mas não pertencem a ele. Vivem uma experiência
única em outro mundo, o "seu" mundo interior, com leis e
valores próprios. Desenvolvem uma sensibilidade e percepções da
realidades que fogem ao homem comum. (São movidos por aquelas
"forças profundas, naturais e involuntárias que governam a
vida" (Nietzsche). Segundo C. G. Jung, há a transferência de
conteúdos inconscientes para a consciência). Ele enxerga a
realidade sob outros ângulos, com mais profundidade e amplitude.
Consegue compreender Nietzsche, Rohden, Rajneesh e outros "loucos"
de uma forma própria, peculiar pois se identifica com eles.
Viver à margem da sociedade é desenvolver uma forma de
vida sem vínculos, livre e desinteressada. É uma vida que se
alterna entre o céu e o inferno. Não é uma escolha consciente. Ela
é determinada pela energia da natureza individual. Os médicos dizem
que tem "cura". Mas não tem.
(1) Novo Aurélio - Século XXI
Nunca sei porque, e quando penso que sei, descubro que o
motivo não era aquele que eu imaginava. Sabe, eu vivo neste mundo,
mas não sou deste mundo. Antes eu via a vida com começo, meio e
fim. Mas a sensação, a percepção que tenho da vida não é mais
de uma seqüência de momentos interligados, uma seqüência de
imagens de um filme em que há passado, presente e futuro. A minha
vida é feita de momentos, de "curtas metragens", de
"músicas" que tem duração determinada. Identifiquei as
minhas unidades de tempo em que se completa a onda desse bioritmo:
aproximadamente uma hora e meia. Se motivado, tudo o que faço,
faco-o bem feito, nesse período de tempo: recreação, trabalho,
computador, sexo, etc. etc. Esgotada essa unidade de tempo, perco a
motivação para aquilo e necessito mudar de atividade. Descobri
depois que esse é o ritmo dos nossos sonhos: o sonho RAM dura
aproximadamente uma hora e meia. Esta é mais uma forma de poder
explicar que o ego não determina as ações da minha vida.
VONTADE
Ato de vontade é, em princípio, voluntário, isto é,
aquele em que o indivíduo tem consciência dos meios e das
finalidades de sua conduta; o indivíduo procura atingir um objetivo
por ele mesmo proposto, tendo consciência dessa tentativa.
O indivíduo é um ser ativo cujo comportamento
manifesto expressa diretamente a sua vontade. A Vontade é irracional
em sua manifestação, embora possamos lapidá-la pela educação.
A força da Vontade geralmente está sob o domínio do
superego. Com o despertar da Consciência, que passa a dominar a
Vontade, começamos a ter a percepção da diferença entre a vontade
egoísta e a instintiva. O desejo a que se referem os budistas
parece-me ser o desejo egoísta que geralmente traz o sofrimento
porque a sua característica é o apego. Se não existir apego a
nossa alegria e prazer não estará na dependência de bens
materiais. Seremos felizes com o que temos, seja um fusca ou uma
mercedes, ou nenhum dos dois. Parece-me então que não é o desejo
que traz sofrimento mas o valor que o indivíduo dá ao objeto dos
seus desejos.
Eu
não escolhi ser o que sou, embora tenha aprendido ainda no ventre
materno que querer é poder. Esse "querer é poder" está
impresso profundamente na minha alma, mas a vida ensinou-me o
contrário. Quase tudo - ou seria tudo? - o que eu aprendi na vida
contraria o "querer é poder". Desde criança os meus
mestres me ensinaram - e os meus pais também - que nós temos o
livre arbítrio: somos nós que decidimos o que fazer das nossas
vidas. Mas aprendi pela experiência que, se somos nós que
escolhemos, essa escolha não é consciente. Essa escolha é
inconsciente... Somos "levados" a fazer isto ou aquilo. Nós
não escolhemos conscientemente. É a nossa natureza que dita os
caminhos da vida que iremos seguir. A minha vida desviou-se
totalmente do ideal que construí seguindo a tradição, a cultura e
os valores da minha gente. Não sou uma pessoa "normal" de
acordo com o senso comum. O fato de ser "anormal" me causa
profundo sofrimento moral. Gostaria de ter continuado uma pessoa que
não tem consciência do seu mundo e do universo que a rodeia. As
pessoas ignorantes (no sentido de desconhecimento) são mais felizes.
Elas têm fé. E a fé é o melhor remédio contra todas as
dificuldades da vida. Fé é um sentimento tão forte que aqueles que
o tem não conseguem imaginar alguém sem fé. E quem não tem, não
consegue imaginar que uma pessoa em bom juízo possa acreditar em
Deus e Diabo, e céu e inferno após a morte. Vejam que todos os
programas de auto ajuda, grupos de alcoólicos anônimos, neuróticos
anônimos, etc., incentivam a fé num Deus, na forma que cada
indivíduo o imagina. Mas eu já fui uma pessoa de muita fé. Fé
cega, fé profunda.Católico praticante. Não foi nenhum guru, nenhum
acontecimento catastrófico que me fez perder a fé. A perda da fé
cega foi provocada pela ampliação da minha consciência. Foi um
amadurecimento. Esta percepção mais ampla e profunda da realidade
levou-me a uma fé consciente. Digo que despertei. Na minha fé
consciente não há espaço para as crenças e doutrinas que
fundamentam as religiões e seitas organizadas. A minha fé
consciente também não tem relação com o materialismo ou com o
ateísmo na forma em que são colocados na nossa cultura: eu não sou
crente, nem descrente. Eu observo.
YANG-YING
Yang
- Ying, é o símbolo chinês da distribuição dual das forças
universais, compreendendo o princípio ativo ou masculino (yang) e o
feminino ou passivo (ying). Este símbolo tem a forma de um círculo
dividido por uma linha sigmóide, e as duas partes assim formadas
possuem, quando observadas, uma tendência dinâmica, o que não
seria possível se o círculo fosse dividido por uma linha reta
(diâmetro). Na representação gráfica desse símbolo, a metade
clara representa o yang, e a escura, o ying. Contudo a primeira
apresenta em seu interior um ponto negro, e a segunda um ponto
branco, significando que ambas possuem em si mesmas, o germe do
princípio contrário. Em conjunto, harmonizados, se neutralizam,
constituindo a unidade ou Tao.
POEMAS
Quantos
"eu te amo" deixei de dizer porque não seria compreendido;
quantos
"je t'aime" eu não falei porque seria tido como um
insulto;
quantos
"Ich liebe Dich" deixei de dizer porque não me deram
acesso;
quantos
abraços deixei de dar porque as pessoas se afastaram,
quantos
beijos ficaram na intenção porque seria chamado de louco.
Viver só
é posivel em grupos onde,
Amar tem o
mesmo significado para todos.
Meu amor
não tem apego. Eu sou diferente.
Eles não
me compreendem, e por isto, não me amam.
Amo
a igual. Qual é o problema? “Você não sabe lidar com a
diferença!!!” diz o “especialista”. Mas vejam Pessoa: “quem
ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo”. Amor é
sentimento. O sentimento provoca atração ou rejeição, ele é
instintivo. Não me atrai, não gosto do diferente. Devo mudar a
minha natureza? Isto é crime? Isto é ser preconceituoso? Amo as
pessoas desapegadas. Não amo pessoas possessivas, autoritárias,
donas da verdade. Amo as pessoas que tem sensibilidade. Amo o belo, a
arte que é harmonia. Amo porque sinto atração e não porque é
politicamente correto. Há algo de errado comigo?
AGUARDO VOCÊ!
Campos,
rios, florestas;
Lagoa,
praia, mar;
Amplitude,
distância, paisagem, natureza.
Espaços
amplos dominados pelo silêncio.
Aqui
estou em casa, aqui eu sou eu.
Retire
as suas máscaras,
Abandone
os pré-conceitos,
Desfaça-se
das suas verdades,
Abdique
das suas certezas,
Achegue
e sente-se.
Vamos
trocar energias,
Palavras,
idéias,
Mas,
principalmente,
Sentimentos.
Afastemos
a idéia de tempo,
Demos
espaço para o amor,
Para
a sensibilidade,
Para
o ser.
Se
ao Ego a tarefa parece impossível, esqueça.
Continue
vagando pelo seu mundo.
Mas
quando a Dor passar pelo seu caminho,
Você
se lembrará de mim.
Aguardo
você!
TEMPOS AQUELES
Tempos aqueles em que a vida repousava alegre e
tranqüila na ampla e cômoda cama das certezas. Conduzida pela lei
de causa e efeito ela era lógica e racional: Deus não jogava dados.
Tempos aqueles em que a verdade e a fé andavam de mãos dadas.
O tempo passa e o mundo certo e determinado entra em
decadência. Novas forças ascendem e, perdidos nas suas certezas, os
homens, movidos pela saudade da casa do Pai, se reorientam na busca
daquele que tudo provê.
A TOTALIDADE
O
in-divíduo,
O
homem integral,
A
totalidade.
Compor
o masculino com o feminino,
A
razão com o sentimento,
O
positivo com o negativo,
É
a crucificação:
“Faça-se
a tua vontade e não a minha”.
Destino
reservado a semideuses,
Mas,
humano, demasiado humano.
Amo
a igual. Qual é o problema? “Você não sabe lidar com a
diferença!!!” diz o “especialista” (psicólogo, psiquiatra,
filósofo clínico, terapeuta). Mas vejam Pessoa: “quem ama, ama
só a igual, porque o faz igual com amá-lo”. Amor é sentimento. O
sentimento provoca atração ou rejeição, ele é instintivo. Não
me atrai, não gosto do diferente. Devo mudar a minha natureza? Isto
é crime? Amo o homem masculino e a mulher feminina. Não amo o homem
feminino e a mulher masculina. Isto é ser preconceituoso? Amo as
pessoas desapegadas. Não amo pessoas possessivas, autoritárias,
donas da verdade. Amo as pessoas que tem sensibilidade. Amo o belo, a
arte que é harmonia. Amo porque sinto atração e não porque é
politicamente correto. Há algo de errado comigo?
Se você
aqui estivesse...
Se você
aqui estivesse...
Talvez a
dor se escondesse,
Se você
aqui ficasse.
Este vento
norte
Lembrando
morte...
Talvez ele
cessasse,
Quando
você chegasse.
Se eu o
abraçasse,
Talvez a
dor se fosse.
Se você
aqui estivesse...
A
magia do momento
Estavas
absorto,
Concentrado
em ti mesmo,
Embora
o teu olhar se espalhasse
Pela
praia, pelas pedras e pelo mar.
Teu
corpo nu e másculo,
Irradiava
beleza e graça:
O
belo que fascina e arrebata.
O
encantamento...
A
pura beleza de um estranho,
Tornou
mágico aquele momento.
São muitas as dores
Tantas quantos os seres humanos,
Entre
tantas singularidades
A dor é a
verdadeira expressão singular.
Não
comente a dor do outro
Porque
você a compara com a sua dor
Mas ela é
outra dor, a dor dele.
Conversando com Deus
Deus precisa conversar. Largaste-me no mundo e pronto?
Certamente não pensas em mim, só pensas em Ti próprio, nessa Tua
eterna autocontemplação. Sabemos que não amas o mundo, é o mundo
que Te ama e quer assemelhar-se a Ti, repetir a Tua eterna perfeição.
Ah, Deus meu! Só tu és o eterno repouso, e nós o eterno retorno!
Estou cansado! Eu sei que não irás resolver os meus problemas, que
são só meus, mas de certa forma - desculpa-me - eu não pedi para
nascer! Eu sei, eu sei, eu sou somente uma manifestação do teu
programa... Mas - perdoa-me novamente - parece que esse programa tem
bugs e há interferência de hackers (demônios?). Repito, a minha
existência foi um erro.
Sabe, Deus - eu sei, eu sei, não és Pai - mas preciso
falar. Como seria bom ter um pai, alguém para segurar a mão, alguém
para abraçar, alguém para conversar, alguém para dar segurança,
um pai amigo. Este teu programa deveria prever, obrigatoriamente, um
pai amigo para cada ser humano. Enquanto estás em êxtase na Tua
eterna autocontemplação, pouco Te lixando para com o que está
acontecendo por aqui, confiando no Teu programa, a Dor é muito
forte.
Tchau, eu só precisava conversar. Mas o monólogo foi
suficiente.
TAGEBUCH
PASSIO ANIMI (PAIXÃO DA ALMA)
INTRODUÇÃO
Nem todos vivenciam de maneira consciente as mudanças
psíquicas que ocorrem após a meia idade, ou mais especificamente,
no período de vida que se inicia entre os 35 e os 40 anos.
Alguns, gradativamente, se adaptam a uma outra
perspectiva de vida e, dificilmente, se dão conta das mudanças
internas, e vivenciam este período sem maiores dificuldades.
Outros, passam por uma crise existencial, com questionamentos sobre o
significado da vida e o propósito de suas atividades.
Há duas situações extremas neste processo, embora a
maioria das pessoas se situe numa posição intermediária. É
verdade também, que cada um vivencia de maneira particular e única,
cada uma das etapas da evolução.
Num dos extremos, estão aqueles
que tem certeza de que se conduzem corretamente através da vida, e
que tem ideais e princípios corretos. Estão certos de que estas
convicções pessoais devem ter aplicação geral. A rigidez de
idéias com referência a si mesmos e aos outros, e a tendência a
encará-las como incontestáveis, apesar de todo o processo
evolutivo do universo, podem levar a um padrão quase inflexível de
pensamento e comportamento. Estas pessoas até toleram outras
opiniões, mas consideram-se os senhores da verdade.
No outro extremo estão os que entram num período
conturbado de sentimentos e ansiedade indefinidos. Um novo
sentimento de tensão relativo a sua própria personalidade dará uma
sensação de insatisfação, de vazio e de não-preenchimento.
Sofrem terrivelmente sem que saibam porque e entram numa crise
existencial, definida por Jung como “paixão da alma”.
É o processo de evolução, para uma consciência mais
ampla, que é acelerado, e pode levar a um desequilíbrio psíquico.
Ocorre uma desestruturação da personalidade com o questionamento
dos valores sociais, morais e religiosos.
Se acontece inconscientemente, projeta-se “em
símbolos coletivos, em mitos, religiões, filosofias, através
dos quais, aqueles que a eles aderem, recebem uma certa animação.
Mas então, o fim da evolução fica tão obscuro quanto seu
princípio”.
Quando o processo é consciente, “tantas
obscuridades são iluminadas, que de um lado, toda a personalidade
fica iluminada e de outro, o consciente ganha, infalivelmente,
uma amplitude e profundidade.”
PASSIO ANIMI
Vou relatar uma experiência única chamada por Jung de
passio animi (paixão da alma). Rudhear, Rajneesh e
Rohden abordam também este aspecto da mudança da personalidade sob
um enfoque diferente. Vamos ver também o que diz o médico e o
místico sobre neurose. Gostaria de ser um intelectual, alguém que
tivesse o dom de desenvolver um raciocínio lógico, claro, objetivo,
com um bom vocabulário, usando os termos corretos e mais adequados à
situação. Mas com esforço, vou procurar ser o mais correto
possível, porque o meu intelecto está subordinado ao sentimento, à
emoção e, então vou relatar o meu saber (conceituado mais à
frente) sobre os fatos relativos aos últimos acontecimentos da minha
vida. O processo de transferência do conteúdo inconsciente para a
consciência é a peça chave.
Dou a palavra a Jung: “A natureza determinada e
dirigida dos conteúdos da consciência é uma qualidade que
pressupõe persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas
do processo psíquico. Estas qualidades são absolutamente
necessárias para todas as profissões desde as mais qualificadas até
mesmo o mais simples trabalhador braçal. ... Esta qualidade é
freqüentemente prejudicada nas pessoas neuróticos onde a parede
divisória situada entre a consciência e o inconsciente é muito
mais permeável. O psicótico, por outro lado, se acha inteiramente
sob o influxo direto do inconsciente.”...
“O encontro com o inconsciente é determinado pelo
destino; o homem natural nem suspeita sua existência até que um dia
se vê mergulhado nele. É um processo psíquico por excelência. O
objetivo essencial é o desenvolvimento da consciência, isto é, em
primeiro lugar a tomada de consciência dos conteúdos até então
projetados. Este esforço leva pouco a pouco ao conhecimento do
outro, bem como ao conhecimento de si e assim, a distinguir o que a
pessoa é na realidade daquilo que nela é projetado ou que ela
fantasia a seu respeito. Neste processo estamos tão empenhados em
nosso próprio esforço, que mal percebemos a que ponto a natureza
nos impele e nos ajuda: em outras palavras, mal percebemos o quanto o
instinto está interessado em atingir esse nível superior de
consciência.”... Esse impulso em direção a uma consciência
superior e mais ampla tem o objetivo de reconstituir o ser humano na
sua totalidade, unificando o masculino e o feminino, o eu consciente
e o inconsciente, “ou seja, compor aquele homem primordial,
bissexuado, que se basta a si mesmo.” É dentro de si mesmo que
ele vai buscar compor e encontrar a sua totalidade.
“A
união do consciente ou da personalidade do eu (masculino ou
feminino) com o inconsciente personificado pela anima (feminino ou
masculino) gera uma nova personalidade que compreende esses dois
componentes; a nova personalidade não é, de forma alguma, um
terceiro termo entre o consciente e o inconsciente, ela é os dois.
Ela transcende a consciência e por esta razão já não deve ser
definida como eu, mas sim como
si-mesmo.”
A integração do si-mesmo é, no fundo, um problema
da segunda metade da vida e acontece quando o inconsciente invade a
consciência, inundando-a com os seus arquétipos.”( Obs. Este
processo não é comum a todos).
“De que maneira podemos confrontar-nos com o
inconsciente? Esta é a questão fundamental, na prática, de todas
as religiões e de todas as filosofias.
O inconsciente, com efeito, não é isto ou aquilo,
mas o desconhecimento do que nos afeta imediatamente. ... o
inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em
relação à consciência. Podemos inverter a formulação e dizer
que a consciência se comporta de maneira compensatória com relação
ao inconsciente. A razão desta relação é que:
- os conteúdos do inconsciente possuem um valor liminar, de sorte que todos os elementos por demais débeis permanecem no inconsciente;
- a consciência, devido a suas funções dirigidas, exerce uma inibição (que Freud chama de censura) sobre todo o material incompatível, em conseqüência do que, este material incompatível mergulha no inconsciente;
- a consciência é um processo momentâneo de adaptação, ao passo que o inconsciente contém não só todo o material esquecido do passado individual, mas todos os traços funcionais herdados que constituem a estrutura do espírito humano e
4) o inconsciente contém todas as combinações da
fantasia que ainda não ultrapassaram a intensidade liminar e, com o
correr do tempo e em circunstâncias favoráveis, entrarão no campo
luminoso da consciência.
A reunião destes
fatos facilmente explica a atitude complementar do inconsciente em
relação à consciência.”
Já
Rudhyar aborda um outro aspecto: “No
homem comum o comportamento, sentimentos e pensamentos são, em
grande parte, controlados por impulsos inconscientes dos instintos
genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa. A
personalidade do homem comum se desenvolve ao longo de diretrizes
estabelecidas pelas imagens, ídolos e atitudes coletivas de sua
sociedade. No homem comum a personalidade é um fator coletivo; a
tribo como um todo, e não algum ser humano individual dentro dela,
tem personalidade própria. A tribo é a unidade da consciência e da
atividade humana: ela constitui um motor complexo cujo propósito
(instintivo e compulsório) é a perpetuação e a expansão de um
dado grupo humano num ambiente específico. A vida é a modelagem
interior das vidas coletivas de todos os membros da tribo, que os
energiza pelo poder de profundas e inconscientes raízes
biopsíquicas.
Uma
religião e um certo tipo de organização social constituem a base
dupla sobre a qual se desenvolve uma cultura. Ambas representam a
resposta coletiva de um grupo de homens aos desafios básicos de seu
ambiente terrestre.”...
“A
personalidade do homem que libertou sua consciência dos modelos e
impulsos coletivos é basicamente diversa da do homem ordinário.
Aquele
que segue a estrada do autoconhecimento experimenta uma cisão quase
completa de sua personalidade nitidamente diferenciada de todas as
raízes raciais e culturais.
A
obra ou função da nova personalidade é a de lançar as bases de
uma nova sociedade e cultura que aparecerá no devido tempo. A velha
personalidade teve por fim promover a exploração das energias da
terra e os valores materiais e da cultura. O propósito da nova
personalidade é o de liberar o poder transformador do espírito”.
A palavra com Rajneesh: “De acordo com Nietzsche a
energia que move a vida é a energia da vontade, a vontade do poder.
A vontade do poder atrai naturalmente o ego. A luta é basicamente o
caminho da vontade. Levar a vontade a uma perfeição total será a
libertação. Quanto mais você puder se controlar, quanto mais puder
controlar os seus instintos, quanto mais puder controlar o seu corpo
e seu intelecto, mais poderoso se sentirá. Você se torna um mestre
interiormente. Mas isto se dá através de conflitos, através de
luta e violência. Quanto mais inatingível o fim, maior perfeição
do ego existirá - um ego puro, perfeito, absoluto. Conseguir a
perfeição do ego é tornar-se o centro de todo o universo.
Intelectualmente é concebível, é existencialmente impossível.
O Tantra só pode atrair em um nível muito profundo
- àqueles que já se analisaram, que realmente lutaram através da
vontade do poder por muitas vidas. Então o Tantra os atrai porque
podem compreendê-lo.
O Tantra não o seduzirá no início, porque pede uma
entrega, não uma luta. Pede que você flutue, que não nade. Pede
que você se mova com a corrente, não contra ela. Fala sobre a
bondade da natureza. Confie na natureza; não lute contra ela. Até
mesmo sexo é bom. Confie nele, siga-o, flua para ele; não lute
contra ele. Não-luta é o ensinamento central do Tantra. Deixe-se
fluir, entregue-se.
Não há satisfação do seu ego através dele. Como
primeiro passo, pede para o seu ego ser dissolvido. Isto, antes de
qualquer coisa.”
NEUROSE
O médico:
Transtorno psíquico que não se faz acompanhar de grave
desintegração da personalidade. Refere-se ao tipo da adaptação
que uma pessoa realiza a certas situações, às quais
inconscientemente atribui a capacidade de gerar inquietação e
ansiedade. O tipo de adaptação constitui a natureza da neurose. A
causa é de ordinário a existência, dentro da pessoa, de um
conflito emocional, desejos contraditórios, em geral de natureza
muito complexa.
As emoções são impulsos para o agir, planos
instantâneos para lidar com a vida. Os estados emocionais que
tipificam a nossa vida emocional decorrem da loteria genética, vão
da ousadia à timidez. Pessoas de temperamento agressivo presumem a
ameaça e partem para a ação. Desafiam as regras, tornam-se
rejeitados pelos colegas, podem chegar em casos extremos às drogas e
à delinqüência. Os deprimidos apresentam dificuldades no
relacionamento e para reagir às derrotas da vida. A emoção abafada
resulta em embotamento, distância. A emoção extremada reverte-se
em depressão, ansiedade.
A angústia é, de fato, o fenômeno básico da neurose.
A angústia ou ansiedade é a tensa, desagradável e absorvente
expectativa fisiopsíquica de um perigo iminente, cuja fonte é
imaginária, desconhecida ou exageradamente avaliada. É o medo vago,
sem causa, indefinível, que parece vir "de dentro da alma".
Há gradações, da simples intranquilidade até a angústia terrível
e catastrófica. Os sintomas específicos (angústia, fobias,
obsessões, conversões e certas inibições - a impotência sexual,
p. ex.). e os acessórios (depressão, hipocondria, irritabilidade,
insônia, dores de cabeça, vertigens, taquicardia ou prisão de
ventre, dores e espasmos em qualquer parte do corpo, tremores,
paralisias, cegueira, convulsões, etc.) se mesclam, em cada caso,
sob proporções variáveis, bastante individualizadas. A neurastenia
se caracteriza, entre outras manifestações, por dor de cabeça,
tonteiras, insônia, irritabilidade, hipocondria, astenia ou cansaço
fácil, intolerância aos ruídos, impotência.
É um ciclo vicioso que passa as dificuldades de geração
em geração, mesmo que elas mudem de forma.
O
místico:
O sentir é emoção. O mal-estar psicológico é a
doença da emoção. O sofrimento é resultante da escolha. A escolha
é a satisfação de um desejo, de uma vontade, é produto da mente e
não do sentir. A mente deve agir em consonância com o sentir. Somos
infelizes por termos permitido que a mente separe os nossos objetivos
do nosso fim último. Deste modo, somos arrastados para bem longe
pela ação dos meios. A morte autêntica acontece quando cessam
todas as nossas ilusões, quando deixamos de viver num mundo de
expectativas, emoções, idéias, hábitos, passado e futuro. Então,
encontramos a paz. São inúteis as idéias e intenções de
transformar, pois só geram sofrimento. Ao libertarmo-nos da longa
fixação dos nossos hábitos não seguimos nem obedecemos a nenhum
destino fixo; passamos a aceitar plenamente tudo o que as nossas
vidas nos trouxerem como frutos da verdadeira liberdade. Toda a
infelicidade, todo o sofrimento e todas as poluições provêm da
nossa mente.
A PERSONALIDADE
O “EU” natural (físico e mental) é o ser
resultante da complexa engenharia da herança genética, moldado pela
experiência de vida e pelos valores morais da família e do grupo
social. O meu mundo, meu universo está dentro de mim, na minha
mente. Eu sou meus pensamentos, minhas emoções, minha memória.
Sinto e vejo o mundo através do “EU” usando os sentidos, as
emoções, a mente e o saber. O saber (sapere, saborear, sentir a
qualidade, o sabor, experimentar) inclui a intuição, o conhecimento
intelectual e a experiência de vida.
A personalidade do “EU” é constituída por três
sistemas de motivação e ação que se opõem habitualmente no
conflito.
O eu instintivo (id) representa o conjunto de impulsos
inatos (sexuais e agressivos) e de desejos recalcados que são
energias que se acumulam e precisam de satisfação.
O eu moral-religioso, a consciência moral (superego),
define as ações como certo e errado (culpado). A ação por ele
qualificada traz imediatamente a resposta: bem estar ou mal estar.
Esta sensação de prazer ou dor reflete marcas inconscientes
provocadas por ações ou omissões que originaram ameaça, ou
representaram, um prêmio ou castigo, durante a infância e a
adolescência. Aqui está introjetada a culpa em que nos sentimos
absolutamente condenados a sofrer com requintes de crueldade que só
a imaginação culposa é capaz, por crimes que não cometemos, mas
que é como se os tivéssemos cometido.
O eu central (ego - “centro do meu campo de
consciência”), especula, indaga, questiona e pesquisa; é
conhecimento e memória (a experiência de vida); moldado pelas
exigências do superego é responsável pelo ajustamento do
indivíduo. (Ele se manifesta através da vontade. A direção da
vontade é determinada pelo equilíbrio dos desejos, em geral
conflitantes, que se originam do id e do superego). Cabe ao ego
manter o equilíbrio de poder.
“No homem, os instintos não estão em harmonia uns
com os outros: exercem violenta pressão uns sobre os outros e tentam
eliminar-se reciprocamente. No entanto, segundo a ótica otimista dos
antigos, esta luta não tem caráter caótico, mas busca uma ordem
superior.”(Jung).
QUEM SOU EU
Cada um, cada ser humano, tem uma herança própria,
específica, e, tal qual uma semente, lançada em solo fértil
germina, desenvolve-se , cresce e produz os seus frutos. Os frutos
representam o seu trabalho no desenvolvimento da técnica e da arte,
as relações com o mundo e com o seu semelhantes.
O SEXO E A EVOLUÇÃO
MUDANÇA DE VALORES MORAIS E DA CIVILIZAÇÃO
Características do homem comum:
- A natureza determinada e dirigida dos conteúdos da
consciência.
- O comportamento, sentimentos e pensamentos do homem
comum são, em grande parte, controlados por impulsos inconscientes e
pelas tradições coletivas.
- a vida é movida pela energia da vontade, a vontade do
poder. O caminho da vontade se dá através de conflitos, através de
luta e violência.
- vivem no mundo dual, fragmentado: certo e errado, bom
e mau, belo e feio, Deus e o Diabo. A vida é baseada em escolhas. A
mente absolve ou condena, justifica e compara.
- têm muitas certezas e poucas dúvidas, baseadas no
conhecimento intelectual, no raciocínio e na lógica que são muito
desenvolvidos.
- em geral têm uma profunda aversão em conhecer alguma
coisa a mais sobre si mesmos.
- vivem num mundo de expectativas, emoções, idéias,
hábitos, passado e futuro.
De alguma forma, não se sabe como, o “eu” em dado
momento, volta-se para o seu interior, na busca de si mesmo. Esta
mudança implica em conhecer a outra face da mesma moeda ( o “eu”),
o seu lado escuro, desconhecido, e, quase sempre, pouco evoluído.
Não é um ato de vontade, nós pela primeira vez, desde que temos
vida consciente, sentimos que não escolhemos. Da mesma forma que
existe uma pulsão para a experiência sexual, há uma pulsão para o
desenvolvimento de níveis de consciência, ou seja há a evolução.
E, de repente, sem avisos, vai chegando o sofrimento.
Indefinido e forte. Stress?, depressão?, ansiedade?, alguns o chamam
de “crise existencial”. Por que? é a ameaça de morte dos
antigos valores e o medo do novo, do desconhecido. Não queremos
abandonar as nossas idéias, os nossos ideais pelos quais lutamos e
sofremos e somos capazes de matar ou morrer. São valores genéticos,
fazem parte da nossa essência, da nossa natureza .
Crises após crises, ele começa a encontrar a paz
através da entrega, da não-luta. Deixa-se mover de acordo com o
fluxo, flutua na corrente da vida, não luta contra ela, move-se com
a corrente. Não luta contra a natureza, mas abandona-se, entrega-se,
confia nela. Entrega-se à corrente do sentimento e do amor.
A entrega permite-lhe aos poucos tornar-se íntegro e
uno. Afinal o sentimento une, sintetiza, unifica. A entrega vai
romper os condicionamentos psicológicos e permitir a reconstrução
do ser na sua totalidade, unificando o masculino e o feminino, o eu
consciente e o inconsciente e compor aquele ser primordial,
bissexuado, que se basta a si mesmo.
O sexo participa desta etapa da evolução. Esta
tremenda energia que é o sexo somente vai ser entendida com a
evolução consciente. O sexo é a energia à qual temos que nos
entregar totalmente, conscientemente, sem resistências e então, se
transformará num ato de amor.
A nova personalidade que está nascendo é formada pelo
consciente (personalidade do eu - masc. ou fem.) e o inconsciente
(personificado pela “anima”- masc. ou fem.), uma bipolaridade que
se mantém no todo. É a integração do si mesmo. Este é o mundo do
SER.
Características;
- a vida é movida pela sabedoria, amor, harmonia,
liberdade, cooperação, respeito mútuo e amizade. O saber (sapere,
saborear, sentir a qualidade, o sabor, experimentar) inclui a
intuição, o conhecimento intelectual e a experiência de vida
consciente.
- O sentir muda a forma de relacionamento da pessoa com
o Universo. Afinal o sentimento une, sintetiza, unifica e liberta o
ser dos condicionamentos psicológicos do mundo dual.
- a pessoa passa a ter a percepção, a compreensão do
todo, do conjunto. Consegue superar a visão dual, fragmentada, do
certo e errado, bom e mau.
- vivem segundo o princípio de que “cada pessoa tem a
sua hora e cada coisa o seu tempo.”
- o autoconhecimento é uma necessidade básica. Há um
mergulho no mundo interior, na busca da verdade, do fim último da
existência.
- nas relações pessoais, procuram a comunicação de
alma para alma. A comunicação, sem a interferência do superego,
sintonizada na freqüência do amor.
- são tolerantes, não julgam e não têm
pre-conceitos.
- vivem o aqui-agora e a não-escolha; têm muitas
dúvidas e poucas certezas. Estão abertos ao novo e sabem que as
certezas de hoje podem estar superadas amanhã e que cada pessoa tem
uma compreensão própria da realidade.
- não são movidos pela fé como a entende a pessoa
comum, mas “sabem” que Deus é a Realidade Una e Única, o Todo,
o Absoluto.
MUDANÇAS
Na época da mudança o meu caminho é o caminho do
cristo. “Pai afasta de mim este cálice” é o meu pedido
desesperado. Eu estou só. Não há ninguém que possa ajudar-me,
médicos, padres, pastores, gurus, pais-de-santo, esotéricos,
ninguém, nem o Pai. A paixão e a morte é uma experiência
pessoal, ninguém pode fazê-lo por mim. Este cálice amargo, terei
que bebê-lo integralmente, gota a gota. Terei que carregar a minha
cruz porque esta é a passagem para a ressurreição de uma nova
vida. Eu tenho que expiar os meus e os pecados dos meus antepassados
que recebi pela herança genética. Eu não tenho escolha.
Passaram-se os tempos da escolha, do mundo dual. Depois de mergulhar
no inconsciente, “a descida aos infernos” sou levado, tragado,
sugado para este túnel de fogo onde vou entrar inteiro, queimar
inteiro, pois este é o verdadeiro batismo para a nova vida. “Pai
afasta de mim este cálice! Tenho que ser crucificado
Caminhávamos,
com os pés descalços, numa madrugada fria de lua cheia. A luz da
lua, uma mescla de dourado e prata, iluminava as montanhas, os vales,
a estrada de terra, sinuosa, acompanhando o riacho. As cercas de
arame farpado, as árvores junto à estrada e as sombras formadas
pela lua são diferentes, misteriosas.
Cada noite é uma morte e cada amanhecer é um novo
nascimento. A ausência, como diz Saramago, é igual à morte com uma
única e essencial diferença, a esperança.
As flores ou espinhos que piso são o caminho da vida.
"Lei
da Unidade de Todas as Coisas"
Por intermédio deste princípio que é holístico e
ético, que regula o comportamento de nós humanos, ampliaremos o
dito cristão de "amarás ao outro como a ti mesmo" pela
consígnia holística amarás ao outro que é você mesmo. Existe uma
unidade que transcende o singular e nos coloca numa situação da
qual somos constituídos e constituintes. Como falei anteriormente,
este paradigma passará a formar parte de uma nova ética que deixa
para trás a noção de pecado e de um regulador e administrador
moral divino e/ou pessoal, dissociado dos acontecimentos cotidianos
dos seres humanos. Portanto, o tema não é a aceitação de um
mandato de não gerar ato cruel consigo mesmo ou com os outros (moral
repressiva) e sim desenvolver as capacidades de preservação que o
feminino divino tem nos seres humanos. Isto no sentido ecológico
geográfico natural como também príncipio ético para com a
economia, a tecnologia, a sexualidade, enfim no que está presente na
vida dos seres humanos.
Desisti da minha velha mania de querer converter
alguém... Converter por que e para que? Se, no fim, todo homem tem
de seguir o caminho que segue?
Desisti, também, de querer aliviar os sofrimentos dos
sofredores. Aliviar por que e para que? se cada devedor tem de saldar
o débito do seu karma? Que insensatez seria se eu impedisse o
devedor de solver o seu débito! Não será melhor que cada um pague,
de vez, à eterna Justiça, o que deve? Que fique quite com a
Constituição Cósmica, do que protelar essa quitação para tempos
vindouros?
Não desisti, entretanto, de enriquecer a minha
vida, diariamente, através do diálogo com as pessoas, com a
natureza e com o mundo. Conseguiremos desenvolver a plena consciência
se não restringirmos o fluxo aberto do coração.
Esta é a corrente do autoconhecimento, da reconversão
para o amor. Faça o número de cópias que julgar conveniente e
mande para os seus amigos e conhecidos. Vamos dar as mãos e formar a
corrente do amor!
VAMOS DAR AS MÃOS!
Por que não desenvolver e ampliar a consciência, para
perceber e compreender a vida que me cerca, abrir o coração, SENTIR
que eu estou interligado com a natureza, com o sol, com a minha
galáxia, com o todo o universo? Eu sou uma onda, um pulso energético
que percorre o universo e hoje estou aqui, no meio desta incrível
beleza que é o planeta Terra. Vamos dar as mãos! Vamo-nos unir e
eliminar as diferenças. Elas são criadas pela nossa mente, elas
são uma ilusão. O preto e o branco, o belo e o feio, o bom e o mau,
deus e o diabo são uma coisa só. Despertemos! O amor unifica, a
mente divide. A ignorância é a fonte do nosso sofrimento. A vida é
felicidade, o céu, se soubermos vivê-la com amor. A infelicidade, o
inferno, é produto da nossa mente, das nossas escolhas, das nossas
divisões, do nosso egoísmo. Vamos dar as mãos, formemos a corrente
do amor, da compreensão, da camaradagem, da cooperação, da
amizade, da harmonia e seremos felizes. Teremos, então, a verdadeira
LIBERDADE que é a de sermos nós mesmos.
“O
espírito e o instinto são autônomos, cada um segundo a sua
natureza, e os dois limitam em igual medida o campo de aplicação da
vontade”, afirma Jung.
"Nós devemos aceitar como um axioma
incontestável que em todas as operações da natureza e da arte nada
é criado; uma quantidade igual de matéria existe antes e depois do
experimento". A lei de conservação da massa é generalizada
para a lei de conservação de energia e de movimento, ou quantidade
de movimento. São leis naturais e a sua propriedade mais importante
é sua universalidade. (Marcelo Gleiser).
Tempo e espaço são modos ou atributos de percepção
sensitiva e concepção intelectual. Se o homem não percebesse os
fenômenos materiais pelos sentidos, nem concebesse as leis da
energia pelo intelecto, nada saberia ele de tempo e espaço, nem de
causalidade. Se fôssemos capazes de conhecer algo independentemente
de tempo, espaço e causalidade, estaríamos fora do mundo dos
fenômenos e suas leis; estaríamos no mundo do eterno, do infinito,
do absoluto. (Rohden).
Tem sido chamada de centelha divina ou mônada,
mas talvez seja mais sábio concebê-la como uma semente de Deus,
da qual pode se desenvolver uma planta de substância e poder
espirituais se for plantada em solo fértil, na estação
oportuna e sob condições climáticas adequadas. O solo
fértil é a hereditariedade e o ambiente da pessoa real. A estação
e o clima oportunos referem-se às condições sociais e cósmicas
sob as quais o ser real vive nesta Terra. Mas, como nos ensina Jesus
na parábola evangélica, muitas sementes não chegam a alcançar o
estágio de plantas plenamente amadurecidas. ( Tríptico
Astrológico – Dane Rudhyar – Ed. Pensamento – São Paulo,
1995).
As
sementes do karma passado não podem germinar se forem queimadas no
fogo divino da sabedoria” (Paramahansa Yogananda).
“natureza
do ser humano produto do extenso conflito entre a proibição e o
instinto neurótico de quebrar a própria regra. O desejo de violá-lo
persiste inconsciente tanto quanto sua proibição.”
“A
linguagem existe para esconder o pensamento?”
“Imanência
da linguagem no pensamento?
O
racionalismo puro é estéril, o irracionalismo simples é
regressivo. O pensamento surge no “entre”.(Peter Sloterdijk.)
“As
guerras nascem nos espíritos dos homens, e é nos espíritos dos
homens que devem ser erguidas as defesas da paz”. Introdução à
Constituição da UNESCO, Londres, novembro de 1945.
Ditado
Árabe: Se Alá predestinou alguém a morrer num determinado
lugar, suscitará nele o desejo de viajar até lá.
Quando
os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras
constroem moinhos de vento." (Prov. Chinês)
Para
que os ramos de uma árvore cheguem ao céu, as suas raízes devem
chegar ao inferno. (Máxima alquímica Medieval).
Das
profundezas do nada é que acontece tudo. Por isso mesmo é que a
vida parece às vezes chegar a momentos absolutamente insofismáveis,
nos quais andar para frente é perigoso, mas ficar quieto também é
perigoso. Aceite os riscos.
(Oscar Quiroga.)
O
único progresso verdadeiro é o progresso moral; o resto é,
simplesmente, ter mais ou menos bens. (José Saramago.)
Os
homens se enganam quando acreditam que são livres; e o motivo desta
opinião é que têm consciência de suas ações, porém ignoram as
causas que as determinam; por conseguinte o que constitui a própria
idéia de liberdade é o fato de desconhecerem a causa de suas ações
- Espinosa
Ao
libertarmo-nos da longa fixação dos nossos hábitos não seguimos
nem obedecemos a nenhum destino fixo; passamos a aceitar plenamente
tudo o que as nossas vidas nos trouxerem como frutos da verdadeira
liberdade (Hôgen Daidô)
Vida e morte
(matar e gerar vida) não é um ato (capacidade) individual, mas a
natureza inerente ao próprio cosmos (vida original). Das trevas da
nossa ignorância provém o medo que sentimos pela nossa morte e pela
dos outros. E o apego à vida e à morte causa o medo da morte que
nos impede de viver a vida da verdadeira morte.
“Noite
passada fiz outra vez a promessa: jurei por tua vida jamais desviar
os olhos de tua face. Se golpeares com a espada, não me esquivarei.
Não buscarei cura em mais ninguém, pois a causa de minha dor é
ver-me longe de ti. Joga-me ao fogo; se deixar escapar um único
suspiro não serei homem de verdade. Surgi do teu caminho como pó.
Retorno agora ao pó do teu caminho.”- Rumi
“O homem massificado não tem valor; é uma simples
partícula que perdeu a sua alma, isto é, o sentido de sua
humanidade”(C. G. Jung.).
“Quem faz depender de si mesmo, se não tudo,
quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não se prende a
outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau êxito de
sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é sábio, na
verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante".(Platão).
O
ETERNO RETORNO
“Homem! Tua vida inteira, como uma ampulheta, será
sempre desvirada outra vez e sempre se escoará outra vez -, um
grande minuto de tempo no intervalo, até que todas as condições, a
partir das quais vieste a ser, se reunam outra vez no curso circular
do mundo. E então encontrarás cada dor e cada prazer e cada amigo e
inimigo e cada esperança e cada erro e cada folha de grama e cada
raio de sol outra vez, a inteira conexão de todas as coisas. Esse
anel, em que és um grão, resplandece sempre outra vez. E em cada
anel da existência humana em geral há sempre uma hora, em que
primeiro para um, depois para muitos, emerge o mais poderoso dos
pensamentos, o pensamento do eterno retorno de todas as coisas: - é
cada vez, para a humanidade, a hora do meio-dia. ... O mundo
subsiste; não é nada que vem a ser, nada que perece. Ou antes: vem
a ser, perece, mas nunca começou a vir a ser e nunca cessou de
perecer -, conserva-se em ambos... Vive de si próprio: seus
excrementos são seu alimento.”( Nietzsche, Friedrich. O Eterno
Retorno, textos de 1881; A Vontade de Potência, textos de
1884-1888).
A
ESSÊNCIA DAS COISAS
A
essência de tudo na terra, visível e invisível é espiritual.
Ao
penetrar na cidade do invisível, meu corpo está envolto por meu
espírito. Assim quem desligar o corpo do espírito ou o espírito do
corpo está desviando seu coração da verdade.
A
flor e sua fragrância são uma coisa só; cegos são os que negam a
cor e a imagem da flor, dizendo que ela é apenas perfume pairando no
ar. Êles se portam como aqueles deficientes de olfato, para quem as
flores são apenas forma e colorido, sem perfume.
Tudo
o que existe na natureza existe em ti, e tudo o que tens em ti existe
na natureza.
Estás
além do alcance das coisas mais próximas e, mais ainda, a distância
não te separa das coisas que estão longe de ti.
Todas
as coisas, das mais baixas às mais sublimes, das menores às
maiores, existem dentro de ti como coisas iguais.
Num
átomo, são encontrados todos os elementos da terra. Uma gota d’água
contém todos os segredos dos oceanos.
Num
momento da mente são encontrados todos os movimentos de todas as
leis existentes. (Gibran K. Gibran.)
O AMOR
"Quando
o amor vos chamar, segui-o, embora seus caminhos sejam agrestes e
escarpados;
E
quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe, embora a espada
oculta na sua plumagem possa ferir-vos; E quando ele vos falar,
acreditai nele, embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o
vento devassa o jardim. Pois da mesma forma por que o amor vos coroa,
assim ele vos crucifica. E da mesma forma por que ele contribui para
vosso crescimento, ele trabalha para vossa poda. E da mesma forma por
que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que
se embalam ao sol, assim ele também desce até vossas raízes e as
sacode no seu apego à terra. Como feixes de trigo, ele vos aperta
junto ao seu coração.
Ele
vos debulha para expor a vossa nudez.
Ele
vos peneira para libertai-vos da palha.
Ele
vos mói até a extrema brancura.
Ele
vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então,
ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma no Pão Místico do
Banquete Divino..."(Gibran K. Gibran).
O
POETA
"Neste mundo, sou um forasteiro, um estranho...
Sou um desconhecido dos meus parentes e amigos; quando com um deles me encontro, por acaso pergunto a mim mesmo: "Quem será esse? Onde e como o conheci? Qual o determinismo estranho que nos aproxima e nos faz falar?"
Sou estranho à minha própria alma: por isso, quando a minha língua fala, não sei se ouço a minha própria voz.
Sou estranho ao meu corpo. Quando diante do espelho, observo em mim como que expressões que não correspondem ao meu íntimo sentir, e vejo, no fundo das minhas pupilas, imagens que não traduzem, de modo algum, o que está na minha alma.
Neste mundo, eu sou um forasteiro. Não existe quem compreenda uma palavra, ao menos, da linguagem da minha alma.
Eu sou um estrangeiro neste mundo. Sou o poeta que, de passagem pela vida, canta em seus versos o que ela possui de mais profundo, harmonioso e belo.
eu sou um estrangeiro, e sempre serei um estrangeiro para mim, até que a morte me leve e me faça voltar à minha verdadeira pátria." (Gibran Kahlil Gibran).
"Neste mundo, sou um forasteiro, um estranho...
Sou um desconhecido dos meus parentes e amigos; quando com um deles me encontro, por acaso pergunto a mim mesmo: "Quem será esse? Onde e como o conheci? Qual o determinismo estranho que nos aproxima e nos faz falar?"
Sou estranho à minha própria alma: por isso, quando a minha língua fala, não sei se ouço a minha própria voz.
Sou estranho ao meu corpo. Quando diante do espelho, observo em mim como que expressões que não correspondem ao meu íntimo sentir, e vejo, no fundo das minhas pupilas, imagens que não traduzem, de modo algum, o que está na minha alma.
Neste mundo, eu sou um forasteiro. Não existe quem compreenda uma palavra, ao menos, da linguagem da minha alma.
Eu sou um estrangeiro neste mundo. Sou o poeta que, de passagem pela vida, canta em seus versos o que ela possui de mais profundo, harmonioso e belo.
eu sou um estrangeiro, e sempre serei um estrangeiro para mim, até que a morte me leve e me faça voltar à minha verdadeira pátria." (Gibran Kahlil Gibran).
C. G. Jung
O encontro com o inconsciente é determinado pelo
destino; o homem natural nem suspeita sua existência até que um dia
se vê mergulhado nele. É um processo psíquico por excelência. O
objetivo essencial é o desenvolvimento da consciência, isto é, em
primeiro lugar a tomada de consciência dos conteúdos até então
projetados. Este esforço leva pouco a pouco ao
conhecimento do outro, bem como ao conhecimento de si e assim, a
distinguir o que a pessoa é na realidade daquilo que nela é
projetado ou que ela fantasia a seu respeito. Neste processo estamos
tão empenhados em nosso próprio esforço, que mal percebemos a que
ponto a natureza nos impele e nos ajuda: em outras palavras, mal
percebemos o quanto o instinto está interessado em atingir esse
nível superior de consciência. Esse impulso em direção
a uma consciência superior e mais ampla tem o objetivo de
reconstituir o ser humano na sua totalidade, unificando o masculino e
o feminino, o eu consciente e o inconsciente, “ou seja, compor
aquele homem primordial, bissexuado, que se basta a si mesmo.
É dentro de si mesmo que ele vai buscar compor e encontrar a sua
totalidade.
.........................................................................................................
O
autoconhecimento é um processo que leva a compor com o outro, a
sombra em nós. A
sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade,
ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não
viveu. A sombra é detectável em figuras do mesmo sexo que o
sujeito, e que são os principais atores de seus sonhos e fantasias.
Estes personagens tem traços de caráter e maneiras de agir que são
a contrapartida da personalidade consciente. Quanto mais unilateral é
o consciente, mais acentuados são esses personagens.
Ao analisá-los
descobre-se que encarnam pulsões reprimidas, e também valores
rejeitados pelo consciente. Ela permanece, entretanto, como o eterno
antagonista, pois nasce, sob outras formas, do próprio
desenvolvimento do sujeito. É sempre o conjunto do que o sujeito não
reconhece e que o persegue incansavelmente.
Em
geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em
causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais
radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A
experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou
ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de
apoio e mergulhe na obscuridade.
O despertar da consciência deixa cair o manto das
convenções e evolui para um confronto direto com a realidade, sem
os véus da mentira, nem enfeites de qualquer espécie. O homem
mostra-se, portanto, como ele é, e revela o que antes estava oculto
sob a máscara da adaptação convencional, isto é, a sombra.
Acontece também a sombra derrubar a ordem estabelecida e tomar o
consciente de maneira temporária ou durável. Assistimos, então,
seja a comportamentos contraditórios, seja a um verdadeiro
transtorno da personalidade. Ao tornar-se consciente, a sombra é
integrada ao eu, o que faz com que se opere uma aproximação à
totalidade. A totalidade não é a perfeição, mas sim o ser
completo. Pela assimilação da sombra, o homem como que
assume o seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua
esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica,
que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e
ilusões. E é justamente isso que faz do homem o problema
difícil que ele é.
(JUNG, Carl Gustav - OBRAS COMPLETAS DE C. G. JUNG -
Volume XVI/2 Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferência - pág.
106, Ed. Vozes, 1987. A Natureza da Psique - Volume VIII/2, pág.
145.- Ed. Vozes, 1986).
Astrologia
Escorpião
Símbolo da morte como momento de crise necessária à
transformação. Representa a perda, pelo homem, de seu estado de
inocência e pureza, devido à paixão pelos prazeres sensuais. Ao
mesmo tempo como símbolo de transformação, Escorpião simboliza a
vitória final do ser espiritual sobre o reino da matéria.
Caráter enérgico e prático, tenaz e ativo, prudente e calculador,
predispõe, também, a capacidades psíquicas. Negativamente origina
excesso de sensualidade, caráter vingativo e invejoso,
irritabilidade e vaidade.
Plutão
Na área espiritual Plutão representa a vontade
criadora, a vivificação, a transformação. Na área material, a
decomposição, a violência e a morte. No sentido geral, Plutão
simboliza as mutações profundas tanto na natureza como no
homem.
Número 8
O 8 é o símbolo do Logos ou poder criativo
universal tem como melhor representação gráfica de seus
atributos a figura do caduceu, cetro do Deus Mercúrio. Vara
entrelaçada com duas serpentes, que na parte superior tem duas
pequenas asas ou um elmo alado. Esotericamente, o caduceu
simboliza o caminho da iniciação. A vara do caduceu corresponde
à coluna vertebral e as duas serpentes representam a ascensão das
duas modalidades da energia Kundalini (energia vital latente) que se
concentra no chacra localizado na base da espinha dorsal. As
serpentes entrelaçadas do caduceu formam um 8, simbolizando o
equilíbrio dinâmico entre as duas forças opostas (masculina e
feminina). Devido a sua forma, o oito representa também o eterno
movimento em espiral dos céus. Trata-se de um símbolo muito antigo
encontrado na Suméria e na Índia, gravado em pedra. Na Grécia foi
utilizado como atributo do deus Mercúrio. O caduceu é considerado
também emblema do equilíbrio moral e da boa conduta: nesse caso, o
bastão expressa o poder; as serpentes, a sabedoria; as asas a
diligência; e o elmos pensamentos elevados.
Tantra
Quem segue a via tântrica não procura
desapegar-se do mundo fenomenal apoiando-se nas forças do intelecto.
Ele visa transmutar toda a natureza, a partir de sua forma mais
grosseira, a manifestação corporal. Para executar esta obra
gigantesca ele recorre à Energia Fundamental agora sonolenta e
inerte sob a aparência da matéria. Kundalini-Yoga, ou
Tantra-Yoga.
Libertar a energia adormecida no corpo é a função do
Kundalini-Yoga, ou Tantra-Yoga.
O corpo é percorrido por uma infinidade de canais
(nadi) que veiculam os alentos vitais (prana), isto é, a energia do
corpo sutil que vivifica o corpo grosseiro. Esses nadis são
inumeráveis mas dentre esses, três têm importância capital: Ida,
Pingala e Sushumna. Sushumna, a nadi suprema, é o canal central, que
corre no interior do eixo cerebrospinal. De um lado e de outro dela,
estão: à esquerda Ida, a nadi lunar, simbolizada pelo
branco-pálido, e Pingala, a nadi solar – à direita -, simbolizada
pelo vermelho-sangue. Essas duas nadis que representam os dois pólos
opostos da manifestação, estão ativas no homem comum, ao passo que
Sushumna, a via mediana que tem a natureza do fogo, está inativa e
nela o prana não circula.
Todas as nadis têm a origem no chacra mais baixo, já
visto, que é o muladhara ( o suporte da base), de onde se elevam,
ramificando-se por todo o corpo. Porém, Sushumna sobe direto até o
topo da cabeça e desemboca no lotus coronal ( de mil pétalas)
enquanto Ida e Pingala, uma partindo do testículo direito e a outra
do testículo esquerdo, vão dar respectivamente na narina esquerda e
na narina direita. No entanto, essas duas nadis não seguem um
caminho paralelo a Sushumna, mas se entrecruzam, como as serpentes do
caduceu de Mercúrio.
Quem segue a via tântrica não procura desapegar-se
do mundo fenomenal apoiando-se nas forças do intelecto. Ele visa
transmutar toda a natureza, a partir de sua forma mais grosseira, a
manifestação corporal. Para executar esta obra gigantesca ele
recorre à Energia Fundamental agora sonolenta e inerte sob a
aparência da matéria.
Kundalini está adormecida, obstruindo com sua cabeça a
entrada de Sushumna, conhecida como “o caminho pelo qual se vai ao
céu de Brahman”, fechando a via de retorno. Todas as técnicas têm
por objetivo despertar esse Poder enrolado. O objetivo é
despertar Kundalini para fazê-lo percorrer novamente, em sentido
inverso, as etapas do movimento criador, num movimento de retorno à
Fonte, onde finalmente a Energia é reintegrada na Consciência
Suprema.
TAO
Um dos conceitos mais antigos e mais centrais da
Filosofia chinesa é TAO, que os Jesuítas traduziram por Deus, mas
não é. Tao é o Nada, Puro Nada, em oposição ao mundo da
realidade. Nada porque em si ele não aparece no mundo dos sentidos,
mas é apenas o seu organizador. Tao veste e alimenta todas as
coisas, mas não impera sobre elas. Escreve Lao-Tse em Tao Te
King:
Tao é
a fonte do profundo silêncio,
Que o
uso jamais desgasta.
É como
uma vacuidade,
Origem
de todas as plenitudes do mundo.
Desafia
as inteligências aguçadas.
Desfaz
as coisas emaranhadas,
Funde
em uma só todas as cores,
Unifica
todas as diversidades:
Tao é
a fonte do profundo silêncio.
Atua
pelo não agir.
Ninguém
lhe conhece a origem,
Mas é
o gerador de todos os deuses.
Trata-se, portanto, de uma concepção que se situa
na fronteira do mundo das aparências. Nele os opostos se dissolvem
na indeterminação, embora ainda existam potencialmente. Estes
germes, porém, indicam algo que corresponde, em primeiro lugar, ao
visível, isto é, a alguma coisa que tem a natureza de uma imagem;
em segundo lugar, corresponde ao audível, isto é, a algo que tem a
natureza de palavra; e em terceiro lugar, à extensão no espaço,
isto é, a alguma coisa dotada de forma. Mas estas três coisas não
são claramente distintas nem objetivas; constituem uma unidade
não-espacial (sem um em cima e um em baixo) e
atemporal (sem um antes ou um depois). Jung, Carl
Gustav - "A Dinâmica do Inconsciente", págs. 494 e sgts.
- Obras completas de C. G. Jung - Vol. VIII - Ed. Vozes - 1984).
Prossegue Lao-Tse:
Nas
profundezas do insondável,
Jaz o
Ser.
Antes
que céu e terra existissem,
Já era
o Ser,
Imóvel,
sem forma,
O
Vácuo, O Nada, berço de todos os Possíveis.
Para
além de palavra e pensamento
Está
Tao, origem sem nome nem forma,
A
Grandeza, a Fonte eternamente borbulhante,
O ciclo
do Ser e do Existir.
Tao é
insondável,
É
invisível, apesar do seu Poder.
O mundo
não o conhece.
Se reis
e príncipes tivessem consciência de Tao,
Todas
as creaturas lhe prestariam
Espontânea
homenagem.
O céu
e a terra se uniriam em júbilo,
Para
fazer descer suave orvalho,
E os
homens viveriam em paz,
Mesmo
sem governo algum.
Quando
Tao assume forma,
Pode
ser conhecido mentalmente,
Mas
todos os conceitos
São
apenas indícios
Que
apontam para o Inconcebível.
Não se
esqueça o homem da sua limitação.
Quando
consciente da sua limitação,
Não há
perigo.
Neste
caso a relação
Entre o
concebível e o Inconcebível
É como
entre regatos e lagos
E as
grandes correntes que demandam os mares.
Eternos
são o céu e a terra,
Porque
não são auto-existentes,
Porque radicam em algo
Além
deles mesmos.
Esta é
a razão da sua eternidade.
...........................................................................
Em todo homem pulsa o movimento que procede do Tao e
tende a levá-lo de volta a ele. Mas o homem se deixa cegar pelos
sentidos e pelos desejos. É ele próprio que busca a volúpia, a
alegria, o ódio, a fama e as riquezas. Seus movimentos buscam a
violência e desencadeiam tempestades, seu ritmo é uma ascensão
impetuosa seguida de uma queda brusca e vertical. Desesperado ele se
apega a tudo o que é irreal. A natureza de seus desejos o conduz à
multiplicidade, de tal modo que ele não
consegue mais sequer conceber o Único. E quando deseja a sabedoria e
a bondade, é uma catástrofe ainda pior. Não resta senão um
remédio: voltar à Origem, ao Repouso, ao Tao.
O Tao está em nós, mas só podemos alcançá-lo
quando deixamos de querer, ainda que seja a bondade, ou a sabedoria.
Que lástima, esses desejos desenfreados de conhecer o Tao! Esse
triste esforço de buscar palavras para designá-lo, para invocá-lo!
O verdadeiro sábio contempla a inefável Doutrina, que restará para
sempre inexprimível. Quem seria capaz de expressar o Tao? Aquele que
sabe não fala; aquele que fita não sabe.
Tampouco eu te direi o que é o Tao. Cabe a ti mesmo
descobrir. Livrando-te do desejo e da emoção, vivendo sem esforço,
sem o que chamas de ação, libertando-te de tudo que se opõe à
Natureza. Com um movimento tão calmo e constante quanto o do oceano
à nossa frente, deixa-te levar em direção ao Tao. O mar não se
move por ser esse seu desejo, nem por saber que é bom ou sábio
assim fazê-lo. Ele se move porque assim deve ser, sem que precise
saber disso. Assim também te deixarás levar em direção ao Tao, e
quando lá chegares, nada saberás de tudo isso, pois então serás o
próprio Tao. (Autor desconhecido.)
Chama-se eixo do Tao o estado em que não há oposição
entre o eu e o não-eu. O Sentido (Tao) se obscurece
quando fixamos o olhar apenas em pequenos segmentos da existência.
YANG-YING
Yang
- Ying, é o símbolo chinês da distribuição dual das forças
universais, compreendendo o princípio ativo ou masculino (yang) e o
feminino ou passivo (ying). Este símbolo tem a forma de um círculo
dividido por uma linha sigmóide, e as duas partes assim formadas
possuem, quando observadas, uma tendência dinâmica, o que não
seria possível se o círculo fosse dividido por uma linha reta
(diâmetro). Na representação gráfica desse símbolo, a metade
clara representa o yang, e a escura, o ying. Contudo a primeira
apresenta em seu interior um ponto negro, e a segunda um ponto
branco, significando que ambas possuem em si mesmas, o germe do
princípio contrário. Em conjunto, harmonizados, se neutralizam,
constituindo a unidade ou Tao.
O conceito esotérico de polaridade representa um dos
princípios fundamentais do hermetismo: tudo é dual; tudo tem
dois pólos; tudo tem seu par de opostos; os antagônicos e os
semelhantes são a mesma coisa; os opostos são idênticos em sua
natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as
verdades são semiverdades; todos os paradoxos podem reconciliar-se.
O Eterno Criativo atua através do sexo e, em
variáveis graus, através de qualquer relacionamento polarizado,
porque a união polar abre a porta para a nova variação – para o
mistério. Deus é consubstanciado na renovação, não na mesmice:
na aventura, não em atos conservadores. Não há divindade, não há
gênio humano, não há verdadeira grandeza em parte alguma, salvo
através daquilo que libera o novo, o ainda-por-vir, o
ainda-por-conhecer. (Rudhyar)
O karma é criado não tanto por aquilo que se faz, mas
pelo que se deixa de fazer no momento certo. O
karma é causado por uma negação – consciente ou inconsciente –
do potencial criativo do momento, por quantos vivam esse momento.
“Como
a psique e a matéria estão encerradas em um só e mesmo mundo, e,
além disso, se acham permanentemente em contato entre si, e em
última análise, se assentam em fatores transcendentes e
irrepresentáveis, há, não só a possibilidade, mas até mesmo uma
certa probabilidade de que a matéria e a psique sejam dois aspectos
diferentes de uma só e mesma coisa”(Jung).
O UNIVERSO
“Antes de Darwin, era amplamente aceita a idéia de
que havia uma evolução no reino humano, uma evolução da
consciência humana. No século XVIII, os filósofos progressistas
ficaram obcecados com a idéia de progresso humano: da barbárie à
civilização, e daí à ciência. Mas não achavam que a evolução
ocorria no reino biológico. Darwin mostrou que se podia ter uma
teoria científica da evolução biológica, e então a evolução
humana estava encaixada numa estória evolutiva bem maior, a evolução
da vida. Mas os físicos resistiram à idéia de que a física ou a
química evoluíssem, estavam trancados numa visão do universo como
eterno, como uma grande máquina que funcionasse para sempre mas que
estivessem gradualmente perdendo força, termodinamicamente
apagando-se.... Hoje temos uma cosmologia radicalmente evolutiva, mas
ainda existe uma relíquia do pensamento antigo, na medida em que a
maioria das pessoas acredita que o universo é regido por leis
eternas da natureza. O que sugiro é que as assim chamadas leis da
natureza não são fixas. Se vivemos num cosmos radicalmente
evolutivo, então porque as leis da natureza não deveriam evoluir
também? E a minha idéia é de que elas são mais como hábitos;
que o que acontece na natureza depende do que aconteceu antes. Existe
uma espécie e memória na natureza, e, não, leis matemáticas
eternas.
Eu diria que o universo não é uma máquina, é mais
como um organismo, e a teoria do Big Bang é como os mitos
tradicionais da ruptura do ovo cósmico. Ela nos diz que o universo
começou pequeno e que tem crescido desde aquele começo e que, à
medida que cresceu, novas estruturas e padrões se desenvolveram
dentro dele. É como um embrião. Nenhuma máquina começa pequena e
cresce e forma novas estruturas, mas a árvore o faz ao crescer de
uma semente; e um embrião o faz ao crescer de um óvulo fertilizado.
Efetivamente nossa cosmologia moderna nos deu uma visão de todo o
universo como um organismo em desenvolvimento. ... Quando pergunto às
pessoas a que se resume o dawinismo, respondem que é sobrevivência
do mais apto, donde os seres humanos são a espécie mais bem
adaptada e têm todo o direito de estar no topo da escada. Quão
profundamente enraigado é esse mito, essa camisa-de-força, do
progresso linear?”... Eu diria que a visão tradicional é que a
consciência humana é um aspecto inferior de alguma forma superior
de consciência, que o próprio cosmos é atravessado por uma espécie
de mente ou consciência. A Terra certamente tem uma. Em última
instância há a consciência ou a mente de Deus”.(Rupert
Sheldrake).
AMOR
ROMÂNTICO
Na
imaginação popular ocidental a palavra amor acabou por evocar quase
que exclusivamente o amor romântico. Emoção pura, paixão, amor à
primeira vista – para nós o amor romântico é algo tão certo que
para alguns pode ser surpresa o fato de que o conceito de amor, como
emoção altamente valorizada e não como paixão clandestina, seja
algo relativamente novo na história da humanidade.
O
amor romântico não é um tipo de amor que desafie tanto as
convenções – pois, de todas as formas de amor é a mais
convencional – quanto o amor que nasceu com aparente
espontaneidade: indesejado sem acatar sugestões e ordens dos outros,
em estado bruto e sem premeditação, do fundo do coração, não
cerebral e não genital.
O
amor romântico sempre está em oposição aos padrões de
comportamento tribais, culturais e formais: casamentos arranjados, em
que as noivas e seus dotes são propriedades a serem entregues ao
noivo e à sua família ou em que títulos de nobreza se combinam em
acordos de conveniência, nada têm a ver com os sentimentos dos
indivíduos envolvidos. ...
No
mundo antigo, o amor romântico era praticamente desconhecido e
raramente celebrado. A palavra amor não existia. O sentimento de
amor romântico, como o conhecemos, era o amor homoerótico que
homens gregos mais velhos dedicavam a jovens efebos. O amor conjugal,
que certamente existia, não foi muito celebrado, pelo menos na
literatura da época que sobreviveu até nossos tempos. A longa
metáfora sobre a república, ou o estado de perfeito equilíbrio,
escrita por Platão, discute o casamento basicamente como conjunção
carnal. No entanto, o simpósio do mesmo Platão celebra o amor
homoerótico nos mais declarados termos românticos.
Paixão
sem controle – E isso é bem diferente da atração erótica
extraconjugal heterossexual, que resulta em devastação e morte
violenta. Em “Hipólito” de Eurípedes, a jovem rainha Fedra
apaixona-se pelo filho ilegítimo de seu marido, que a rejeita e a
leva ao suicídio. Fedra não é romântica, mas a vítima de uma
paixão incontrolável e indesejada imposta a ela por Afrodite. Tal
desejo sexual beira à maldição.
Enquanto
para as mentes clássicas a intervenção de eros nas relações
humanas é sinal de caos e desgraça, para a sensibilidade moderna
com inclinação romântica eros é o motor da história da vida, uma
fonte aparentemente inesgotável de fantasias de desejo –
principalmente heterossexuais. ...
Por
volta dos séculos 14 e 15, pelos menos nas sociedades aristocráticas
européias, eros tinha se transformado numa arte, digna de toda a
atenção do cortesão. O ideal desses romances é uma refinada
gentillesse, não uma sexualidade crua. O amor de um cortesão por
uma dama, geralmente a mulher de um outro homem, tem sido
interpretado como a secularização do culto medieval à Virgem
Maria, uma feminização da patriarcal Igreja Católica. Essas
histórias são invariavelmente contadas a partir da ótica
masculina: a dama é quase uma santa de uma beleza sobrenatural ou,
em desenvolvimentos posteriores, a dama é cruel e até diabólica a
paixão do cortesão transforma-se em castigo.
Nos
séculos seguintes, o amor romântico triunfaria como uma espécie de
mística pessoal e particular associado a um alto valor cultural. ...
O
amor romântico, a mais precária e tênue das emoções, certamente
sobreviverá ao milênio que assistiu a seu nascimento e o fará
enquanto houver uma civilização razoavelmente afluente, pois o
segredo do amor é econômico: é um luxo que apenas uns poucos podem
ter, assim como o gosto refinado à mesa é conseqüência da fartura
de comida. O amor romântico é uma ilusão? Loucura? Sonho ideal?
Assim como a maior parte da espécie humana vai continuar a acreditar
em deuses de várias denominações, embora nenhum deus tenha sido
visto, homens e mulheres continuarão a ouvir o canto de sereia do
amor romântico e viverão em função de sua busca. Os biólogos
podem continuar a descrever os rituais de corte dos mamíferos,
acasalamento, associação, fidelidade ( nos caos em que há
fidelidade de fato), mas, mesmo sabendo muito bem que a canção nos
diz que “apaixonar-se pelo amor é apaixonar-se pelo faz-de-conta”,
sendo humanos somos a espécie que precisa ouvir mentiras da forma
mais delicada possível.” (Joyce
Carol Oates, escritora – The New York Times Magazine, tradução de
Ruth Helena Bellinghini. Jornal O Estado de São Paulo,
Caderno2/Cultura. D5, Domingo 18 de julho de 1999.)
NIETZSCHE
ERA UM POETA
Nietzsche
não é um autor difícil. É o estilista mais latino e mais claro da
língua alemã. A sua prosa é a do grande poeta que era. Exprime com
igual mestria o lirismo modesto e profundo dos alemães, a claridade
irônica dos latinos, o grande “pathos” da Bíblia; a sua língua
soa como os aforismos densos dos filósofos pré-socráticos, como as
canções, ébrias de luz, dos provençais, e, às vezes como
versículos mágicos das escrituras sagradas do Oriente. Mas é
sempre clara, bastante clara para esconder sob a virtuosidade dos
meios estilísticos as contradições internas. Nietzsche é o último
filho da “velha Alemanha ” humanista, filho espiritual de Goethe
e Hölderlin, e, ao mesmo tempo, profere fanfarronadas de uma ébria
vontade de dominação, que se perderam no reino sóbrio de Bismark,
e só mais tarde tiveram eco. Nietzsche é um inimigo mortal dos
alemães – a expressão “bom europeu” é dele – e, ao mesmo
tempo, proclama o individualismo germânico, o amoralismo bárbaro
dos gigantes da Edda. Nietzsche foi o inimigo mais furioso que o
cristianismo jamais teve. E todavia esse filho de gerações de
pastores luteranos sofre intimamente de conflitos religiosos e é,
afinal, um cristão pascaliano. Karl Jaspers chama à obra de
Nietzsche “um campo de ruínas, coberto de destroços
contraditórios”. O único laço que lhes dá coerência é a
paixão intelectual de Nietzsche, que lembra as personagens de
Dostoiésvski; é a sua personalidade, agitada nas profundezas da
existência humana, o lanço apaixonado de toda a sua personalidade,
o que faz da sua loucura a sua obra máxima. Lembra a verdade dos
antigos – que os poetas são uns delirantes. Friedrich Nietzsche
era um poeta. (Otto Maria Carpeaux.)
QUEM
SABE NÃO PERDOA
O
homem aproximou-se do cardo.
Ergueu
a mão para tocá-lo. Um ai! de dor brotou dos seus lábios, um rubi
de sangue no seu dedo brilhou.
Tocou
no espinho e foi ferido. O homem limpou o sangue, e disse, fitando o
cardo:
- Eu te perdôo.
Admirei
e louvei em mim aquele homem que possuía o doce dom de perdoar.
E
aconteceu que veio outro homem. Parou junto ao cardo. Ergueu a mão
para tocá-lo, e o espinho o picou.
Mas o
homem limpou em silêncio a ferida. Contemplou com amor o espinho. E
não disse:
- Eu te perdôo.
Tive
então este pensamento.
- O primeiro homem era um santo. Sabia perdoar. Este outro não sabe.
Mas o
meu Senhor, interrompendo a minha cisma, disse:
- Quem não sabe és tu.
- Como, Senhor? Então aquele homem ...?
- Sim, é um santo, porque perdoou quando foi preciso!
- E o segundo?
- É mais santo ainda, porque não tem necessidade de perdoar.
E
como eu ficasse perplexo, com o olhar perdido na incompreensão, na
dúvida, o
Senhor
me disse:
- O espinho fere, porque é espinho. Ainda que ele quisesse jamais poderia
perfumar.
O primeiro homem sentiu a dor da picada. E como não sabia nada,
atribuiu culpa ao cardo. Mas, como era limpo de coração, perdoou. O
outro sentiu a mesma dor. Mas, como sabia que todo espinho fere, pois
que o espinho é assim, não se sentiu ofendido. E como nada tinha a
perdoar, não perdoou.
Desde
então sofro menos quando os cardos me ferem. Dói-me a ferida. Mas
minha
alma
sabe que não há ofensa. E como não há ofensa, não há perdão. É
assim que do meu peito brota um piedoso amor pelo espinho, que não
chegou a ser flor.
Meu
sofrimento se transforma em ternura.
Porque
já aprendi a não perdoar.
Santiago
Arguello
“Não
te amo, como se fosses rosas de sal, topázio
ou flecha cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
ou flecha cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma.
Te
amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.
dentro de si, oculta a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.
Ta
amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira
senão
assim deste modo em que não sou nem és,
tão perto que sua mão sobre meu peito é minha,
tão perto que se fecha teus olhos com meu sonho.”
tão perto que sua mão sobre meu peito é minha,
tão perto que se fecha teus olhos com meu sonho.”
“No
homem comum, que só superficial e hesitantemente é um “indivíduo”,
e cujo comportamento, sentimentos e pensamentos são, em grande
parte, controlados pelas compulsões inconscientes dos instintos
genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa, a
personalidade é um produto final. Ela representa o florescimento de
uma sociedade e de uma cultura, de uma certa ancestralidade e de um
ambiente específico; e como tal ele depende, para sua energia e mais
ainda para seus motivos e metas, de fatores fundamentais dentro da
vida da coletividade humana da qual constitui uma expressão
diferenciada. A personalidade do homem que é parte integrante de sua
sociedade e de seu grupo cultural ou de classe, e que se sente –
consciente ou inconscientemente – enraizado em sua coletividade, é
fundamentalmente semelhante à obra de arte de um gênio criador; e o
criador, no caso, é a coletividade.
É
certo que dentro desse homem e no cerne de sua personalidade brilha a
luz da Estrela que constitui sua identidade espiritual; mas seu fator
espiritual é muito mais latente que efetivo. O ego do homem – seu
muito acalentado ego que representa apenas uma individualidade e uma
carcaça temporária – não
é
essa Estrela. Ele é uma estrutura opaca, que em geral projeta uma
sombra pesada. Praticamente, em todos os casos, ele se deteriorará
após a morte, e via de regra, se torna tristemente empedrado antes
mesmo de morrer. Quando muito, o ego de uma pessoa é como o centro
de uma bela e fragrante flor da personalidade; e todas as flores são
a expressão direta das raízes da planta.
Aquele que
palmilha a Estrada Iluminada deve, a princípio, experimentar uma
cisão quase completa de sua personalidade nitidamente diferenciada
de todas as raízes raciais e culturais. Isto não significará, em
última análise, real isolamento em relação à humanidade, pois o
indivíduo iluminado pela Estrela, que vive na Terra, sempre
participa profundamente das lutas de sua sociedade; mas essa
participação difere, quanto à natureza, polarização e energia
impulsionadora, daquela do homem cuja personalidade se desenvolve ao
longo de diretrizes estabelecidas pelas imagens, ídolos e atitudes
coletivas de sua sociedade. O direito e o poder de participar da obra
da civilização como pessoa ( ou “personagem”) ativado pelo
espírito e iluminada pela Estrela só os adquire o homem que
libertou sua consciência dos modelos e impulsos coletivos, e que,
desse modo, se tornou, ao menos por algum tempo, um indivíduo
“isolado”. Reorientação, repolarização, reavaliação
implicam esse estágio de “isolamento”; mas o isolamento não
significa, para nós os modernos, sair a meditar, à maneira iogue,
embrenhando-se numa floresta e “longe de tudo”. Refere-se a uma
mudança de consciência, que pode ocorrer bem no meio de uma grande
multidão – conquanto o isolamento pode tornar o processo, durante
certo tempo, muito mais fácil.
Quando pelo menos
a tentativa desse processo é completada, a personalidade do homem
que sofreu a metamorfose é basicamente diversa da do homem
ordinário. É mais “semente” do que “flor”. A semente ainda
é um produto final da planta, contanto que se desenvolva nela, e o
indivíduo ativado pelo espírito e iluminado pela Estrela é ainda
parte de sua sociedade, desde que viva nela; no entanto, toda a
polarização da semente está voltada para o futuro. À medida que
cresce dentro da flor, ela leva não só essa flor como toda planta
efêmera a morrer. Analogamente, o aparecimento de certo tipo de
indivíduos, altamente individualizados e iluminados pelo espírito
numa sociedade, revela o fato de que essa sociedade alcançou seu
ápice como organismo cultural de origem terrestre.
A nova
personalidade emergente da crise da metamorfose já não é,
principalmente, nem exclusivamente, energizada pelas energias
genéricas inerentes à raça humana ou pela sustentação cultural
que todo indivíduo normal tem em sua tradição e comunidade. Ela é
energizada pelo oceano universal do espírito, pela inter-relação
entre Sol e Estrela. A obra ou função da nova personalidade não é
a de perpetuar ou provocar o florescimento da sociedade e da cultura
que condicionou o desenvolvimento da velha personalidade; mas, isto
sim, lançar as bases de uma nova sociedade e cultura que aparecerá
no devido tempo. A velha personalidade – nascida de “Adão”,
segundo o simbolismo bíblico – teve por fim promover a exploração
das energias da Terra e os valores do cultivo e da cultura. O
propósito da nova personalidade, nascida através de “Cristo”, é
o de liberar o poder transformador e criativo do espírito; liberá-lo
como um motor libera poder. Nessas condições, enquanto a velha
personalidade pode ser comparada a uma expressão de arte e cultura
(como usualmente se compreendem esses termos), a nova personalidade
deve ser considerada um motor.
No homem comum a
personalidade é um fator coletivo; a tribo como um todo, e não
algum ser humano individual dentro dela, tem personalidade própria.
A tribo é a unidade da consciência e da atividade humana: ela
constitui um motor complexo cujo propósito (instintivo e
compulsório) é a perpetuação e a expansão de um dado grupo
humano num ambiente específico. A vida é a modelagem interior das
vidas coletivas de todos os membros da tribo, que os energiza pelo
poder de profundas e inconscientes raízes biopsíquicas.
Uma religião e
um certo tipo de organização social constituem a base dupla sobre a
qual se desenvolve uma cultura. Ambas representam a resposta coletiva
de um grupo de homens aos desafios básicos de seu ambiente
terrestre.
A personalidade
do homem que libertou sua consciência dos modelos e impulsos
coletivos é basicamente diversa da do homem ordinário.
Aquele que segue
a estrada do autoconhecimento experimenta uma cisão quase completa
de sua personalidade nitidamente diferenciada de todas as raízes
raciais e culturais.
A obra ou função
da nova personalidade é a de lançar as bases de uma nova sociedade
e cultura que aparecerá no devido tempo. A velha personalidade teve
por fim promover a exploração das energias da terra e os valores
materiais e da cultura. O propósito da nova personalidade é o de
liberar o poder transformador do espírito”.
(Rudhyar, Dane -
Tríptico Astrológico - Ed. Pensamento - São Paulo, 1987, págs.
208 e sgts.).
CONSCIÊNCIA UNILATERAL
Carl
Gustav Jung em A Natureza da Psique, afirma que a natureza
determinada e dirigida dos conteúdos da consciência é uma
qualidade que só foi adquirida relativamente tarde na história da
humanidade e falta, amplamente, entre os primitivos de nossos dias.
Também esta qualidade é freqüentemente prejudicada nos pacientes
neuróticos que se distinguem dos indivíduos normais pelo fato de
que o limiar da consciência é mais facilmente deslocável, ou, em
outros termos: a parede divisória situada entre a consciência e o
inconsciente é muito mais permeável. O psicótico, por outro lado,
se acha inteiramente sob o influxo direto do inconsciente.
A
natureza determinada e dirigida (racional, lógica, objetiva)
da consciência é uma aquisição extremamente importante porque se
por um lado custou à humanidade os mais pesados sacrifícios, por
outro prestou o mais alto serviço. Sem ela a Ciência, a técnica e
a civilização seriam simplesmente impossíveis, porque todas elas
pressupõem persistência, regularidade e intencionalidade fidedignas
do processo psíquico. Estas qualidades são absolutamente
necessárias para todas as competências, desde o funcionário mais
altamente colocado, até o médico, o engenheiro e mesmo o simples
“bóia-fria”.
A
ausência de valor social cresce, em geral, à medida que estas
qualidades são anuladas pelo inconsciente, mas há também exceções,
como por exemplo, as pessoas dotadas de qualidades criativas. A
vantagem de que tais pessoas gozam consiste precisamente na
permeabilidade do muro divisório entre a consciência e o
inconsciente. Mas para aquelas organizações sociais que exigem
justamente regularidade e fidedignidade, estas pessoas excepcionais,
quase sempre, pouco valor representam.
Por
isso não é apenas compreensível, mas até mesmo necessário, em
cada indivíduo, que este processo seja tão estável e definido
quanto possível, pois as exigências da vida o exigem. Mas estas
qualidades trazem consigo também uma grande desvantagem: o fato de
serem dirigidas para um fim encerra a inibição e/ou o bloqueio de
todos os elementos psíquicos que parecem ser, ou realmente são
incompatíveis com ele (instintivos, subjetivos, intuitivos),
ou são capazes de mudar a direção preestabelecida e, assim,
conduzir o processo a um fim não desejado. Mas como se conhece que o
material psíquico paralelo é incompatível? Conhecemo-lo por
um ato de julgamento que determina a direção do caminho escolhido e
desejado. Este julgamento é parcial e preconcebido, porque escolhe
uma possibilidade particular, à custa de todas as outras. O
julgamento se baseia, por sua vez, na experiência, isto é, naquilo
que já é conhecido. Via de regra, ele nunca se baseia no que é
novo, no que é ainda desconhecido e no que, sob certas
circunstâncias, poderia enriquecer consideravelmente o processo
dirigido. É evidente que não pode se basear, pela simples razão de
que os conteúdos inconscientes estão à priori excluídos da
consciência.
Por
causa de tais atos de julgamento o processo dirigido (racional,
lógico) se torna necessariamente unilateral, mesmo que o
julgamento racional pareça plurilateral e despreconcebido. Por fim,
até a própria racionalidade do julgamento é um preconceito da pior
espécie, porque chamamos de racional aquilo que nos parece racional.
Aquilo, portanto, que nos parece irracional, está de antemão fadado
à exclusão, justamente por causa de seu caráter irracional, que
pode ser realmente irracional, mas pode igualmente apenas parecer
irracional, sem o ser em sentido mais amplo.
A
unilateralidade é uma característica inevitável, porque
necessária, do processo dirigido, pois direção implica
unilateralidade. A unilateralidade é, ao mesmo tempo, uma vantagem e
um inconveniente, mesmo quando parece não haver um inconveniente
exteriormente reconhecível, existe, contudo, sempre uma
contraposição igualmente pronunciada no inconsciente, a não ser
que se trate absolutamente de um caso ideal em que todas as
componentes psíquicas tendem, sem exceção, para uma só e mesma
direção. É um caso cuja possibilidade não pode ser negada em
teoria, mas na prática raramente acontecerá. A contraposição é
inócua, enquanto não contiver um valor energético maior. Mas se a
tensão dos opostos aumenta, em conseqüência de uma unilateralidade
demasiado grande, a tendência oposta irrompe na consciência, e isto
quase sempre precisamente no momento em que é mais importante manter
a direção consciente. Assim um orador comete um deslize de
linguagem precisamente quando maior é seu empenho em não dizer
alguma estupidez. Este momento é crítico porque apresenta o mais
alto grau de tensão energética que pode facilmente explodir, quando
o inconsciente já está carregado, e liberar o conteúdo
inconsciente.
Nossa
vida civilizada exige uma atividade concentrada e dirigida da
consciência, acarretando, deste modo, o risco de um considerável
distanciamento do inconsciente. Quanto mais capazes formos de nos
afastar do inconsciente por um funcionamento dirigido, tanto maior é
a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando
irrompe, pode ter conseqüências desagradáveis.
A SOMBRA
O
autoconhecimento, segundo Carl Gustav Jung, é um processo que leva
a compor com o outro, a sombra em nós. A sombra representa, na
realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada
indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu.
A
sombra é detectável em figuras do mesmo sexo que o sujeito, e que
são os principais atores de seus sonhos e fantasias. Estes
personagens tem traços de caráter e maneiras de agir que são a
contrapartida da personalidade consciente. Quanto mais unilateral é
o consciente, mais acentuados são esses personagens.
Ao
analisá-los descobre-se que encarnam pulsões reprimidas, e também
valores rejeitados pelo consciente.
Ela
permanece, entretanto, como o eterno antagonista, pois nasce, sob
outras formas, do próprio desenvolvimento do sujeito. É sempre o
conjunto do que o sujeito não reconhece e que o persegue
incansavelmente.
Em geral, tomar
consciência da sombra provoca conflitos que põem em causa os
hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais radicalmente os
diversos espelhos da consciência de si. A experiência do que foi
reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou ao consciente desarticula
o eu, faz com que perca seus pontos de apoio e mergulhe na
obscuridade.
O despertar da
consciência deixa cair o manto das convenções e evolui para um
confronto direto com a realidade, sem os véus da mentira, nem
enfeites de qualquer espécie. O homem mostra-se, portanto, como ele
é, e revela o que antes estava oculto sob a máscara da adaptação
convencional, isto é, a sombra. Ao tornar-se consciente , a sombra é
integrada ao eu, o que faz com que se opere uma aproximação à
totalidade. A totalidade não é a perfeição mas sim o ser
completo. Pela assimilação da sombra, o homem como que assume o seu
corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera
animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que
assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões.
E é justamente isso que faz do homem o problema difícil que ele é.
Esta realidade
fundamental temos que tê-la sempre presente à consciência, se
quisermos continuar nosso desenvolvimento. Se a repressão não leva
diretamente à estagnação, ela produz pelo menos um desenvolvimento
unilateral, o qual por sua vez resultará numa dissociação
neurótica.
A questão hoje não
é mais: como posso livrar-me da minha sombra ? Pois vimos de perto a
maldição que pesa sobre o ser só metade (1). O que temos de nos
perguntar agora é: como pode o homem conviver com a sua sombra, sem
que isso provoque uma série de desgraças ? O reconhecimento da
sombra é motivo de humildade e até de temor diante da insondável
natureza humana. E é até bom, assumirmos essa atitude prudente,
pois o homem sem sombra julga-se inofensivo, e isto justamente por
ignorar a sua sombra. Mas quem conhece a sua sombra sabe que não é
inofensivo, porque é através dela que a psique arcaica e todo o
mundo arquetípico entram em contato direto com a consciência,
impregnando-a de influências arcaicas. Deste modo, o eu com a sua
sombra não permanece em estado de dualidade e cisão, mas se
reestrutura em uma unidade ainda que conflitiva. Este passo
evolutivo, porém, só faz com que a alteridade do parceiro se
sobressaia mais nitidamente e o inconsciente procure então, via de
regra, superar a distância, através de redobrada atração, para
que a unidade desejada se realize de uma forma ou de outra.
O “homem sem
sombra”, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum,
alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a
respeito de si mesmo. Infelizmente, nem o chamado homem religioso nem
o homem de mentalidade científica constituem exceção a esta regra.
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